Crítica | Mayans M.C. -1X09: Serpiente/Chikchan

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

Serpiente/Chickchan é uma traição envolta em uma desonestidade, dentro de uma cilada pontilhada por doses generosas de fingimento, falsidade e deslealdade, tudo embrulhado em uma emboscada. É como pegar todas as reviravoltas de todos os filmes policiais dos últimos cinco anos derramados e organizados em pouco mais de uma hora de televisão da mais alta categoria, uma verdadeira aula de como se contar uma história perfeitamente lógica dentro da estrutura estabelecida em uma série.

Lincoln Potter continua seu jogo de xadrez complexo e arriscado ao aproveitar a oportunidade da prisão de EZ e Angel por terem ajudado Coco a livrar-se do corpo de sua mãe para desnudar EZ perante seu irmão e mudar os termos de seu acordo que, com a prisão de Miguel, ficou ultrapassado. E, de quebra, ele ainda é capaz de colocar Angel no mesmo “saco”, contando com a lealdade de sangue entre eles. Seu objetivo de livrar-se da única ponta solta, Jimenez, é o “detalhe” genial que o roteiro usa para literalmente costurar com sucesso a complicada situação pessoal de EZ de maneira mais completa à trama geral, evitando que ele permanecesse como o lobo solitário, como a única pessoa com seu próprio e secreto caminho. Isso e, claro, a fala da “mente brilhante” que deixa Emily também na mesma página, ainda que do lado oposto. É, definitivamente, uma enorme satisfação ver como as peças salpicadas desde o primeiro episódio se encaixaram bem, sem solavancos ou dificuldades.

No entanto, o lado de EZ não é nem de longe o encaixe mais genial. Os acordos encetados entre Los Olvidados e Miguel e Potter e Miguel é que realmente engrandecem a narrativa de Mayans M.C. Confesso que quebrei a cabeça para recordar-me de uma série que, logo em sua primeira temporada, não só estabelece uma extremamente complexa situação e, ao mesmo tempo, coloca todas as suas cartas na mesa. Talvez as que cheguem mais próximas desse nível sejam The Wire e Deadwood, mas mesmo lá, creio que elas percam nas minúcias que o spin-off de Sons of Anarchy traz.

Afinal, quando o episódio anterior acabou, ficou claro que Miguel usaria Los Olvidados para passar a perna em Potter, já que o espertíssimo promotor desconhecia – e ainda desconhece – que Adelita oferecera um acordo ao Cartel Galindo. O óbvio seria, então, Miguel logo mergulhar em seu plano de vingança, mas o roteiro de Sean Tretta e Kurt Sutter insere um fator para complicar a história: Devante. Como conselheiro da família, ele sugere que Miguel aceite apenas o acordo com o governo americano, traindo Adelita. O que ocorre a partir do momento em que Miguel, apesar do aconselhamento isento de sua esposa, é o típico desfecho que, apesar de não ser inesperado (acho que a decisão de Miguel é clara desde o início, apesar do que Devante fala), traz diversos elementos que pegam o espectador de surpresa novamente pela perfeita costura com tudo o que veio antes.

Vale especial destaque para a história do irmão mais velho de Miguel, cuja morte Devante e sua própria mãe usaram para demonstrar a necessidade de Miguel sacrificar Cristóbal. Aquela “coincidência” de eventos sempre soou estranha, mas nunca realmente abordei essa questão com muito mais do que uma sobrancelha levantada. E, agora, tudo é passado a panos limpos, com a revelação de tudo fora fabricado pelo conselheiro maquiavélico que, de quebra (e também logicamente) fora o líder do esquadrão da morte que chacinara a família de Adelita. O círculo se fecha e tudo se resolve na reunião no cassino entre todos os envolvidos e a absolutamente perfeita vingança com um machetazo.

Três aspectos, porém, me impedem de dar avaliação máxima para o episódio. O primeiro deles pode parecer uma bobagem, mas realmente me deixou incomodado: o uso excessivo do animal totêmico da vez, a serpente. Ainda que, pela segunda vez seguida, o animal faça sentido dentro da narrativa (especialmente na cena em que o vemos engolir um rato), sua presença constante, com direito até mesma à câmera em seu ponto de vista, distrai demais o espectador da história, consistindo em uma verdadeira intrusão “Discovery Channel” no episódio.

O segundo aspecto problemático é a assinatura da direção de Norberto Barba, que volta para dirigir um episódio da série depois dos dois primeiros. Sua câmera levemente tremida sem objetivo narrativo chama atenção demais para si mesma, algo que, combinado com a presença da serpente, realmente quebra imersão do espectador. Por último, é impossível não revirar os olhos para o terrível CGI “tirador de pelos faciais” na sequência em flashback em que vemos o momento em que EZ conhece Coco. Ali, os dois personagens estão com os rostos mais deformados do que Henry Cavill em Liga da Justiça, depois da remoção digital do bigode que o ator estava usando em Missão: Impossível – Efeito Fallout. A produção faria muito bem se aprendesse a lição com Vince Gilligan e Peter Gould que, em Better Call Saul, simplesmente deixam todo mundo igual mesmo nas cenas no passado sem que essa “licença poética” afete a série.

Mesmo com seus problemas, o penúltimo episódio da 1ª temporada de Mayans M.C. é, inegavelmente, uma master class em roteiro televisivo. Poucas séries conseguem o feito que Sutter e Elgin James, no comando, alcançam aqui e poucas séries apresentam tantas camadas de traição tão rápida e genialmente como aqui. Se o último episódio souber encerrar a temporada nesse mesmo nível, esta será uma das grandes séries novas de 2018.

Mayans M.C. – 1X09: Serpiente/Chikchan (EUA – 30 de outubro de 2018)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Norberto Barba
Roteiro: Sean Tretta, Kurt Sutter
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon
Duração: 72 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.