Crítica | Master of None – 1ª Temporada

estrelas 4

Sim, esta crítica é sobre a primeira temporada de Master of None, mas comecemos falando brevemente de outra produção para a TV: a famigerada Friends. Para quem só conhece a série clássica como o fenômeno que se tornou, saiba que seu episódio piloto não foi bem recebido, nem pela crítica, nem em termos de audiência. O roteiro, a princípio, não convenceu, as piadas não agradaram. Só que a rede NBC apostou e a série continuou.

Em Master of None, mais uma série original Netflix, algo semelhante acontece. A história do jovem filho de imigrantes indianos em Nova Iorque possui um primeiro episódio tímido que, ao tentar desenvolver a problemática do capítulo ao mesmo tempo que apresenta os personagens centrais, em trinta minutos, não faz direito nem uma coisa, nem outra. A narrativa, porém, melhora, e muito, nos nove episódios seguintes, dos dez que compõem esta primeira temporada.

O dito filho de imigrantes, nos seus trinta anos, é Dev (Aziz Ansari). A partir de um olhar raso, seria fácil dizer que a grande temática que norteia a série é definida pelos conflitos entre a jovem geração americana e a antecessora, mas a verdade é que o programa não só vai muito além disso como assume um tom bastante pessoal da parte do comediante Ansari (Parks and Recreation), ele mesmo um dos criadores do show. Daí, a verdade é que a série não possui uma temática específica, embora os tópicos se conectem naturalmente sob a perspectiva da boa e velha transição das possibilidades juvenis para as mudanças implicadas no gradual, mas sempre constante, passar do tempo. Sob esse grande ângulo temático, mais ou menos aceitável, problemáticas que vão desde a família e das próprias raízes, do racismo à contemporânea discussão acalorada acerca do feminismo, e em outro momento da desvalorização do idoso à responsabilidade familiar, são levantadas sem parecerem dispersas conforme nos identificamos mais com o despojado protagonista.

O espírito de Dev, aliás, reflete o da série: uma comédia dramática, que por vezes flerta com a comédia romântica, na qual tudo, apesar de talvez não parecer pelo dito acima, é tratado com muita leveza e bom humor, mas ainda assim com profundidade e inteligência; qualidades evidentes, de fato, já no segundo episódio, a partir do qual o roteiro parece definir com segurança o formato narrativo a ser explorado, concentrando-se mais em cada problemática para que, a partir delas, os personagens possam se definir.

Dev é um ator amador que luta a todo custo por oportunidades na TV e no cinema. Indo além da metalinguagem, contudo, e com óbvias referências muitas à cultura pop e a manifestações artísticas em geral, de um lado a série evidencia o senso crítico e de debate de seus personagens por trás do humor, particularmente do protagonista, que, muito ou pouco influenciado, solta o verbo com intensidade e realismo, ao mesmo tempo fazendo-nos rir mesmo que discutindo com evidente seriedade, seja no emprego, com uma garota ou com os amigos. Já do lado do espectador, o programa se preocupa em deixar que ele interprete e admire a beleza do implícito, como no episódio no qual se sugere que o pai de Dev, apesar de ter de extrair as coisas mais bizarras de pacientes no hospital, não só escolheu tal caminho como ama o que faz – o tipo de lição que poderia ser atirada prontinha, mastigada na cara de quem assiste ao programa, mas não o é.

Também contando com belos momentos de contemplação, com poucas trilhas originais, mas que dialogam muito bem com a proposta de cada episódio, o final da temporada é do tipo “divisor de águas”, mas, além disso, um final do qual produções do gênero estavam precisando. Sua narrativa episódica é sua maior força, pelo que já foi apontado, e fraqueza na medida em que certas situações e personagens ficam um tanto irrealmente descontinuados, mas o negativo pouco prejudica a experiência como um todo.

Assim, Master of None não só é mais um acerto da Netflix, como já é considerada uma das melhores comédias do ano. Um fenômeno? Ainda não. Uma surpresa? Friends é que o diga.

Master of None – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Showrunners: Aziz Ansari, Alan Yang
Direção: Eric Wareheim, Aziz Ansari, James Ponsoldt, Lynn Shelton
Roteiro: Aziz Ansari, Zoe Jarman, Sarah Peters, Alan Yang, Andy Blitz, Joe Mande, Harris Wittels
Elenco: Aziz Ansari, Noël Wells, Lena Wait, Eric Wareheim, Kelvin Yu, Todd Barry, Shoukath Ansari, H. Jon Benjamin, Fatima Ansari, Danielle Davenport
Duração: 300 min. (aprox.)

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.