Crítica | Mayans M.C. -1X01: Perro/Oc

Kurt Sutter começou sua carreira na televisão em 2002 como roteirista da consagrada The Shield, tornando-se produtor da série a partir de sua 3ª temporada. Em 2008, no mesmo ano que The Shield acabou, Sutter não perdeu tempo e engatou em projeto próprio, Sons of Anarchy, na capacidade de produtor, roteirista e showrunner, criando uma das mais violentas séries da TV, com momentos memoráveis ao longo de suas sete temporadas e 92 episódios, durando até 2014.

Em 2015, ele arriscou outra criação original, The Bastard Executioner, uma ainda mais violenta série de época passada na Inglaterra, no século XIV. Foi seu primeiro fracasso, com a série mal sobrevivendo a uma temporada de 10 episódios que um Sutter muito mal-humorado anunciou que retiraria do ar em razão da baixa audiência. Esse soluço em sua carreira o fez retornar à sua criação bem-sucedida, dando azo a rumores de que ele iria abordar os First 9, fundadores dos “Filhos da Anarquia”, mas isso exigiria outra série de época, sempre mais cara e arriscada. A solução foi fazer um spin-off/continuação de SoA, desta vez focada na gangue Mayans M.C., originalmente rival de Jax Teller e companhia, mas que acaba aliada, sob o comando de Marcus Alvarez (Emilio Rivera).

E, depois de anunciar que dirigiria o piloto, ser substituído nessa função por Norberto Barba e a produção passar por refilmagens, Mayans M.C. estreia com Perro/Oc (sem querer agourar, mas a abruptamente cancelada The Bastard Executioner também tinha títulos duplos separados por barra…), episódio de pouco mais de uma hora que não esconde seus problemas de bastidores, mas que consegue passar razoavelmente bem por cima deles e apresentar um eficiente panorama da completamente nova e potencialmente explosiva história.

Nela, seguimos Ezekiel “EZ” Reyes (J.D. Pardo) um prospect do capítulo de Santo Padre do motoclube em questão, na região fronteiriça da Califórnia com o México. Em sua primeira missão importante – ajudar na escolta de um carregamento de drogas para Las Vegas – tudo dá errado e eles são roubados por um grupo mascarado. Como se seu pé frio não fosse suficiente, EZ, que, graças a seu aparentemente anormal poder de observação, reparara em tatuagem característica de um dos ladrões, faz essa revelação no momento em que sua gangue, liderada por Obispo “Bishop” Losa (Michael Irby), conta o ocorrido a Miguel Galindo (Danny Pino), chefão do cartel Galindo que usa os Mayans M.C. como “mulas” de seus carregamentos graças a um acordo entre Alvarez e seu pai.

Essa revelação a destempo (impressionante como estagiário só faz besteira…) não só enfurece Bishop, como faz com que Galindo os obrigue a caçar o responsável pelo roubo, colocando os Mayans (com ajuda dos Sons of Anarchy, em brevíssima ponta) e o cartel em rota de colisão com Los Olvidados, um grupo de órfãos que sofreu pelas mãos do tráfico de drogas e que, agora, busca vingança em uma mais do que organizada estratégia disruptiva. Sim, Sutter mira alto aqui, com uma trama que é de cara complexa, carregada de críticas sociais e de inter-relações entre os personagens que quase parece ser mais do que deveria caber em um episódio só. E isso porque nem abordei o delicioso espelhamento da vida fronteiriça entre Santo Padre (nos EUA) e Santa Madre (no México) com as vidas duplas que vão sendo reveladas na medida em que a narrativa progride, com direito a flashbacks para o passado promissor de EZ como estudante de Stanford em contraste ao seu presente decepcionante como membro de gangue e sua conexão fria, mas estranhamente amorosa com seu pai, o açougueiro Felipe Reyes (o sempre ótimo Edward James Olmos) e também com seu irmão mais velho Angel Reyes (Clayton Cardenas), membro full patch dos Mayans.

Como todo episódio piloto, era necessário estabelecer os pilares sobre os quais a série será construída e isso o roteiro que Sutter co-escreveu com Elgin James faz bem, mesmo considerando todas as intrincadas relações e revelações a que somos apresentados nessa hora inicial. Mesmo assim, é visível uma certa desconexão narrativa, como se o diretor, a cada final de sequência, “apagasse” o quadro negro e começasse novamente. Outra analogia seria como ver um belíssimo bólido de corrida pronto para disparar, mas engasgando quando dá partida. Sei que pode parecer exagero, mas Perro/Oc é mais feito de pedaços de um  ou dois episódios do que de um episódio completo, pensado como uma coisa só do começo ao fim. Personagens diferentes entram e saem sem muita cerimônia, com referências forçadas (precisava mesmo colocar Gemma naquele flashback?) e um ritmo claudicante e espasmódico que vão além do que um episódio inaugural deveria ir.

Mas, olhando para o lado da ambição de Sutter, é muito interessante vê-lo construir sua teia bastante ampla já nesse comecinho, além de procurar lidar com a trajetória, no protagonismo, de um membro da gangue desde seu início como prospect, especialmente considerando seu passado e o segredo que esconde a sete chaves. A ambientação combina com os planos do showrunner, sendo ao mesmo tempo uma discreta crítica social em sua estrutura base que coloca o que são praticamente duas cidades contíguas separadas por um fino muro de placas de zinco e conectadas por um túnel subterrâneo de uso da gangue. Mais interessante ainda é como o “norte” e o “sul” são parecidos, sendo propositalmente difícil para o espectador identificar quando EZ está de um lado ou de outro. Esse artifício, porém, tem grande potencial de envelhecer rapidamente, ainda que desconfie que Sutter tenha planos de ampliar o território de atuação do clube e do cartel antes que a novidade se esvaia. O único detalhe que realmente me incomodou na produção em si foi o uso de CGI nos dois momentos em que eles foram necessários: na explosão do caminhão ao começo e na “cirurgia” comanda por Galindo mais para o final. São brevíssimas cenas, mas que contêm computação gráfica tenebrosa, daquelas que uma criança no TK-85 da avó faria melhor (ok, exagerei, mas vocês entenderam…).

Certamente ainda é muito cedo para afirmar qualquer coisa com certeza, mas EZ não me soou como um personagem interessante por si só, ou seja, se descontado seu “mistério” (que é revelado no próprio episódio, como deveria mesmo ser, já que ele é basicamente a força motriz da série) dessa equação de construção de personagem. Não me levem a mal, mas ele parece ser a reunião de todos os clichês de pessoas que tinham grande potencial, mas que tropeçaram e se afundaram na vida. Sei que isso será desenvolvido e Sutter já provou que é mestre nisso ao abordar uma vasta quantidade de personagens inesquecíveis em Sons of Anarchy, mas estou me baseando apenas no episódio piloto e, nele, EZ não diz lá muito a que veio, talvez em razão de uma atuação soturna e silenciosa demais de J.D. Pardo cuja carreira na TV é até longa, mas pouco inspirada.

Mesmo com seus problemas, Mayans M.C. faz o que todo bom piloto precisa fazer: demonstrar que tem uma história com potencial para bons desdobramentos e atiçar a curiosidade do espectador. Sutter, se souber aparar as arestas, tem chance de criar uma sucessora digna de sua já clássica série ultra-violenta de motociclistas marginais (mas eu ainda quero ver pelo menos uma minissérie dos First 9!).

Mayans M.C. – 1X01: Perro/Oc (EUA – 04 de setembro de 2018)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Norberto Barba
Roteiro: Kurt Sutter, Elgin James
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas
Duração: 69 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.