Crítica | Maze Runner: A Cura Mortal

maze-runner-the-death-cure-PLANO CRITICO CORRIDA MORTAL

Maze Runner: A Cura Mortal é a conclusão bombástica da trilogia de filmes adaptados dos livros escritos por James Dashner. Como qualquer outra franquia adolescente, Maze Runner é, primeiramente, um produto para fã, algo que se estabelece tanto como algo positivo quanto como algo negativo. A questão positiva é que um livro pede muito mais de seu consumidor do que um filme. A leitura é algo que consome bastante tempo. Tanto é que, depois de um quantidade enorme de horas consumindo um produto, nossas percepções do que é bom e do que é ruim são devidamente alteradas, pela própria natureza da literatura. Os personagens, mesmo que não tenham passado por arco algum, o mínimo de desenvolvimento, tornam-se afeições nossas, porque por horas e horas estivemos ao lado deles. É difícil não nos importarmos por alguém que sempre esteve lá, fazia parte de nosso breve cotidiano. Não estou dizendo que Maze Runner necessariamente é assim, vazio, porque nem mesmo li os livros, algo que não é necessário para a avaliação de um filme. Mas por que essa questão pode ser tratada como “positiva”? Porque nessas adaptações de best-sellers, os leitores dos livros já vêm com cargas que não existiriam nos filmes por si só. Os fãs dos filmes não precisam de desenvolvimento ou situações que criem vínculo entre público e obra, porque eles já têm isso. O que eles precisam é daqueles momentos chaves que sempre sonharam ver em suas imaginações, algo que, por outro lado, é negativo. A não existência de algum ponto que os fãs entendiam como essencial acaba afetando o gosto dele pelos filmes. Eu, por exemplo, gostei menos de Harry Potter e o Enigma do Príncipe do que “deveria”, mesmo que o filme, como filme, seja um dos melhores da saga. Porém, assim como tem seu viés negativo, retomando uma ambiguidade de óticas, aquele acontecimento importante indevidamente cortado, e que fez os fãs espernearem por ter sido cortado, estava presente no material fonte, balanceando as coisas para os leitores do original, que, novamente, vêm com uma carga inexistente nas adaptações cinematográficas.

Todavia, o ponto que quero chegar é que é válido para uma crítica crua de um produto cinematográfico a não aproximação com a fonte de todo o universo em pauta. Da mesma forma, também é válido que se existam críticas de profissionais da área que tenham afeição pelo produto, vide que pode ser importante para a indicação – ou não – do filme aos espectadores que sejam verdadeiros fãs da obra; fãs não necessariamente do filmes, mas dos livros, os quais, antes de tudo, eram leitores que acompanharam as desventuras de Thomas (Dylan O’Brien) e seus amigos por labirintos, desertos e cidades pelas páginas do trabalho literário de Dashner. O caso deste texto é o primeiro, o qual não saberá distinguir se as falhas vêm dos livros ou dos filmes em si, mas também não se aterá a adorar questões inexistentes no formato cinemático, sendo, provavelmente, mais “indelicado” com a obra do que muitos poderão olhá-la. Para iniciar toda a dissertação, vamos começar com os pensamentos iniciais tidos pela trilogia: Correr ou Morrer e Prova de Fogo são filmes, no ápice de qualidade que atingiram em algum momento, fracos e muitos deméritos de A Cura Mortal são consequências dos antecedentes da franquia, que não soube criar mistérios e responder perguntas com muita plausibilidade.

