Crítica | Mass Effect 3

estrelas 4,5

O sucesso estrondoso de Mass Effect 2, que ganhou inúmeros prêmios, sendo considerado, de lá para cá, um dos melhores games da geração passada, automaticamente colocou em Mass Effect 3 uma gigantesca responsabilidade. Não somente ele deveria encerrar a trilogia de maneira memorável, como precisava se manter, ao menos, no mesmo nível de qualidade de seu antecessor. Não foi por mero acaso que estamos falando de um dos jogos com lançamento mais polêmico dos últimos anos, com muitos criticando seu desfecho, que forçou a Bioware a lançar um DLC gratuito expandindo o final. Dito isso, apesar dos controversos minutos finais, temos aqui o digno encerramento da jornada de Shepard.

Os Reapers, formas de inteligência artificial que, a cada cinquenta mil anos, exterminam todas as civilizações avançadas da galáxia, criando um ciclo de destruição que se manteve por eras, chegaram à Terra. Em um ataque coordenado e massivo, eles tiram, de imediato, qualquer esperança de vitória. Cabe à comandante Shepard, portanto, unir todas as raças da galáxia para que, juntos, possam destruir os invasores e acabar com esse ciclo de uma vez por todas. O problema é que não somente a Terra vem sendo atacada e será preciso convencer as Asari, os Turians, Salarians, Krogan, Quarians e até os Geth a fazerem parte dessa aliança.

Em termos de atmosfera, Mass Effect 3 é um jogo essencialmente diferente dos dois que o antecederam. Em todo e qualquer momento sentimos o peso do ataque dos Reapers, algo que se encaixa perfeitamente com os gráficos que adotam cores e texturas mais realistas. Sentimos Shepard, muitas vezes, com os ânimos para baixo e inúmeras vezes são seus companheiros de equipe que a dão forças para continuar, ao contrário do que vimos nos anteriores. A comandante viu de primeira mão os Reapers destruindo a Terra e sua relutância em sair do planeta para conseguir ajuda não é esquecida jamais. Há um ar melancólico evidente no game e aqui realmente sentimos como se essa fosse a última aventura da comandante.

mass-effect-3-plano-critico-3

Praticamente toda a trama do game gira em torno da preparação para a batalha final e a Bioware faz o ótimo trabalho de lentamente construir seu clímax. Ainda que um dos primeiros locais que visitamos, uma das luas de Palaven, terra dos Turians, traga um nível de destruição gigantesco, essa devastação só vai aumentando com o passar das missões. Os robôs gigantescos passam de ser apenas um cenário distante e efetivamente se tornam parte das batalhas que travamos, lançando seus raios em nossas direções. O design dessas criaturas ajuda a construir sua imponência, naturalmente, se inspirando nas obras Lovecraftianas, sentimos sua ancestralidade, como se fossem os deuses antigos descritos nos contos do autor.

Em termos de jogabilidade, Mass Effect 3 certamente é o mais frenético dos três. Expandindo os conceitos introduzidos no antecessor, temos aqui uma Shepard que corre mais rápido, rola, desliza por cima de obstáculos e até o combate corpo-a-corpo se tornou mais ágil, com belas animações com a omni-blade. Além disso, a Bioware fez o máximo para garantir uma maior liberdade ao jogador. Ainda que o sistema de classes ainda exista, dessa vez podemos levar qualquer arma para o campo de batalha, com o peso do equipamento afetando a velocidade de regeneração de nossos poderes – quanto mais armas, maior o tempo de espera entre um poder e outro. Uma escolha certa da desenvolvedora, que permite ao jogador customizar mais sua experiência.

É gratificante enxergar como os desenvolvedores não esqueceram do passado da franquia, trazendo de volta praticamente todos os personagens de destaque que encontramos nos jogos anteriores. Embora nossa equipe seja menor que a de Mass Effect 2, personagens como Miranda, Mordin Solus e até mesmo Wrex desempenham um papel ativo dentro da trama do game, nos passando a sensação de que nossas ações em relação a eles realmente surtiram um efeito. Importar o save nunca foi tão impactante na trama, especialmente em relação aos eventos das missões de lealdade do anterior. Além disso, é claro, a opção de romance anterior pode ser reavivada, passando a ideia de que estamos diante da mesma Shepard que controlamos lá no primeiro jogo.

Em muitos aspectos Mass Effect 3 passa a ideia de despedida, algo que apenas se torna mais impactante pelas interações com os diversos personagens. Garrus, Joker, Tali e Liara, que nos acompanharam desde o início garantem seu peso na narrativa, encaramos eles, de fato, como velhos amigos, assim como o atual almirante Anderson, que permanece na Terra para coordenar uma resistência contra os Reapers. Mais do que nunca a sensação passada é a de uma galáxia viva, com histórias se desenrolando conforme viajamos com a Normandy pedindo ajuda ou lutando contra as máquinas e Cerberus, que conta com a própria agenda, visto que o Illusive Man pretende arranjar uma forma de controlar esses seres que vieram do espaço profundo, ao invés de destruí-los.

