Crítica | Matar ou Morrer

estrelas 4

Todo mundo disse que Matar ou Morrer foi um grande filme porque [Dmitri] Tiomkin compôs uma bela música para ele e porque Gary Cooper e Grace Kelly estavam nele. No filme, quatro homens chegam para matar o xerife. Ele vai à igreja e pede ajuda e os caras ali falam, “Oh, bem…, oh, eu não…” E uma mulher se levanta e diz, “Seus trastes, seus trastes”. Então Cooper parte sozinho. É a coisa mais antiamericana que eu já vi em toda a minha vida.

John Wayne

Matar ou Morrer, filme do austríaco Fred Zinnemann, foi realizado em um período de neurose e perseguição política nos Estados Unidos (o macarthismo) e foi escrito por Carl Foreman, um dos nomes da lista negra do Senador McCarthy. Este é o primeiro ponto notável dos bastidores do filme, que foi concebido como uma resposta simbólica à “caça às bruxas” e à cisão que então se estabelecia em Hollywood.

Assim como o xerife recém-casado da cidade de Hadleyville, diversos artistas de Hollywood viviam em uma espécie de martírio pessoal, pressionados e amedrontados pelas notícias de investigação do HUAC (House Un-American Activities Committee) e ouvindo pedidos de quase todos para que saíssem o mais rápido possível do país. Ao adaptar o conto The Tin Star, de John W. Cunningham, Foreman conseguiu fazer um dos filmes políticos mais sutis da história do cinema, simplesmente porque tudo ali é uma alegoria da sociedade em que ele vivia (um símbolo de denúncia) mas jamais nos é vendido como tal.

A bem da verdade, Matar ou Morrer é um denso western psicológico, um filme que detalha o medo, a fraqueza e desespero de um homem que espera pela [possível] morte exatamente ao meio-dia, com a chegada do trem. Esta face oculta do homem do oeste – a face que assume sua fraqueza, que admite o medo, que se vê solitária, angustiada, procurando desesperadamente por ajuda e, no final, é ajudada pela esposa religiosa – incomodou muita gente. Howard Hawks, por exemplo, disse que filmou Onde Começa o Inferno, em 1959, como uma resposta a Matar ou Morrer, filme que ele odiara e que não via como um verdadeiro western.

A jornada solitária e opressiva do xerife Will Kane (uma interpretação memorável de Gary Cooper, que ganhou o Oscar por esse filme e, ironicamente, o prêmio foi recebido por ninguém menos que John Wayne, que havia se manifestado fortemente contra o filme — veja aqui uma entrevista dada por Wayne em 1974, quando ele explica um pouco a declaração. E veja aqui o trecho do Oscar de 1953, onde Wayne recebe o prêmio em nome de Gary Cooper) é marcada pelo tempo como ameaça, elemento que consegue uma representação quase real através da brilhante montagem de Elmo Williams.

Ao colocar em cena um grande número de relógios (algo nada sutil, mas que funciona bem e sem interferir negativamente na direção de arte como um todo), Ben Hayne dava sustentação visual ao que o roteiro e a direção tinham em mente, intensificando ainda mais a tensão, mesmo que nenhum tiro seja disparado até o final do filme. Dimitri Tiomkin coroa o time com sua música simples mas de impacto notável quando ouvida, além, é claro, de sua balada (com letra de Ned Washington) Do Not Forsake Me, Oh My Darlin, a bela abertura da fita.

Matar ou Morrer é um filme tecnicamente exemplar (à exceção do pouco interessante tiroteio final, mesmo que tenhamos passado o filme inteiro à espera dele) e com um plano de fundo muito interessante. Além das questões políticas e declarações de Hawks e Wayne, o filme marca a estreia de Lee Van Cleef no cinema; marca a segunda obra de Grace Kelly no cinema; marca o início da última década da carreira de Gary Cooper e se coloca como um derivado simbólico de O Matador (1950). O filme é uma história forte de desespero e sentimento inexplicável de dever, uma crônica sobre a ação e a salvação de um homem vindas na última hora.

Matar ou Morrer (High Noon) – EUA, 1952
Direção:
Fred Zinnemann
Roteiro: Carl Foreman (baseado no conto The Tin Star, de John W. Cunningham).
Elenco: Gary Cooper, Thomas Mitchell, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Grace Kelly, Otto Kruger, Lon Chaney Jr., Harry Morgan, Ian MacDonald, Eve McVeagh, Morgan Farley, Harry Shannon, Lee Van Cleef, Robert J. Wilke, Sheb Wooley
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.