Crítica | Mate-me Por Favor

estrelas 4,5

Desilusão e falta de perspectiva marcam o primeiro longa-metragem da diretora Anita Rocha da Silveira, que utiliza jovens estudantes da Barra da Tijuca como seu objeto de estudo. O intimismo, somado a pitadas de experimentalismo preenchem esse quadro de desesperança, no qual, cada vez mais, a vida se torna apenas um dia após o outro. Parte da competição de longa ficção do Festival do Rio 2015, Mate-me Por Favor, apesar de retratar um espaço muito específico, é um filme universal, que muito bem reflete a disposição cada vez mais vigente das novas gerações – um cenário que percorre de um lado ao outro do mundo.

O estopim para os eventos que acompanhamos em tela é a onda de assassinatos que ocorrem no bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. A projeção se inicia com uma menina na “night”, marcada por um olhar vazio de quem claramente não sabe seu lugar ali ou até mesmo no mundo. A música que ocupa todo o campo sonoro, então, passa a dar lugar ao som diegético, conforme a garota percebe que está sendo seguida. Seu grito corta a noite conforme é assassinada – grito este que já constitui o primeiro deslize da edição, ao deixá-lo longo demais e criando uma percepção do exagero no espectador.

O que se segue, porém, procede de forma discreta, retratando a gradual e lenta mudança dos alunos do Colégio Barra da Tijuca, focando em Bia (Valentina Herszage, também em seu primeiro longa), que sofrem mudanças em suas próprias essências. É curioso como o roteiro constrói cada pessoa, tornando-a passível de ter realizado os assassinatos em questão – no fundo, a falta de futuro que marca a geração acaba tornando cada um de nós uma espécie de sociopata, perdidos na multidão, solitários mesmo em companhia. A dor passa a ser uma forma de autoafirmaçãoe enxergamos isso claramente pela crescente violência – tanto verbal, quanto física – dos personagens. Chega um ponto da obra que inúmeros alunos contam com ferimentos, olhos roxos, pernas quebradas, refletindo a fragilidade não só de seus corpos, como de sua psique, profundamente abalada pela vigente insegurança.

A escolha de Anita em trabalhar com jovens atores de pouca – ou nenhuma experiência – por vezes se demonstra como uma pedra em seu sapato. Situações dramáticas pecam pelo exagero ou falta de desenvoltura, que quebram o naturalismo de certas situações – a exceção sendo a própria Valentina, que encarna a protagonista com um realismo assustador, dotada de um olhar profundo, frio e analítico que reflete sua gradual perda de humanidade. Felizmente, a fotografia de João Atala minimiza a inexperiência do elenco, tornando a desolação de cada um evidente. O uso da luz desempenha um papel vital na narrativa, com os tons frios, em geral nas cenas abertas, representando o constante declínio do ânimo da protagonista e os quentes ilustrando uma crescente psicose em cada um dos personagens, como uma doença contagiosa. A inconstância emocional dos jovens é trazida de forma tocante para o espectador e o infecta, fazendo com que, no fim, estejamos dotados da mesma falta de perspectiva, abalados pela ausência de um futuro.

O verdadeiro coup de grâce do roteiro de Anita Rocha da Silveira, porém, é a sua própria estrutura narrativa. Aqui, naturalmente, não poderei poupar os spoilersportanto, quem desejar ter uma experiência virgem do filme, pule para o próximo parágrafo. O texto é construído em cima de um pedaço muito específico da vida desses jovens, retratando a queda psicológica de cada um. O que causa o maior impacto, porém, é justamente a não-resolução dos casos de assassinato, criando na imaginação do espectador a sensação de continuidade daqueles eventos, ao ponto que não sobrará mais nada daqueles estudantes que vimos no início do filme, Anita, desta forma, traz um olhar sobre a morte bastante raro nas artes em geral, como uma força transformadora e implacável.

Mate-me Por Favor é quase uma tese de por que a literatura distópica está tão em alta nos tempos atuais. É um retrato impactante dos jovens que não veem um futuro à sua frente, apenas o vazio do presente. Conta, sim, com alguns deslizes, mas esses facilmente se perdem nas qualidades inegáveis do longa, que deixa a audiência simplesmente desolada e silenciosa ao sair da sala. Uma prova irrefutável do que o cinema brasileiro tem a oferecer.

Mate-me Por Favor (idem – Brasil/ Argentina, 2015)
Direção:
 Anita Rocha da Silveira
Roteiro: Anita Rocha da Silveira
Elenco: Valentina Herszage, Dora Freind, Mariana Oliveira, Júlia Roliz, Rita Pauls
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.