Crítica | Marvel’s Spider-Man (PS4)

Demoraram literalmente dez anos para fazer o óbvio ululante: copiar Batman: Arkham e expandir o universo de heróis nos games. É mole?

É mole, mas sobe! como diz José Simão. Há quem prefira criticar as cópias. Eu as exalto, se o caso for como o do Spider-Man da Insomniac. Não, o jogo não é genial. Falando sério, é outro óbvio gritante que colocar o Cabeça de Teia em um jogo de mundo aberto, com a qualidade gráfica de hoje e uns filminhos marotos bem encaixados, é segredo pro sucesso. Lembremos, todavia, que o último game minimamente decente do Aranha – Shattered Dimensions – seguiu exatamente as orientações contrárias, enclausurando o herói em fases fechadas. Jênios, estes sim, nunca deixarão de nos brindar com o próprio brilhantismo.

Feitas tais ressalvas, o novo exclusivo para PS4 nem quer saber de disfarçar sua inspiração. Da alternância entre modo furtivo e modo de combate às centenas de colecionáveis e missões secundárias a serem feitas, o aranha imita o morcego sem vergonha nenhuma. Exploração do lore e dos gadgets, referências dos quadrinhos mais obscuros e até um protótipo de Gordon – Yuri Watanabe, criada a menos de dez anos nos quadrinhos – aparecem para deixar o jogador à vontade na pele do herói. Parabéns para o estúdio!

Parabéns, também, por fazer um game extremamente repetitivo, com vilões fraquíssimos, quick-time events de dar nojo e uma história previsível e mediana. Falsa raiva à parte, nada como uma Nova York imersiva e pulsante para nos fazer voltar ao jogo sem cansaço. Particularmente nunca tive TOC por troféus, mas o jogo é tão casual e descompromissado – no melhor dos sentidos – que uma platina “popou” sem muito esforço e com muita diversão.

O game tem pelo menos um grande mérito: usar e abusar do Peter Parker em termos narrativos. Isso é bom e é original em relação aos próprios games tradicionais do Aranha e aos já citados do Batman. Em uma fase mais madura, o Parker que controlamos é aprendiz de Otto Octavius e, aparentemente, possui uma galeria de vilões ainda pequena, o que cria no jogador uma expectativa crescente em ver a vasta lista de antagonistas.

Nem sempre a expectativa é cumprida, tanto em relação aos inimigos quanto aos aliados. Se os vilões que aparecem são geralmente da classe C ou D, os heróis que o ajudam simplesmente…bom, você vai conferir. O fato precioso é que encontrar, pendurando-se por entre os prédios ao som de Jorge Vercillo (para quem tem mau gosto) ou de Ramones (para quem sabe usar o Spotify com decência) locais míticos da Marvel é um verdadeiro prazer. De Nelson e Murdock ao Sanctum Santorum, da Alias Investigações à torre dos Vingadores, o prenúncio do que pode vir, se a Marvel tomar vergonha na cara, é tão espetacular quanto o próprio Homem-Aranha.

Voltando a Peter Parker, é em seu entorno que a história ganha o devido peso. Tia May, Miles Morales e Mary Jane, principalmente, sustentam o lado humano do herói em uma típica aventura de quadrinhos contra o imprestável Martin Li, outro personagem que nasceu há uns dez anos. Aqui é necessário fazer uma reclamação seríssima.

Veja bem – e corrija-me, se for o caso: que eu e meu colega de site Handerson saibamos, Mary Jane sempre foi muita areia pro caminhãozinho de Peter Parker. Ela é a tigresa que o provoca chamando de “Tigrão”. Atriz com sex appeal, ela nunca esteve tão distante do retrato que fizeram dela no game: uma jornalista de beleza, digamos… banal. Não me entendam errado: eu casaria com alguém bonita desse jeito, mas longe ela está de ser o típico mulherão que, antigamente, láaa atráaas, era sinônimo de mulher empoderada – hoje os padrões, dizem os oráculos jovens, mudaram para heroínas sem peito, sem bunda e sem sorriso, vide a própria MJ de De Volta ao Lar: chata, metida, emburrada e com um cabelo bem ruim (o meu cabelo é dez vezes pior, antes que algum bonitinho venha apontar o dedo).

Cazzo! Fizeram com MJ no game o que fizeram com Karen Page na série do Demolidor? Aparentemente sim e eu tenho de me acostumar com isso. Mas há algo pior: o jogo lhe obriga a controla-la em missões fúteis e sem propósito. A primeira até que diverte pela novidade e por trazer em seu bojo Hokusai e Stan Lee. Mas eu nunca quis jogar com Mary Jane. Alguém, em sã consciência, quis? E por que fazê-la jornalista, meu Deus? É a única profissão de coragem que os jênios do roteiro encontraram para dar relevância às paixões dos nossos heróis? Elas não causam drama suficiente sendo…paixões?! Usassem Ben Urich, pelo menos…

E não é só ela que é controlada, além do Aranha. Miles Morales, outro queridinho da nova geração, também é introduzido. “Anthonio”, alguém interessado e sem vida pode perguntar, “você está ansioso para jogar com o Miles no próximo game???”. Não, meu idiota, não estou. Não acho graça ficar trocando de personagem desde GTA V. É verdade que o garoto tem carisma e é um personagem cativante, mas para a galerinha mais excitada, que clama com ardor para vê-lo nos próximos filmes, vai um lembrete e um bom alvitre: Miles Morales é moda, Peter Parker é f***, desculpem-me a frase de Orkut. Tratam MM como a maior invenção da Marvel no milênio. Menos, muito menos! Nada contra o garoto. Só estou longe de ficar enjoado de Peter Parker.

O jogo é bom, quase muito bom, mas falta mais estofo. Imersivo (com a típica trilha sonora super-heróica) e criativo na jogabilidade (ainda que a câmera atrapalhe de vez em quando), consegue esculpir uma história razoavelmente segura, que guarda lá seus momentos emocionantes e belas referências aos quadrinhos. Casual para quem quer passear por Nova York, pode se tornar um desafio para quem é fã da Marvel e do Aranhaverso. É um excelente primeiro passo para um possível UCM nos games – cruzo os dedos por aqui – exatamente por utilizar muito pouco do potencial do Aranha e apostar, com firmeza, no pouco que conseguiu construir.

Marvel’s Spider-Man
Desenvolvedor:
 Insomniac Games
Lançamento: 7 de setembro de 2018
Gênero: Ação/Aventura
Disponível para: PS4

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.