Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome

“Call me by your name and i’ll call you by mine.”

Há muito sobre Me Chame Pelo Seu Nome que não está sendo exprimido nos comentários badalados que o novo filme de Luca Guagdanino (de Um Mergulho no Passado, Um Sonho de Amor e o intragável 100 Escovadas Antes de Dormir) têm abocanhado por aí. Muitos classificam a obra como a história gay mais sensível narrada pelo cinema nos últimos anos, o que não deixa de ser verdade, mas resumi-lo a esta frase seria diminuir por inteiro o alcance universal de Me Chame Pelo Seu Nome. De um plot de veraneio qualquer, onde o garoto Elio (Timothee Chalamet, o qual quase não reconheci lá de Interestelar) engata um envolvimento amoroso com Oliver (Armie Hammer, do incrível papel duplo em A Rede Social), um aluno de seu pai (Michael Sthulbarg, do surreal Um Homem Sério), e que está ali para um período de estágio com o mesmo.

Quando digo que muita coisa sobre Me Chame Pelo Seu Nome ainda não foi exprimida nos comentários mundo afora, me refiro principalmente ao significado sensorial rígido com que Guadagnino pensa seu filme, muito mais que o acompanhamento imagético, este muito mais simbólico à relação entre Elio e Oliver. Roteirizado por um nonagenário James Ivory (de Uma Janela Para o Amor, Retorno a Howard’s End e Vestígios do Dia) à partir de um romance do egípcio André Aciman, Me Chame… se faz de uma mise-en-scène que poderá ser facilmente confundida com um distanciamento do material, ou classificada como higienizada para se tornar mais aprazível (levando em conta o fato de que a história é protagonizada por dois homens brancos e cisgêneros), mas Guadagnino passa longe de querer traçar qualquer discurso sobre tal questão, e de fato, ele passa longe de QUALQUER julgamento sobre o que realmente envolve as personalidades de Elio e Oliver em uma só, como o trecho destacado no início da crítica indica. Interessa muito mais aqui, ao diretor e ao público, o papel de observador não apenas do aflorar de um sentimento, mas de pessoas num momento de descoberta e evolução sobre si mesmas, pois sim, Me Chame… é também um inesperado coming of age.

E sem grandes esforços ao minar seu filme de profissionais grandiosos ao seu lado, não é difícil para Guadagnino extrai o máximo de beleza de seu filme, não apenas do aflorar entre Elio e Oliver, mas também na iluminação solar na fotografia de Sayombhu Mukdeeprom (colaborador de Apichatpong Weerasethakul em Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas e Síndromes e um Século, por exemplo), que rodeia os personagens com uma ambientação acalorada que se firma como o ambiente onde a troca de identidades será estabelecida, e na dinâmica entre o bonito e despreocupado com o novo adulto, Me Chame… se faz muito mais um filme de sentimentos para serem sentidos e jamais questionados.

Chama a atenção a exploração certamente arriscada dos corpos dos protagonistas, que em constante exibição nos planos abertos, são estudados pela câmera de Guadagnino como o prenúncio do desejo que passa a nascer entre os dois, por mais que haja certas banalizações quanto a essa exploração. Mas é muito mais uma forma de incitar as diferenças e como elas serão trabalhadas para o nascer daquela relação, e não apenas isto, o roteiro dá um toque especial a Elio com sua percepção do que é estar descobrindo o mundo, a vontade, o desejo, as mágoas inevitáveis causadas à partir disso (sua relação com a garota), e a escalação de Timothée se faz acertada diante do balanço seguro que o jovem ator faz entre a insegurança, a impetuosidade e a certeza do que deseja buscar. O promissor ator, aliás, divide com um discreto Stuhlbarg um dos prováveis monólogos mais dilacerantes deste ano.

Evitando qualquer dramalhão, problematizações, sentimentos opressivos (como a maioria dos romances gays costumam ser) e encarando o belo como o agente da mudança, Me Chame Pelo Seu Nome é essa investigação suntuosa, vibrante e pontual sobre o amadurecimento através do não-questionamento sobre a sexualidade (o que garante que o filme abrace sua universalidade), mas da entrega ao desejo, do encantamento para além do que é superficial, e da permanência dos efeitos de uma nova descoberta. Há problemas de ritmo, mas Me Chame Pelo Seu Nome é belo para além do que se imagina.

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name) – EUA/França/Itália, 2017
Direção
: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory, baseado no livro de André Aciman
Elenco: Thimotée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, Elena Bucci, Marco Sgrosso, André Aciman, Peter Spears, Xhuliano Ujka
Duração: 132 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.