A simples presença do líder dessa organização já anuncia a presença de mais de um desfecho possível para o game. Já cedo contemplamos duas ideias: a de destruir os Reapers ou de controlar tais criaturas. Esses conceitos vão crescendo com o passar do jogo, evidentemente ligados ao sistema de moralidade que retorna mais uma vez. Aqui a mecânica de Paragon/ Renegade conta com desdobramentos ainda maiores, sendo possível até salvar icônicos personagens caso tenhamos o nível necessário em um dos dois lados do espectro. Dito isso, esse capítulo final da jornada certamente é o que traz escolhas mais difíceis, cada uma com gigantescas repercussões para toda a mitologia da série, chegando ao ponto que podemos até curar a genophage dos Krogan, doença introduzida na raça há mais de mil anos a fim de controlar a sua natalidade e impedir que tomem controle da galáxia.

Justamente por isso o final do game é tão controverso. Apesar de todas essas escolhas, algumas trazidas desde o primeiro jogo, no final podemos escolher uma entre três opções, independente do caminho que levamos. Tal escolha ainda é acompanhada por um trecho extremamente verborrágico que prejudica o clímax que tanto estivemos esperando. No fim sentimos como se tudo o que fizemos não tivesse impacto nenhum sobre a resolução e, realmente, até o DLC Extended Cut não tinha – as cutscenes extras melhoram o game nesse quesito, mas a Bioware, na tentativa de dar mais liberdade ao jogador, acabou tornando suas escolhas menos importantes.

Felizmente, a missão final, que antecede esse problemático final é um dos momentos mais dramáticos de toda a trilogia, que certamente arrancará lágrimas daqueles que acompanharam toda a jornada até aqui. Aliás, Mass Effect 3 é repleto desses momentos, com a morte sempre pairando acima de Shepard e seus companheiros. Evidente que não irei estragar qualquer uma dessas situações, mas já esteja preparado para gritar, chorar, se revoltar e mais.

mass-effect-3-plano-critico-2

Coroando toda essa construção, temos uma magnífica trilha sonora, que já demonstra todo seu poder em Leaving Earth, composta por Clint Mansell, responsável, também, pela música de Réquiem para um Sonho. O compositor mistura o som da música com o dos Reapers, criando uma união perfeita entre imagem e som, através de um tema arrepiante, que transmite toda a dor da protagonista ao deixar a Terra. A melancolia dessa faixa retorna em An End, Once and For All, que compõe ao lado de Sam Hullick, se essa é verdadeiramente a última jornada de Shepard, essa é a perfeita despedida da personagem. Outros nomes assinam a trilha, cada um trazendo contribuições vitais para a criação da atmosfera do game, seja com A Future for the Krogan ou a dramática The Fleets Arrive, que resgata o tema da comandante que ouvimos em sua introdução na primeira entrada da franquia.

Quando se trata dos DLCs, o jogo segue a mesma linha de Mass Effect 2, todos com histórias separadas que diretamente afetam a trama principal, uns de maneira mias discreta que outros. From Ashes insere um novo membro da equipe, o último Protheam, que fornece interessantes insights sobre essa lendária raça dentro da mitologia da série. Omega, por sua vez, nos leva de volta para o planeta do segundo game ao lado de Aria T’Loak e conta com ótimas interações entre ela e outros personagens. Leviathan, por sua vez, é puro lore e nos conta a origem dos Reapers, certamente é o mais dispensável dos conteúdos adicionais centrados em história, mas é um prato cheio para os fãs que querem saber mais sobre o passado desse universo. Citadel, por fim, é o melhor DLC da série, um necessário alívio cômico que funciona como a ideal despedida para todos os personagens que conhecemos ao longo da franquia, reunindo praticamente todos os companheiros dos jogos anteriores em uma aventura que traz muitas risadas, com um tom saudosista por trás.

Dito isso, apesar de deslizar em seu desfecho, Mass Effect 3 é uma bela despedida para todos os personagens que conhecemos ao longo desses três games. Um jogo que não atinge a qualidade do segundo da franquia, mas que chega bem perto, contando com um tom diferente, jogabilidade mais ágil e missões com muito mais peso, ainda que algumas sidequests soem como filler. Temos aqui a triste e explosiva jornada final da comandante Shepard e, ao terminá-la, não há como não sentir aquela vontade de experimentar tudo isso novamente.

Mass Effect 3
Desenvolvedor:
 Bioware
Lançamento: 06 de março de 2012
Gênero: Tiro em terceira pessoa, RPG
Disponível para: PS3, Xbox 360, PC

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.