Crítica | Marvel Legacy (One-Shot)

Diante da saturação trazida pelo encadeamento de grandes sagas, a Marvel Comics prometeu que, depois de Império Secreto, a editora seguraria narrativas desse porte por pelo menos 18 meses. No entanto, a grande verdade é que, ainda que possa ser verdade que novas sagas não virão tão cedo, houve uma troca conceitual para “fases”. E o one-shot Marvel Legacy e também os 10 one-shots Generations são o pontapés iniciais para esse novo momento na editora, com a volta da numeração antiga das HQs (as cansativas e confusas renumerações deixarão de existir, possivelmente apenas por um tempo) e narrativas debaixo da bandeira do “legado” da editora, de forma que gregos e troianos possam ficar felizes, vendo as versões novas de personagens convivendo com suas versões originais, passam a ser publicadas. O que isso significa exatamente, ainda não está muito claro, mas a volta às raízes pode ser bom para oxigenar a linha editorial da Marvel.

Marvel Legacy estabelece as bases para essa nova fase. De certa forma, é até difícil escrever a presente crítica, pois a edição não segue uma estrutura narrativa que objetiva efetivamente “contar uma história”. O one-shot está muito mais para uma coletânea de curtos teasers sobre o que está por vir, costurado sob o semblante de uma história única do que uma HQ que possa mesmo ser vendida como um one-shot que, normalmente, tem uma história fechada. São 61 páginas sobre o porvir, deixando entrever um pouco do plano macro da editora e, também, testando o terreno de aceitação do público leitor.

Sem dúvida alguma, a mais interessante novidade é a apresentação de um grupo super-heróico formado há um milhão de anos, ainda na idade da pedra. Odin é o líder do grupo e também o único personagem que não é uma entidade incorpórea que faz uso de avatares. Os demais são as versões pré-históricas da Fênix, do Pantera Negra, do Punho de Ferro (aqui, uma mulher), do Mago Supremo (o próprio Agamotto, se seu nome é alguma indicação), de Starbrand/Estigma (no corpo de um brucutu que lembra o Hulk) e, finalmente, do Espírito da Vingança, que “pilota” um mamute. Nós os vemos em meio a uma batalha com um gigantesco Celestial que é usada para fazer a ponte com eventos no presente, em que vemos o Motoqueirorista Fanstama (Robbie Reyes) inexplicavelmente na África do Sul sendo atraído para um lugar misterioso, com o Estigma atual (Kevin Kale Connor) tentando impedi-lo.

São nesses fragmentos de história que a verdadeira substância do one-shot escrito por Jason Aaron se encontra. A narrativa, que envolve o tal Celestial que os Vingadores pré-históricos enfrentam, parece ser tirada diretamente de Terra X, clássica graphic novel de Jim Kruger, Alex Ross e John Paul Leon, ainda que o desenvolvimento da história, desconfio, será radicalmente diferente. Pode ser interessante, mas há muito poucas informações no one-shot para sequer tentar imaginar se o caminho a ser trilhado realmente justificará essa invenção pré-histórica do roteirista.

Entremeando a narrativa principal, vemos (1) Loki arregimentando os gigante de gelo de Jotunheim para um ataque a um armazém secreto da S.H.I.E.L.D., o que o coloca de frente ao Falcão-Capitão América, à Thor Jane Foster e à Coração de Ferro; (2) Steve Rogers em uma road trip em razão da culpa que sente pelo que seu doppelgänger fez em Império Secreto; (3) Odinson se lamentando em Asgardia (4) o desaparecimento do Tony Stark comatoso; (5) Deadpool no banheiro (sim, isso mesmo); (6) Doutor Estranho e Punho de Ferro lidando com uma tentativa de invasão ao Sactum Santorum, o que aponta para a volta (mais uma vez!) de Norman Osborn; (6) Jarvis olhando pela janela da mansão dos Vingadores; (7) Johny Storm e Ben Grimm relembrando o Quarteto Fantástico; (8) um vislumbre do Império Intergalático de Wakanda (!!!); (9) uma mensagem de Sakaar sendo captada pelo estação de monitoramento do espaço profundo da Tropa Alfa; (10) a aguardada volta do Carcaju original; (11) um relance de Gamora atrás das joias do infinito e, finalmente, (12) Franklin e Valeria Richards querendo voltar para casa. Como se pode ver, trata-se da versão em quadrinhos de uma montagem de filme de Michael Bay, em que nada dura mais de uma página ou faz algum sentido em sido mesmo.

A arte da linha narrativa principal fica com Esad Ribić e Steve McNiven e, como sempre, os dois têm o domínio completo de seus traços. Ainda que nada seja muito original, nem mesmo os Vingadores Flintstonianos, o resultado é agradável e eficiente em suas  sequências de ação e em sua grandiosidade. Mas cada pequeno desvio do arco principal ganha arte diferente de um sem-número de bons artistas que vão emprestando seu estilo a cada nova e quase aleatória página.

Marvel Legacy talvez cumpra seu recado de funcionar como um tira-gosto do que ainda está para acontecer, mas, como one-shot, ela não funciona de verdade pela maneira episódica e pouco envolvente com que vai jogando um turbilhão de novas informações para servir de sustentáculo aos próximos vários meses de publicações da editora.

Marvel Legacy (EUA – 2017)
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Esad Ribić, Steve McNiven
Cores: Matthew Wilson
Arte adicional: Chris Samnee, Russell Dauterman, Alex Maleev, Ed McGuinness, Stuart Immonen, Wad Von Grawbadger, Pepe Larraz, Jim Cheung, Daniel Acuña, Greg Land, Jay Leisten, Mike Deodato Jr., David Marquez
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: ainda não publicado
Páginas: 61

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.