Antes de tudo, infelizmente, Thomas não é um personagem realmente interessante. O que se tem sobre ele são os clichês de filmes de ação sendo enfiados goela abaixo de um ator muito mais competente do que o pedido pelo seu papel. Um dos plot-twists de A Cura Mortal envolve a natureza do seu personagem, uma natureza que não poderia ser mais coincidente, vide que a questão do “escolhido” (retornando mais uma vez ao cinema, depois de ter sido subvertida pela boa quadrilogia Jogos Vorazes) entra em cena como uma solução apressada, um Deus Ex-Machina, que nem ao menos é bem utilizado, dado o caráter geral de desfoque da obra. Isso porque a própria narrativa de Maze Runner é muito problemática, não sabendo o discurso que quer fazer, a história que quer contar, não sabendo dar inteligentes conclusões condizentes com as atitudes dos personagens. As consequências estão extremamente distante das causas delas, não sendo bem amarradas. Realmente parece que a história deste terceiro filme é um caos completo, o que até seria interessante se a pretensão de tudo fosse manejar a existência de um caos completo, trazendo uma resolução trágica, mas esperançosa. Contudo, essa dualidade da fatalidade e da esperança não é explorada pelo enredo, que apenas a pincela no final de tudo, na derradeira cena. A maior parte do tempo estamos focados na missão de resgate de Minho (Ki Hong Lee), o qual está sob domínio da organização CRUEL. Infelizmente, é muito mais relevante para a mitologia de toda história os acontecimentos dentro da Última Cidade do que as intermináveis tentativas por parte de Ava Paige (Patricia Clarkson) de encontrar a cura mortal.

Em um próximo plano, agora chega a parte que eu não gostaria de ser indelicado, mas serei. Definitivamente parece que o roteirista, ou então o autor do livro, inventou as primeiras abobrinhas que vieram na sua cabeça no que se refere à história de Maze Runner. As atitudes de CRUEL são demasiadamente inconsistentes, e realmente não parece que eles estavam tentando encontrar uma cura para o vírus. A questão do “escolhido” apenas abre espaço para que furos de roteiro surjam e surjam, além de ser muito improvável que o “escolhido” fosse exatamente o mesmo protagonista blasé de todas as aventuras que acompanhamos “empolgadíssimos”. Coloca qualquer gato pingado, mas não seja tão óbvio. E Maze Runner é óbvio, mas ao menos tempo imprevisível (não um bom imprevisível, um imprevisível aleatório mesmo). Quando esperávamos que as respostas viessem, elas não vêm, parecendo realmente que tudo fora uma bobagem mal planejada pelos escritores, a qual fez Ava Paige soar como Jigsaw brincando com adolescentes dentro de um labirinto, “sem propósito algum”. Porém, enquanto Patricia Clarkson é completamente desperdiçada como vilã em um roteiro que não se esforça em torná-la consideravelmente interessante, Janson (Aidan Gillen) revela-se como uma figura mais ameaçadora para os nossos heróis, mesmo que suas motivações para suas ações sejam mínimas se comparadas com a realidade do que está acontecendo. O mundo está “acabando”, mas ninguém percebe que isso está acontecendo. Não sentimos peso nas atitudes dos personagens, as quais se opõem à última chance da vida voltar a ser como era. Dentre todas, Teresa (Kaya Scodelario) é a única personagem minimamente “razoável” em suas atitudes. Por um lado, Teresa tem posições questionáveis, mas compreensíveis, ao mesmo tempo que é a única pessoa da história lidando com a moralidade de suas ações, tendo “crises existenciais”, por assim dizer. Todavia, quando chega a hora de alguma coisa substancial acontecer e a narrativa dar a guinada final necessária, Teresa é desperdiçada, devido a um terceiro ato moldado pelas motivações porcas de Janson, o qual, apesar de ser interpretado por Gillen, que é essencialmente um bom vilão, atrapalha toda a conclusão do filme e um possível desenvolvimento em cima da hora da personagem Ava Paige. A única coisa que move as manivelas do filme é a busca por Minho, por isso o ideal é pensar que este background confuso não existe e que tudo que estamos presenciando é um simples filme de assalto.

