Crítica | Mayans M.C. -1X08: Rata/Ch’o

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

A esquisitice enervante de Lincoln Potter está de volta a todo vapor no episódio mais lento da temporada, mas, ao mesmo tempo, um dos melhores. Kurt Sutter e Elgin James, depois de um começo morno, realmente parecem ter encontrado seu ritmo que não dá sinal algum de esmorecer.

O animal totêmico da vez é o rato e ele encaixa-se de maneira bastante óbvia e direta com a trama, tanto com o lado dos Mayans e a descoberta do túnel secreto de Riz, uma subtrama menor do episódio, como, também, claro, com o jogo inteligente que Potter faz depois de aprisionar tanto Miguel quanto Emily, esta em uma linda armadilha disfarçada de agente do DEA preocupada com o bem-estar de seu filho. A traição impera de todo jeito.

A tranquilidade como tudo acontece entre os Galindo e Potter tem um ritmo próprio que Peter Weller (sim o RoboCop original que vem se aventurando na direção de televisão desde os anos 90 e foi responsável por mais de uma dezena de episódios de Sons of Anarchy) aproveita ao máximo, extraindo de Ray McKinnon aquela atuação irritante ao extremo que tínhamos nos esquecido o quanto era boa. Mas esse jogo é insidioso, sujo e desnuda uma política asquerosa de manutenção do status quo no tráfico de heroína na fronteira entre México e Estados Unidos que realmente dá raiva imaginar que muita coisa é de fato inspirada em fatos históricos. O tal do “bem maior” acaba tornando necessária esse tipo de chantagem e tentativa de manobrar um cartel assassino como o de Galindo.

Como já mencionei várias vezes e como já ficara evidente em SoA, Sutter transita em um mundo em que o “bem” e o “mal” não existem, mas sim tão somente aquilo que está entre um extremo e outro. Os famosos tons de cinza permeiam cada episódio da série e fazer o bem significa fazer o mal e vice-versa em um círculo vicioso e doentio que não tem fim. Ver o pequeno Cristóbal ser usado como instrumento de coerção é horroroso, mas, se mergulharmos a fundo no xadrez do tráfico e no que as autoridades podem realisticamente fazer e respirarmos fundo, revestindo-nos da necessária frieza, podemos sim entender o que é feito ali. A manobra é complexa e infalível, alcançando seu resultado, com apenas um pequeno detalhe, uma carta na manga de Miguel: Lincoln não sabe do acordo que o cartel fez com Los Olvidados, o grupo neo-zapatista(???), de acordo com a definição de Potter.

Ou seja, a derrota de Miguel é apenas aparente e ele, agora, usará seu exército de 2 mil soldados – que, reparem, também querem manter o status quo – para dar o troco em Lincoln, em uma espécie de vingança pessoal. Mas essa escolha de Miguel é também olhando para o bem maior do jeito dele, pois ele usará um grupo que sequestrou seu filho para lidar com outro grupo que, se não exatamente sequestrou a criança, fez algo proporcionalmente, talvez, pior ainda. E isso pode significar que, uma vez livre do DEA, Miguel volte sua mira para Los Olvidados. Há traições dentro de traições dentro de traições nessa série, como EZ sabe muito bem, então podemos certamente esperar um jogo complexo e mortal nesse final de temporada, com potencial para estender-se por futuras temporadas.

Falando em EZ, quantas vezes será que ele vai se meter em enrascadas por causa de Leticia? Depois do matricídio cometido por Coco – que me fez rir com as piadas que fez logo em seguida, tornando-me cúmplice dessa nojeira toda, ou seja, colocando-me (e a nós todos, pois sei que você aí também riram!) nos mesmo tons de cinza que Sutter enquadra todo mundo – e depois de uma “fumadinha” básica com o corpo estendido no meio da sala, é o prospect, com seu irmão, que tem que se livrar da mulher. Uma lanterna quebrada e um policial que segue as regras são o suficiente para tornar a vida dos Reyes ainda mais complicada. EZ é, sem dúvida, a definição de “personagem enrascado”…

E a família Reyes ainda tem Felipe que, em um momento tenso, mas muito bem construído, salva a vida – ou acha que salva – do padre que traíra seu amigo e pai de Adelita. Mais uma vez, Edward James Olmos toma conta da telinha, com seu trabalho discreto, mas extremamente potente e trágico. Fica a torcida para que seu Felipe e Lincoln tenham oportunidade para contracenar, pois será lindo ver o jogo estratégico de cada um deles em posições opostas.

O nível do jogo sobe mais um degrau com a entrada efetiva de Potter na equação. Sem resolução em futuro próximo, a série parece uma versão concentrada de SoA, com mais coisas acontecendo em um episódio de Mayans do que em temporadas inteiras da série original. E isso definitivamente não é uma reclamação!

Mayans M.C. – 1X08: Rata/Ch’o (EUA – 23 de outubro de 2018)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Peter Weller
Roteiro: Andrea Ciannavei, Kurt Sutter
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon
Duração: 62 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.