Crítica | Marvel NOW! – Capitão América # 1

Não, não e NÃO. O Capitão América não combina com linhas narrativas espaciais, extradimensionais ou extraterrenas!

Ele fica parecendo um peixe fora d’água que, no caso dele, é uma sensação dupla, já que ele é um homem deslocado no tempo tendo em vista seu congelamento no final da Segunda Guerra Mundial e descongelamento nos tempos modernos (ou na década de 60 – precisamente em 11 de março de 1964 – se você for daqueles que acredita mesmo na cronologia da Marvel). Mas o Capitão América, apesar do uniforme espalhafatoso, é, em essência, um soldado. Sim, seu maior inimigo é um cara que tem uma caveira vermelha como rosto (que era uma máscara no começo, diga-se de passagem) e sim, ele já enfrentou diversos outros inimigos dos mais malucos, mas sempre que jogaram o Capitão para lidar com ameaças gigantescas, que engolem mundos, ou que representam duas facções extraterrestres brigando entre si ou pela Terra, fica difícil aceitar sua relevância.

Afinal de contas, ele não tem superpoderes. Tecnicamente, o soro do supersoldado o faz alcançar os limites mais altos da forma física que um ser humano pode alcançar, mas nada mais do que isso. Além disso, sua arma é primordialmente de defesa, não de ataque. O que ele pode fazer contra raios de dizimam planetas inteiros ou contra ETs que têm poderes extraordinários?

Exatamente por compreender essa qualidade bem terrena de Steve Rogers, Ed Brubaker tenha construído, durante bem-sucedidos oitos anos, aqueles que talvez entrem para a história dos quadrinhos como os melhores arcos do herói. Brubaker colocou o Capitão América com os dois pés no chão, enfrentando ameaças mais próximas de sua realidade, envolvendo espionagem e traições. Mas, principalmente, Brubaker desmontou e remontou, brilhantemente, a personalidade de Rogers. Sim, ele matou e literalmente ressuscitou o Capitão, reviveu um dos personagens Marvel que mais tempo ficou morto, tirou o uniforme do herói, deu-lhe uma carreira diferente e fez o diabo, mas sempre dentro de uma narrativa lógica (para o Universo Marvel, claro) e inteligente.

Com o tremendo sucesso de crítica e de vendas que esses oito anos representaram para o Capitão América, é perfeitamente compreensível que, com a saída de Ed Brubaker da série, isso trouxesse uma extraordinária pressão para fazer algo no mínimo tão bom a qualquer um que fosse carregar essa tocha. E também é absolutamente razoável pretender-se que o novo roteirista tentasse fugir, ao máximo possível, da linha narrativa anterior.

Rick Remender (Justiceiro, Venom) foi o escolhido pela Marvel para a difícil missão de fazer algo à sombra do trabalho de Brubaker e, como esperado, ele tratou de dar uma guinada total na direção do que vimos anteriormente na vida do bandeiroso. Mas o que exatamente ele fez e que me levou ao “não, não e não” que encabeça essa crítica? Bem, ele resolveu brincar de “estranho em uma terra estranha” e deu um jeito – canhestro, diga-se de passagem – de jogar o herói perdido na Dimensão Z (seja lá o que isso signifique).

Exatamente isso que vocês leram, meus caros leitores. Remender deve ter encarnado Jim Shooter quando estava escrevendo a terrível série Guerras Secretas, de 1984 e tratou de teletransportar o Sentinela da Liberdade para um local inóspito, desconhecido e que ele, provavelmente, terá que lutar contra ou se aliar a terríveis criaturas para sobreviver.

Não posso culpar Remender por tentar algo pseudo-diferente, mas, enquanto uma estrutura assim funcionou com Hulk (Planeta Hulk, de 2006), creio que isso não se encaixe na essência do Capitão América. É bem verdade que o herói acaba parando lá pela Dimensão Z (só de escrever isso já me sinto ridículo) em razão de um plano maluco do mais estranho de seus arqui-inimigos, o cientista robótico Arnim Zola, que envolve a violenta retirada de sangue de Rogers para mais uma tentativa de replicar o soro que corre em suas veias, mas isso não é suficiente para trazer o herói para algum tipo de realidade que ele conhece. Além disso, o plano de Zola nós só descobriremos de verdade nos próximos números ainda que eu desconfie que seja simples assim: (1) tirar sangue de Rogers, (2) replicar o soro e (3) fazer exército clone para dominar o mundo.

Mas nem tudo se perde. Apesar da trama amalucada, a revista começa com um flashback interessante para a infância de Steve Rogers, em vemos a fibra de sua mãe que um dia se refletiria no filho. Remender faz uma boa – ainda que óbvia – ligação entre o passado remoto de Rogers com a ação já na tal Dimensão Z e isso acaba funcionando marginalmente.

No entanto, entre o flashback e o teletransporte do Capitão América, temos uma sequência genuinamente boa entre Rogers e sua eterna namorada Sharon Carter. Há uma tentativa de flerte engraçada por parte de Rogers e uma “encoxada” excelente de Carter, que basicamente o pede em casamento no metrô de Nova Iorque. Muito divertido, mas, infelizmente, muito curto. Espero que Remender volte a esse diálogo quando o Capitão voltar de onde quer que ele tenha ido.

O trabalho de John Romita Jr. no desenho também não me convenceu. A arte dele até funciona em cenas de ação mais grandiosas, mas nos diálogos intimistas ele não consegue transmitir emoção de maneira eficiente. Além disso, ele sofre um pouco da “síndrome de desproporção de Rob Liefeld” e acaba criando desenhos estranhos. Concretamente, nesse número, tentem reparar no tamanho variável do escudo do Capitão. Uma hora o escudo é grande o suficiente para proteger seu corpo integralmente. Outra hora, o escudo parece mais um frisbee no braço de Rogers. Chega a ser hilário, a não ser que eu tenha perdido alguma coisa na cronologia do Capitão e ele, agora, tenha um escudo que se adapte às suas necessidades.

No final das contas, não seria justo descartar sumariamente o trabalho de Remender e de “Romitinha” com base nas impressões de um número apenas. É um caminho novo – ainda que não original – que os dois estão tentando levar o Capitão. Pode dar certo, mas minha antipatia pelo tipo de narrativa requererá uma boa dose de excelentes números futuros para eu começar a aceitá-la.

Vamos ver e torcer!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.