Crítica | Mayans M.C. -1X03: Búho/Muwan

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

A coruja em péssimo CGI, animal-título da vez, prenuncia um episódio morno e um tanto perdido de Mayans M.C., algo que simplesmente não poderia acontecer nesse começo de série em que a nova criação de Kurt Sutter tenta firmar suas bases narrativas. Depois de um episódio-piloto bom, mas tumultuado talvez demais e de um segundo episódio firme e coeso, Búho/Muwan traz de volta a narrativa picotada do capítulo inaugural, mas sem a vantagem da novidade ou de momentos de ação ou tensão realmente relevantes.

Se a montagem paralela inicial é interessante em sua tentativa de criar suspense, ela parece jogada e aleatória demais, considerando que as investigações do Cartel Galindo sobre Los Olvidados tinham acabado de ser intensificadas. O roteiro de Sean Tretta e Andrea Ciannavei perde a chance de construir algo que realmente traga sensação de perigo e a montagem fica sendo apenas um artifício estilístico vazio que reempacota a situação do grupo rebelde como sendo financeiramente periclitante ao ponto de nem mais terem comida, uma completa novidade que cai de pára-quedas na história. Afinal de contas, muito ao contrário, Los Olvidados havia sido apresentado como um contingente anti-cartel extremamente organizado e eficiente, usando tecnologia e estratégia para minar o comércio ilegal de drogas de Miguel. Do jeito que o episódio os enquadra, eles agora são um bando de desesperados que se financiam com as mesmas drogas que combatem (o que faz menos sentido ainda do que sequestrar o bebê de Emily e Miguel, diga-se de passagem) e cujo plano de fuga de seu acampamento no deserto é menos organizado do que quando um camelódromo sofre uma batida policial nos centros urbanos brasileiros.

E tudo isso para introduzir o negócio paralelo de drogas que tem os Mayans traidores como “coiotes” em uma narrativa que é também jogada no episódio sem muita cerimônia, com a introdução da máfia chinesa na reunião no San Búho, o cassino indígena que os abriga. Sim, há um propósito maior aí que é lidar com a desconfiança de Alvarez sobre sua própria gangue, algo que certamente será o ponto alto da temporada em algum momento e, ao mesmo tempo, imagino, a chave para que Mayans M.C. prove o potencial que demonstra ter, mas tudo é corrido demais e retirado da cartola.

O grande problema do episódio, porém, está menos nas narrativas que introduz e mais na forma como a direção de Guy Ferland é conduzida. No lugar de contar uma história coesa com narrativas paralelas como fez Norberto Barba no episódio anterior, ele costura narrativas paralelas em uma colcha de retalhos frágil, quebrando a história em pequenos blocos que se intercalam com muito mais frequência do que deveriam e sem uma contrapartida lógica, como a criação de suspense ou algo do gênero. Vejam, por exemplo, a visita de Emily e sua sogra à praça em que os corpos queimados do pai e filho usados como “recado” para Los Olvidados foram deixados. No lugar de lidar com esse drama em específico, uma espécie de catarse para a mãe desesperada ou de efetivamente transformar o momento em algum veículo para a construção de uma narrativa que a envolva, o que temos é apenas uma visita à praça com ares de tentativa de suspense, sem que a presença de Emily ali seja minimamente importante. Sim, o objetivo final da sequência é mostrar que a organização rebelde foi infiltrada pelo garotinho recrutado por Miguel, que finge ser um órfão, mas, para chegar nesse ponto, o episódio dá voltas e mais voltas, inclusive com a sequência sendo completamente entrecortada pela (in)ação no cassino.

Falando dos acontecimentos no cassino, ali vemos um bom uso da interação entre os personagens em uma estrutura inteligente, fugindo quase que completamente de textos expositivos. Foi certamente divertido ver EZ usando seus “poderes” para contar cartas para El Coco e, depois, espancando o policial folgado, o que também nos permitiu finalmente entender o porquê de ele ter sido preso por meio de bons flashbacks. Da mesma maneira, aí já fora do cassino, ganhamos um pouco mais de conhecimento sobre o açougueiro – e ex-comandante da Galactica – Felipe Reyes, que indiretamente revela ter um passado violento no bolso ao lidar com o policial que o “protege” de maneira exemplar e, depois, “interagindo” com seus filhos em casa em um momento simples, que deixa entrever ternura, mas também distância e respeito no seio familiar.

Mas – e sei que estou me repetindo – nenhuma das boas sequências do episódio flui de verdade já que cada uma delas é quebrada em pedacinhos bem pequenos e salpicadas juntas em uma montagem que cansa o espectador muito mais do que deveria, considerando que este é o mais curto episódio até agora. É como ver todo o potencial que Mayans tem ser desperdiçado pela incidência da versão televisiva do transtorno de déficit de atenção.

Claro, ainda é o começo e Kurt Sutter já mostrou que, a médio prazo, sabe construir personagens desse submundo como ninguém, pelo que ele merece crédito. No entanto, é justamente por ser o começo que o showruuner não pode deixar a série se perder ou sequer andar de lado. A coruja em pleno dia pode não ter funcionado bem, mas espera-se que o morcego, totem do próximo episódio, tenha um sonar certeiro que o permita navegar sem desvios.

Mayans M.C. – 1X03: Búho/Muwan (EUA – 18 de setembro de 2018)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Guy Ferland
Roteiro: Sean Tretta, Andrea Ciannavei
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.