Crítica | Mayans M.C. -1X10: Cuervo/Tz’ikb’uul

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

Se você está seguro de sua habilidade, não é necessário, a cada ato que se pratica, tentar ultrapassar o anterior. Em uma série de televisão, qualidade não é exatamente sinônimo de manter uma temporada em uma constante curva de crescimento, pois, em algum momento, para realmente continuar no mesmo passo, será necessário exagerar e fugir da lógica interna da narrativa. Kurt Sutter e Elgin James reconhecem o que têm em mãos com Mayans M.C. e sabem que, muito mais importante do que competir em escopo com o material que veio antes, é manter uma cadência.

Digo isso porque Cuervo/Tz’ikb’uul (eita palavrinha complicada essa, hein?) é um season finale peculiar que não foi criado para deixar o espectador boquiaberto o tempo todo, com sequências atrás de sequências típicas de um encerramento apoteótico. Apesar de conter uma breve sequência chocante, o episódio é muito mais um epílogo dos eventos que se desdobraram ao longo de Rata/Ch’oSerpiente/Chikchan do que um clímax e isso é bom quando bem feito – o que, claro, é o caso aqui -, pois rearruma e deixa pronto o tabuleiro para a vindoura 2ª temporada.

O foco do episódio, sem dúvida, é o “favor” que Lincoln Potter pede para EZ e Angel, ou seja, matar Kevin Jimenez, recém-desonerado agente do DEA e primo dos Reyes e tudo porque o rapaz fizera das tripas coração para salvar EZ anteriormente, o que torna a situação mais triste ainda. E, pior, a completa ignorância de Jimenez em relação ao que está para acontecer é quase que uma peça que o roteiro de Sutter nos prega, deixando-o do começo ao fim completamente no escuro e, com isso, fazendo-nos ficar condoídos pelo destino do personagem. Mas esse destino já está traçado, não tem jeito. É só uma questão de saber quem será o executor.

E é nesse ponto que James e Sutter, juntos, constroem belas sequências, com especial destaque para a de Felipe e Jimenez no frigorífico. A tristeza e a dor que Edward James Olmos passa com suas feições retorcidas é impressionante ao ponto de ser perfeitamente possível “ver” o terrível passado dele como exterminador do cartel Galindo pesando sobre seus ombros. Se sofremos por Jimenez, talvez soframos mais ainda por Felipe e sua escolha, ou, pelo menos, sua tentativa de salvar os filhos de um mergulho sem volta ao inferno. Se ele foi um monstro, não custaria nada ele voltar a ser mais uma vez justamente para evitar o nascimento de dois outros monstros. Mas é até poético quando ele não consegue, mesmo tendo seus filhos em primeiro lugar em seus pensamentos.

Com isso, entra Angel e sua também dolorosa escolha de salvar seu irmão mais novo. Como já havia ficado claro e ele repete aqui, ele ama EZ, mas, ao mesmo tempo, ressente-se da “preferência” de seu pai pelo futuro brilhante que o caçula poderia ter tido e, talvez, ainda esteja a seu alcance. Se Angel já escolheu o caminho da gangue, então ele seria a escolha óbvia para executar Jimenez. Mas Potter tem outros planos e não quer arriscar, precipitando a chegada de EZ à casa da vítima quase que simultaneamente ao irmão. A cereja nesse bolo é a presença do ex-chefe de Jimenez ali, o que leva a um duplo assassinato em uma sequência rápida, sem firulas, seca e violenta. Pronto, as almas de todos os Reyes foram irrevogavelmente corrompidas para sempre. E Potter, claro, refestela-se com a situação, ainda que fique desapontado com a inaceitável falta de qualidade da torta “de loja” que Jimenez comprara.

Do lado de Miguel Galindo, não há sangue jorrado, mas ele afasta duas pessoas de seu próprio sangue. A primeira é sua mãe, que ganha tratamento distante do filho em razão da mentira que aceitara contar sobre a morte de seu irmão mais velho como parte de um plano para fazer Miguel entregar seu filho pequeno à própria sorte depois do sequestro pelos Los Olvidados. E, entrando no vazio deixado pela mãe, Emily consolida-se como matriarca diretamente envolvida nos negócios do marido. A outra pessoa que é sumariamente afastada do círculo interno de Miguel é Nestor, responsável, a mando de Devante, pela morte da freira. Isso abre espaço para que um novo conselheiro seja trazido e ele é ninguém menos do que o próprio Marcus Alvarez, que deixa os Mayans.

E, voltando aos Mayans, temos uma pequena traição (afinal, isso já é praxe na série) e o obrigatório cliffhanger. Aqui, o roteiro exagera um pouco nas conveniências, já que o mistério que é feito sobre o que exatamente EZ pede para Bishop e os demais da cúpula era desnecessário e forçado. Era lógico que o protagonista não sairia da série como Angel sugerira, pelo que teria sido mais honesto escancarar logo o pedido de uma vez e colocá-lo em confronto com o irmão. Do jeito que ficou – a troca de padrinhos – o momento ficou anticlimático, quase bobo.

O cliffhanger revela que, aparentemente, foi Happy Lowman (David Labrava, de Sons of Anarchy) o assassino da mãe de EZ. Provavelmente a coisa não será tão simples assim e, se duvidar, nem foi Happy que a matu, mas, pelo visto, esse elemento será importante para a temporada que vem. Meu problema com o momento está em sua quase aleatoriedade. Tudo bem que esse passado de EZ estava enevoado ainda, mas fazer essa conexão aos 45 do segundo tempo pareceu-me forçado, quase que uma obrigação imposta pela FX aos showrunners. Faltou um pouco de organicidade ao momento, mas não é nada que realmente estrague o dénouement que Cuervo/Tz’ikb’uul é.

A 1ª temporada de Mayans M.C. começou menos do que perfeita, mas não demorou para engatar o turbo, lidando com situações pesadas e reviravoltas dentro de reviravoltas que a tornaram algo genuíno e próprio, efetivamente independente da série original. Em seu epílogo, Sutter e Elgin distribuem as cartas para armar o jogo para o certamente brilhante futuro que a série terá.

Mayans M.C. – 1X10: Cuervo/Tz’ikb’uul (EUA – 06 de novembro de 2018)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Elgin James
Roteiro: Kurt Sutter
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon
Duração: 57 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.