No entanto, mesmo deixando toda a perspectiva da organização liderada por Paige fora de nosso foco, Maze Runner também não aprofunda a sua criação de mundo, a qual supostamente começou no filme passado. Todos os grupos externos ao CRUEL são pessimamente representados, e a substância de revolução, uma alegoria da luta de classes, se tivesse sido explorada por mãos mais competentes, é deixada de lado, dando espaço para o completo superficial. A única coisa notável em Lawrence (Walton Goggins), personagem desse núcleo de infectados, é a sua maquiagem. Ademais, falando dos demais coadjuvantes do longa-metragem, o ator Barry Pepper, interpretando Vince, foi contratado apenas para fazer discursos. Outrossim, a maior parte das figuras apresentadas no filme anterior, como Aris (Jacob Lofland) e Hariet (Nathalie Emmanuel), estão figurando em meio a outras que ganham mais importância, funcionando como meras participações especiais. Ledo engano, outras é exagero, porque apenas três personagens ganham mais espaço no filme. Apesar disso, ainda é uma pena que Jorge (Giancarlo Esposito) e Brenda (Rosa Salazar), ambos muito fortes em suas caracterizações, não receberam mais protagonismo do que essa suposta “atenção especial”. Os dois são, no final das contas, mais duas cabeças a atuarem como salvações de última hora – artifício recorrente em A Cura Mortal. No meio de tudo que está errado, o grande ponto alto do encerramento da trilogia é Newt (Thomas Brodie-Singer), o qual, graças as ótimas performances de Thomas Brodie e Dylan O’Brien, denota um verdadeiro vínculo afetivo com Thomas, mesmo que mais disso se concentre nas atuações do que no roteiro.

Por falar nele, se o roteiro é um fracasso quase que completo, destruindo uma considerável parte da sustentação do filme, a direção de Wes Ball mostra-se eficaz em não transformar a conclusão da história em um produto completamente abominável. Wes Ball sabe dirigir cenas frenéticas, abrindo o próprio filme com uma excelente sequência de perseguição, a qual também se alia com uma boa fotografia, que sabe, especialmente dentro de cenários internos, criar composições visuais interessantes. Em uma cena específica, Ball contribui com a atuação de Gillen, elaborando uma situação na qual o vilão entra em cena através da fumaça, criando um senso de maleficência. Porém, temos uma inconsistência no tom que Ball dá a alguns segmentos particulares, mas importantíssimos. Enquanto o diretor sabe ser brega ao máximo em momentos dramáticas, puxando para o melodrama manipulativo, ele também acerta em alguns planos que invocam o desespero dos personagens, como quando um corpo desmaiado é puxado exaustivamente pelo chão. Para finalizar, em um pensamento que favoreça um pouquinho mais o andamento de um filme esticado desnecessariamente por mais de duas horas, o retorno de um personagem antigo é uma adição frutífera à química da equipe, que, senão é grandiosa, é ligeiramente um pouco distante de uma inocuidade. Enfim, Maze Runner: A Cura Mortal pode até trabalhar bem a temática pós-apocalíptica dentro da literatura, sendo que os fãs da trilogia literária provavelmente terão posicionamentos distintos se essa tiver sido uma adaptação fiel ou não. Se seguiu lealmente a história original, a obra de James Dashner certamente transmite muitas coisas negativas para a sua adaptação cinematográfica. Se não seguiu, T. S. Nowlin conseguiu transformar tudo que Dashner escreveu, talvez até um comentário relevante sobre a sociedade que vivemos, em um filme de ação com uma história distópica-adolescente dolorosamente genérica e mal resolvida.

Maze Runner: A Cura Mortal (Maze Runner: The Death Cure) – EUA, 2018
Direção: Wes Ball
Roteiro: T.S. Nowlin, baseado na obra de James Dashner
Elenco: Dylan O’Brien, Thomas Brodie-Sangster, Ki Hong Lee, Kaya Scodelario, Rosa Salazar, Giancarlo Esposito, Will Poulter, Jacob Lofland, Patricia Clarkson, Aidan Gillen, Walton Goggins, Dexter Darden, Katherine McNamara, Nathalie Emmanuel, Barry Pepper, Paul Lazenby, Kazi Maubert, Devin Koehler, Scot Cooper, Dylan Smith
Duração: 142 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.