Crítica | Matrix Revolutions

estrelas 3

Como parte final da trilogia dos irmãos Wachowski, Matrix Revolutions já vem dotado da enorme responsabilidade de dar o nó em todas as pontas soltas deixadas pelo filme anterior (o primeiro já é fechado por si só) e essas não foram poucas. Reloaded encerra com um final completamente em aberto, cumprindo o papel de parte um dentro de uma narrativa dupla – Neo (Keanu Reeves) e Smith (Hugo Weaving), no corpo de Bane, jazem desacordados na enfermaria da nave que os resgatou e Revolutions inicia exatamente de tal ponto.

Antes, contudo, de entrarmos no terceiro filme em si vamos pensar sobre um aspecto importante do encerramento do anterior, que optei por deixar nesta crítica já que o tema é abordado aqui nesta parte. Refiro-me aos poderes do Escolhido fora da Matrix, algo que, até então, não fora discutido em nenhum ponto da obra. Acreditava-se que os poderes de Neo eram uma forma de anomalia do sistema criado pelas máquinas, mas, a partir do momento que eles se estendem para o mundo real o caráter messiânico do protagonista se solidifica, impossibilitando as explicações científicas do Arquiteto. Podemos estender essa linha de raciocínio e afirmar que, apesar de ser considerado o sexto escolhido, Neo é, de fato, o único a de fato sê-lo – ele escolheu o caminho que os outros não percorreram e, por sua vez, pode ser o único a, de fato, cumprir a tão mencionada profecia e acabar com um ciclo existente há gerações.

Com isso em mente é evidente que, neste último filme, o personagem teria uma participação mais intensa fora do mundo virtual, aproveitando o gancho deixado no longa anterior. Revolutions, portanto, expande a ênfase tida em Reloaded, focando grande parte de sua narrativa no mundo real, onde as máquinas invadem Zion no que seria a última batalha dessa longa guerra. São nessas sequências, fora da Matrix, que a obra realmente se sustenta, contando com um ritmo incessante de ação que sofrem de uma duração exagerada, mas que, em última instância, conseguem prender o espectador. Evidentemente essas não carecem de seus próprios defeitos, que, em geral se resumem a um drama artificial criado pelo foco em determinados personagens (leia-se Zee, sua parceira e o capitão Mifune, os únicos que realmente fazem alguma coisa dentro da luta), o que somente diminui nossa percepção do quadro geral de sobrevivência da humanidade.

A longa batalha em Zion é intercalada, em montagem paralela, com a perseguição de nave entre Niobe (Jada Pinkett Smith), Morfeu (Laurence Fishburne) e as sentinelas. Esse segundo enfoque garante que o ritmo da obra não seja quebrado, ao passo que traz uma maior tensão do que o repetitivo tiroteio na cidade humana, com cenas claramente inspiradas em Star Wars, onde o elenco se divide entre a pilotagem e as torres de tiro. O que não sai de nossa mente enquanto assistimos as hordas de sentinelas invadindo Zion (emulando um enxame de vespas) é o desperdício por parte da equipe criativa em inserir novas máquinas dentro do combate, o que poderia inserir um toque maior de dinamismo dentro da luta. Ainda assim, alguns planos específicos conseguem ser verdadeiramente assustadores, ao passo que revelam a fragilidade do homem perto das máquinas.

Do outro lado desse mundo devastado temos Trinity (Carrie-Anne Moss) e Neo percorrendo a superfície escura do planeta para chegar na cidade das máquinas. Aqui encontra-se o verdadeiro ponto alto do filme, que nos proporciona com verdadeiros deleites da ficção científica. Os campos de criação de humanos novamente são mostrados e permanecem tão aterrorizantes quanto sua primeira aparição em Matrix. Além disso, enfim, novos designs de máquinas são mostrados, também inspirados em insetos a fim de captar rapidamente o medo no espectador. Apesar da visão “messiânica” de Neo surgir inexplicavelmente a forma como ele enxerga o mundo das máquinas traz uma interessante antítese com nosso olhar sobre ela: o escuro é substituído por feixes de luz que chegam a nos fazer esquecer que eles são os “caras maus”.

