Crítica | Mayombe, de Pepetela

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estrelas 5,0

A Independência do Brasil foi proclamada por Dom Pedro I — um príncipe português. O que é tão naturalizado por aqui e que aprendemos desde crianças nos primeiros anos escolares é, na verdade, uma aberração perto das independências duramente conquistadas de outras ex-colônias, onde a liberdade veio após muito sangue derramado. Angola, também ex-colônia portuguesa, é um desses casos. Sua Independência, ocorrida apenas em 1975, veio depois de muitos anos de guerrilha, da qual Pepetela, o autor de Mayombe, participou ativamente e durante a qual escreveu esse romance emblemático da literatura angolana, que hoje (2016) ganha projeção no Brasil por sua inclusão nas obras obrigatórias da FUVEST — o primeiro livro de um autor africano a figurar na lista.

Ao contrário do que possa parecer, no entanto, Mayombe não é focado nas batalhas nem é um livro de ação — como um leitor desavisado pode esperar, sabendo seu contexto de produção. O romance, antes, foca na figura do guerrilheiro: suas dificuldades diárias, sua identidade, seus dramas pessoais e conflitos interpessoais. Pepetela parte de uma conjuntura épica para humanizar a figura desses heróis, com os quais conviveu no MPLA, a maior guerrilha do país e a grande responsável pela vitória contra os portugueses. O romance mostra a rotina do movimento, destacando os problemas enfrentados diariamente por esses guerreiros e desmistificando o caráter mítico e idealizador que normalmente se cria nessas situações.

O grupo alocado na floresta Mayombe — daí o título da obra — enfrenta dificuldades como: escassez de recursos (eles chegam mesmo a passar fome); descaso dos superiores na hierarquia da guerrilha; falta de apoio da própria população, alienada e muitas vezes contrária ao movimento; inexperiência de alguns guerrilheiros, que se alistam sem a formação necessária; e, por fim, conflitos entre os próprios homens. Angola é formada por diversos grupos étnicos com línguas e culturas distintas, que nem sempre se relacionam harmoniosamente. O MPLA não foge à regra e reflete essa pluralidade, o que causa diversos conflitos relacionados ao que o autor chama de “tribalismos”. Essas pessoas se reuniram contra um inimigo externo e com o objetivo de fundação da pátria, mas estão longe de formarem um grupo homogêneo ou conviverem pacificamente.

Refletindo essa “falta de coesão” entre os guerrilheiros, que é provavelmente o ponto mais forte do livro, temos um foco narrativo bastante incomum e interessante — um narrador em terceira pessoa constantemente interrompido por diferentes narradores-personagens que tomam a palavra, se apresentam e se expressam. Dessa forma, Pepetela cria, na forma, o mosaico que também é tema do romance — conjunção entre forma e conteúdo que só grandes autores são capazes de fazer. E Pepetela com certeza é um grande autor, o que se reflete em Mayombe não só nesse aspecto, mas na linguagem, nos diálogos, nos monólogos interiores, na construção das personagens — tudo bastante cuidadoso e impecável.

As personagens de Mayombe merecem destaque. Diversas, esféricas e profundamente humanas, são retratadas em seus anseios e medos, que provavelmente são o que há de mais profundo em nós. O comandante Sem-Medo é uma das personas mais interessantes que já conheci. Um verdadeiro líder, Sem-Medo é inspirador, experiente e bem-humorado. Despojado da ingenuidade de muitos idealistas, sabe que a independência não será o fim dos problemas e que ele próprio dificilmente vai ser reconhecido quando a vitória vier — talvez, nem mesmo tenha lugar na nova sociedade que se formará. Mesmo assim, luta. Porque sabe que é o que tem a ser feito. Esse idealismo prático, por assim, dizer, é extremamente cativante. Não que o comandante seja a única personagem interessante: Teoria, o professor de pai português que sente a necessidade constante de se provar e problematiza o lugar do mestiço nessa sociedade bipolar; Comissário, o subcomandante que acredita na educação política do povo como elemento transformador; Ondina, a única mulher no romance, com sólida formação acadêmica, independência e determinação — são alguns exemplos do que se encontra nesse mundo múltiplo do MPLA.

pepetela-mayombe-plano-critico-angola-livroAo lado de todos os elementos locais presentes, há que se destacar o universalismo alcançado por Pepetela. Se Mayombe é a história dos guerrilheiros de Angola, é também uma história de idealismo e amizade (especialmente na relação Sem-Medo/Comissário) e com bastante profundidade filosófica. Nos diálogos e monólogos interiores, bastante presentes, vão sendo trazidas questões sobre sofrimento, amor, liberdade, morte, rótulos, guerra e afins. À la Machado de Assis, o autor conduz os leitores por reflexões, perguntas e linhas de raciocínio muitas vezes sem resposta, mas sempre com caminhos interessantes e comumente ignorados até então.

Para quem ainda não leu nada em português africano: não se preocupe. A linguagem é tranquilamente compreendida, e há um glossário ao final da edição para os termos e expressões locais. E assim como ocorre em outros autores luso-africanos – dos quais Mia Couto merece destaque – o lirismo é presente de uma forma original e nada piegas. Mayombe é um livro belíssimo, bem construído e merecidamente premiado. Como os nossos Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, Pepetela consegue, a partir de um contexto local e historicamente definido, alcançar a universalidade e fazer com que um leitor brasileiro se identifique com suas personagens mesmo trinta anos depois da primeira publicação.

Afinal, quanto mais profundo se chega no ser humano… mais iguais nós somos.

Mayombe – Angola, 1980
Autor: Pepetela
Publicação no Brasil: Editora LeYa, 2013
256 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.