Crítica | Maus Hábitos

estrelas 4,5Depois de seus longas Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980) e Labirinto de Paixões (1982), Almodóvar estava pronto para arriscar um melodrama de veia narrativa cômica, não perdendo de vista a sua preferência por elencos predominantemente femininos, personagens contrastantes, vício, sexualidade aflorada e uma dose de crítica social, nesse caso, principalmente direcionada à igreja.

Maus Hábitos conta a história de Yolanda Bell, uma cantora de cabaré que, por temor, se refugia em um convento após presenciar a morte do namorado, que tem uma overdose ao misturar heroína com estricnina. No recanto das Redentoras Humilhadas, Yolanda é bem recebida, e passa a conviver com as religiosas.

O grupo de mulheres do convento é composto por pessoas que antes de vestirem o hábito tiveram atuações pouco louváveis na vida, uma situação que fica cada vez mais clara no decorrer do filme. Os “costumes mundanos” não são totalmente abandonados pelas irmãs, que, a despeito das lembranças e tentações do passado e do presente, tentam se livrar delas a todo custo.

O tom de comédia é imediatamente ligado ao escracho da religião como expiação histérica de pecados. Maus Hábitos é, em essência, uma análise psicanalista de um grupo de mulheres que, para tentar limpar os erros de um passado criminoso ou prostituído, entregam-se à humilhação ou ao castigo de seus corpos. A perda da identidade é uma obrigação no convento, de modo que as irmãs não são chamadas por seus nomes verdadeiros, mas por apelidos que teoricamente as fazem lembrar de que são falhas pecadoras e que devem se humilhar cada vez mais perante Deus.

Além de nomes bizarros como Irmã Esterco, Irmã Rata de Esgotos, Irmã Víbora, Irmã Perdida e Irmã Amaldiçoada, percebemos nuances de prazeres pecaminosos em todo o convento, uma situação que beira à sátira e que diverte o espectador até o final da película. Aos poucos, nos damos conta de que a dançarina e drogada Yolanda Bell é apenas uma pessoa normal entre as irmãs, tendo também alguns “grandes pecados” no passado recente e mantendo vícios arriscados, que de imediato ela sabe ser compartilhado pela Madre Superiora. As sequências em que vemos a religiosa se drogar detonam um verdadeiro choque tradicional e recebem um tratamento dramático bastante eficiente do diretor, que se utiliza da atenção do público para adicionar um ponto importante em relação à continuação ou desfecho da película em cada um desses momentos icônicos.

Junto a esses vícios, o comportamento pessoal de cada irmã é também um espetáculo à parte, e tudo o que acontece em torno delas e nas dependências do convento é digno de riso e lágrimas. De transtorno obsessivo compulsivo à homossexualidade, vemos que as Redentoras Humilhadas sofrem por não serem quem na verdade são, e possuem até dificuldade de reconhecer o que fazem de melhor, como a religiosa que escreve romances pornográficos que são “um evento sociológico” e só abre os olhos para isso ao ver uma crítica literária em um jornal falando sobre o seu sucesso.

Yolanda funciona como uma desbravadora da moral e do pudor exagerados, mesmo que sejam superficiais, e ainda assim, frágeis. Mesmo que o desejo de servir a Deus com pureza esteja na cartilha das irmãs, suas ações não condizem com essa vida pura. Almodóvar brinca o tempo inteiro com esse insucesso, valendo-se de um elenco feminino impecável, que também representa um aspecto dramático importante da obra. A volatilidade e figuração dos homens que se apresentam em Maus Hábitos é uma indireta ácida ao machismo religioso e ao pequeno espaço cedido ao sacerdócio feminino na igreja católica, situação que permanece até os nossos dias.

Mesmo após a apresentação de Yolanda, que irá redefinir os caminhos para as irmãs e para o convento, o único homem que permanece entre as mulheres é um padre, que a despeito de aceitar iniciar uma família com uma das freiras, não guarda a virilidade tão típica e até caricata do macho latino (além da óbvia posição de [ex-]padre, ele aprecia figurinos cinematográficos e chapéus, além de ser um costureiro habilidoso). Logo, o único macho que sobra no filme é um tigre, o “Niño” criado pelas irmãs desde que era um filhote.

O desfecho da obra conta com um misto de libertação, decepção e dor. A ligação dessa aura pesada e do momento de cada uma das mulheres que vimos no decorrer da obra, faz o título original, “Entre tinieblas” (na escuridão), ganhar um sentido ainda maior, porque traduz não só o estado de espírito de cada uma das mulheres e seus pecados e lembranças, mas a natureza de suas ações e a gama de incertezas sobre o futuro de suas vidas.

Maus Hábitos (Entre tinieblas) – Espanha, 1983
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Cristina Sánchez Pascual, Will More, Laura Cepeda, Miguel Zúñiga, Julieta Serrano, Marisa Paredes, Mary Carrillo, Carmen Maura, Cecilia Roth, Lina Canalejas, Manuel Zarzo, Chus Lampreave
Duração: 114 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.