É nesse aspecto que o lado filosófico de Revolutions retoma um ponto interessante da obra original. Lá em Matrix Morfeu diz claramente: não se sabe quem atacou primeiro. Aqui no terceiro filme temos a criação de constantes paralelos a fim de demonstrar que não estamos muito distantes das máquinas. O mais óbvio desses é o comandante Lock, que tem um pensar mais metódico e dispensa as crenças de Morfeu, que, por sua vez, representa o lado mais humano da equação. Fica claro que ambos os lados lutam pela sobrevivência e a guerra somente existe por causa de uma pedra arremessada há séculos atrás. O paralelo se estende para o Oráculo e o Arquiteto, ambos programas dentro da Matrix, mas que possuem pensamentos praticamente opostos (algo deixado claro pelo diálogo entre Neo e o Arquiteto no filme anterior).

Voltemos, então, para a chegada de Neo na cidade das máquinas – uma jornada que, cada vez mais, se demonstra sem voltas. Após sermos proporcionados uma das cenas mais extasiantes da trilogia – a barreira de bombas e a ascensão sobre as nuvens – caímos novamente na escuridão do mundo real. O pequeno vislumbre que temos sobre a cidade apenas nos deixa com um gosto de “quero mais”. Nesse sentido, porém, os Wachowski acertam e deixam o mistério em aberto, aguçando nosso imaginário. Entra a fonte das máquinas, que adota um rosto humano a fim de estabelecer um elemento de identificação com seu interlocutor – o que se segue é um diálogo curto e surpreendentemente humano e um dos poucos casos na franquia onde uma cena deveria ter sido estendida. Impossível, porém, deixar de notar o respeito pelo qual o líder das máquinas possui em relação a Neo – a morte do protagonista chega a ser praticamente serena em suas mãos e seu corpo é repousado – e não jogado – no chão, para ser, em seguida, levado para o desconhecido, corroborando o lado humano de seus maiores inimigos dentro desse universo. O filme deveria ter acabado nesse ponto, dispensando o epílogo desnecessário com Sati, o Oráculo e o Arquiteto.

Antes disso ocorrer, contudo, temos o duelo que parece ter sido tirado diretamente de Dragon Ball Z, completamente sem credibilidade, ultrapassando (e muito) a barreira do ridículo. Smith, que fora um conceito muito bem trabalho em Matrix já começou a passar por um tratamento duvidável em Reloaded, mas é apenas em Revolutions que o roteiro realmente estraga completamente o principal antagonista da franquia. Veja bem: a premissa de um programa corrompido tomando lugar da Matrix é não só aceitável, como bastante interessante – o problema está na execução caricata concebida pelos Wachowski. Risadas maléficas, raios caindo por trás do vilão, frases de efeito e poses ameaçadoras são apenas o começo desse desfecho completamente dispensável. O extenso combate poderia ter se limitado ao sacrifício de Neo, criando um impacto muito maior na audiência que, a cada minuto, se cansa ainda mais.

Matrix Revolutions definitivamente não é o encerramento que a franquia merecia, trata-se de um filme repleto de altos e baixos em doses praticamente iguais, trazendo ótimos conceitos intercalados com péssimas execuções. Ainda assim, merece ser visto com nossa “edição mental” ligada, fazendo cortes imaginários que jogam fora as sequências desnecessárias – dessa forma podemos aproveitar as muitas memoráveis cenas aqui exibidas e aproveitar um desfecho dramático para Neo enquanto ele é levado, como em um caixão dentro de um rio, para o horizonte da cidade das máquinas.

Matrix Revolutions (The Matrix Revolutions – EUA/ Austrália, 2003)
Direção: Andy Wachowski, Lana Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Jada Pinkett Smith, Harold Perrineau, Lambert Wilson, Monica Bellucci
Duração: 129 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.