Crítica | Mass Effect

estrelas 4

Quando se trata de ficção científica, podemos citar algumas obras que marcaram o gênero profundamente, como a trilogia Fundação, de Isaac Asimov, Star TrekStar Wars. O mesmo ocorre nos videogames, jogos como Half LifeHaloBioshock marcaram gerações e são vistos, até hoje, como memoráveis exemplares do sci-fi, mas ouso dizer que nenhum deles conseguiu alçar voo como Mass Effect. Não digo isso em virtude da qualidade, visto que tal fator é indiscutível em relação às obras citadas e sim pela forma como cada uma estabeleceu seu universo próprio. Sob muitos aspectos, o game da Bioware, lançado em 2007, é o novo Star Trek, introduzindo um vasto universo repleto de raças alienígenas, no qual notamos focos em ciência, política e, é claro, um inimigo específico.

Aqui, o capitão Kirk é o comandante Shepard, um homem ou mulher (dependendo da escolha do jogador), que já se destacara pelas suas ações no passado e está cotado para ser o primeiro humano Spectre, um grupo especializado que atua à mando direto do conselho de raças e que segue ordem apenas deles. Nossa jornada tem início na Normandy, a espaçonave mais avançada dos humanos que se encontra em uma missão para testar as habilidades do comandante. Tudo isso vai pelos ares, contudo, quando o planeta em que a missão se realizaria é atacado por Saren, um outro Spectre, que lidera um exército de máquinas e capitaneia uma gigantesca e tenebrosa nave. Mesmo contra todas as expectativas, cabe a Shepard impedir esse vilão, mas isso se mostra ser mais difícil do que o esperado, visto que o destino de toda a galáxia se encontra em jogo.

Por mais que o personagem que controlamos já tenha uma grande história pregressa, de imediato sentimos nossa conexão com ele(a), através de uma bela introdução. Ao som do tema do jogo, conhecemos essa pessoa e rapidamente somos jogados em algo que define a trilogia Mass Effect como um todo: seus diálogos. Herdando o sistema de escolhas de sua primeira empreitada pelas estrelas, Knights of the Old Republic, a Bioware cria, aqui, uma das melhores mecânicas de conversa já vista em jogos: a roda de conversação. Nela, podemos escolher entre inúmeras opções que não só oferecem mais informações sobre a atual situação, como definem a personalidade do protagonista.

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O sistema de moralidade, dividido entre ParagonRenegade, pode ser visto como algo extremamente maniqueísta, mas isso ajuda a delinear perfeitamente a personalidade de Shepard e muitas vezes tais escolhas são difíceis de serem tomadas, especialmente quando queremos acabar com determinado sujeito irritante e não podemos pois somos bonzinhos demais. Evidente que nada impede que sigamos por um caminho mais neutro, mas isso exclui algumas possibilidades de conversa no futuro. Em todo caso, os diálogos do game são uma verdadeira aula de roteiro, sendo capazes de nos envolver profundamente, criando aquela sensação de imersão tão familiar a boas obras de ficção científica. Não bastasse isso, durante as missões ou na nave, os npc falam entre si e inúmera situações hilárias ou dramáticas podem ser extraídas daí, dando a sensação de um universo vivo, que não apenas gira em torno da protagonista.

Nada disso, contudo, consegue ser tão expansivo quanto a Citadel, a enorme estação espacial que funciona como central do governo conjunto das diferentes raças da Via Láctea. Ali encontramos Asari, Turian, Krogan, dentre diversos outros alienígenas coexistindo como algo extremamente normal, fazendo, de fato, nos sentir como parte de um universo maior. Além disso, presenciamos brigas pessoais, jogos políticos, dentre outros, que conferem ao game um grau de realismo notável, ao mesmo tempo que nos deixam perplexos de como a Bioware conseguiu colocar tanta informação em uma obra sem confundir o espectador pelo excesso de informação.

Mas não é apenas de conversas e de lore que Mass Effect é feito. Ao misturar elementos de RPG com jogos de tiro em terceira pessoa, os desenvolvedores criam uma quase perfeita amálgama desses dois, por meio de um combate em tempo real que sabe muito bem dosar o nível de dificuldade. Digo quase perfeito pois a Bioware ainda estava experimentando com essa fórmula aqui e, de início, os mecanismos de combate soam repetitivos. Porém, conforme liberamos novas habilidades, atreladas às diferentes classes do jogo, essa jogabilidade se torna cada vez mais envolvente, ao passo que mais estratégias para derrotar os inimigos surgem, ao mesmo tempo que eles se tornam mais desafiadores, é claro.

Além disso, os membros da equipe que levamos em cada missão – podemos escolher até dois – desempenham um papel ativo em nossa vitória ou derrota. Cada incursão pede por um equilíbrio entre poder de fogo, biotics (poderes telecinéticos, em geral) e tech (poderes envolvendo o uso de uma ferramenta conhecida como omni-tool). Quando masterizamos essa formação, oponentes repletos de escudos ou armaduras podem ser mais facilmente derrotados, especialmente se combinarmos as nossas próprias habilidades com a dos nossos companheiros, algo que pode ser realizado através da mecânica de pausar a batalha para definir o que cada um fará, seja atacar um inimigo com determinado poder, ou o flanquear.

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A verdadeira interação com a equipe, contudo, ocorre dentro da nave, onde podemos engatar em conversas sobre os mais diferentes tópicos com cada um deles. Por meio disso, o roteiro sabiamente aprofunda cada um dos personagens centrais do game e logo nos vemos nos importando com cada um deles, a tal ponto que podemos prever determinada reação de Garrus, por exemplo, um Turian com um belo senso de humor repleto de ironia, que, ao mesmo tempo, demonstra ser um ótimo soldado. Cada personagem do jogo apresenta uma diferente personalidade, transmitindo a sensação de riqueza ao jogador, ao passo que os encaramos como pessoas vivas e não apenas npcs. Não bastasse isso, contamos com a possibilidade de iniciar um romance com um de três distintos membros da equipe, os dois humanos Kaidan e Ashley e Liara, uma Asari, raça de alienígenas exclusivamente do sexo feminino.

O único ponto que definitivamente não envelheceu bem no game são os controles do veículo Mako. De fato, eles nunca foram bons, tornando a parcela de exploração do jogo algo extremamente tedioso e dispensável. Felizmente, durante a missão principal, são poucas as vezes que precisamos realmente depender dele, o que não estraga a experiência nem um pouco, apenas diminui um bocado a taxa de replay, visto que queremos evitar ao máximo ter de dirigir essa tragédia com seis rodas.

Isso, contudo, não deve afastar os novos jogadores de conhecer Mass Effect, que, mesmo já fazendo dez anos desde seu lançamento, se mantém como um dos melhores games do gênero, representando para a ficção científica o que Star Trek representara há tantos anos. Temos aqui um universo vasto, pautado em decisões, que faz uso de um roteiro magistralmente escrito a fim de nos imergir em sua narrativa. A Bioware utilizou tudo o que aprendeu em Knights of the Old Republic e nos entregou um verdadeiro marco da ficção científica que merece e deve ser conhecido por todos os fãs do gênero.

Mass Effect
Desenvolvedor:
 Bioware
Lançamento: 16 de novembro de 2007
Gênero: Tiro em terceira pessoa, RPG
Disponível para: PS3, Xbox 360, PC

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.