Crítica | Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual

estrelas 4,5

“E na antena do rádio flutuava alucinadamente a bandeira com a cruz vermelha, e se corria a oitenta quilômetros por hora em direção às luzes que cresciam pouco a pouco, sem que já se soubesse bem para que tanta pressa, por que essa correria na noite entre automóveis desconhecidos onde ninguém sabia nada sobre os outros, onde todos olhavam fixamente para a frente, exclusivamente para a frente.”

Júlio Cortázar, em A autoestrada do sul

O que esperar de um filme argentino completamente desconhecido e de um diretor estreante? Foi com essa pergunta em mente que, anos atrás, me sentei para assistir a Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual sem maiores pretensões. Apenas alguma curiosidade me movia. A surpresa que tive foi a de assistir a uma comédia romântica como nunca havia visto, repleta de recursos estéticos interessantes, de excelentes momentos narrativos e de uma agilidade notável, ao abordar um tema absolutamente atual de forma leve, mas jamais pueril. O argentino Gustavo Taretto dirige e assina o roteiro de uma comédia com tons dramáticos, mas sem carregar demais nas tintas. É agradável e profunda. Divertida, mas igualmente reflexiva.

A narração inicial apresenta o espaço urbano como um espaço de desordem, contradição, isolamento e solidão. A câmera corta sem cessar para mostrar edifícios, carros, ruas, fios e pessoas, igualmente componentes de uma grande estrutura que metaforiza a própria vida moderna, que acontece ao sabor do caos, com constante alteração de rota. A cidade se reestrutura para espaços cada vez menores, até chegar às quitinetes. O apequenamento do espaço em que se vive reflete o enclausuramento da vida interior, com indivíduos cada vez mais hermeticamente isolados uns dos outros. Os canais da TV a cabo aumentam e os amigos se tornam escassos. A luminosidade se torna promessa não cumprida e, em seu lugar, temos corpos com dores e toda sorte de mal-estar físico. O que esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio? É a pergunta que sintetiza a narração inspiradíssima que abre Medianeras.

Martin e Mariana são dois jovens que vivem solitários em Buenos Aires. Dois náufragos na solidão urbana. As salas de bate-papo, as mensagens de celular e os jogos de computador ocupam grande parte de suas vidas. A mochila de Martin, que ele arruma cuidadosamente, item por item, reúne todo o aparato para viver com o máximo de segurança uma vida absolutamente insípida. Lanternas, pilhas, medicamentos e um iPod de 60 GB com mais de 8000 músicas ocupam o vazio deixado por uma vida empobrecida. Mariana folheia seu livro predileto – Onde está Wally? -, imaginando-se uma dentre milhões de pessoas que vivem na mesma cidade. Procura o amor como quem procura Wally no desenho de seu livro.

O roteiro de Gustavo Taretto explora o mundo virtual com muita argúcia. Mariana olha as centenas de fotos de seu relacionamento que acabou de chegar ao fim. Ela deleta todas e pensa consigo mesma: “Com um ato simples e irreversível, me desprendo de 38,9 MB de história. Quem dera minha cabeça funcionasse como meu Mac”. Com boa dose de humor, o roteiro vai ao centro de uma importante questão da contemporaneidade: o mundo virtual nos devolveu um certo pensamento mágico, que a vida adulta eliminara de modo inegociável. A história de um relacionamento acabado passa a ser mensurada em megabytes e a possibilidade de eliminar a dor do término é pretendida no clique que apaga fotos, mensagens e quaisquer outros registros do mundo virtual. Nasce a problemática ideia de que a vida pode ser satisfeita na velocidade da tecnologia e nega-se que dela também fazem parte “a dor, o mistério e a frustração”, citando Mario Vargas Llosa.

A direção de Taretto não é menos inspirada que seu roteiro e faz cortes rápidos para explorar o espaço urbano de Buenos Aires, em um diálogo constante com as interpelações narrativas do roteiro. O uso de animações e fotografias confere jovialidade, rapidez e delicadeza à história de amor de Martin e Mariana. A linguagem do diretor argentino fala diretamente aos jovens, já que são eles e o mundo contemporâneo o grande tema do filme. Mas nem por isso o filme deixa de funcionar e de atrair, com sua estética colorida e despojada, qualquer cinéfilo capaz de se encantar por um filme tão cheio de boas ideias.

As medianeras que dão título ao filme são o lado esquecido de um prédio. O lado que não dá para a frente nem para os fundos, que acusa a passagem do tempo e que não esconde a sujeira que faz parte da cidade e sua história. É por janelas abertas nas medianeras que os protagonistas se veem pela primeira vez, de uma forma inusitada e cheia de bom humor, e isso é bastante significativo. Em uma cidade com milhares de celulares e fios espalhados por toda a parte, conectando mas distanciando pessoas e tornando epidêmica a solidão compartilhada, parece necessário criar uma nova via para enxergar o outro. As pessoas encontram-se, portanto, quando se olham por entre as fissuras dos muros tecnológicos que ergueram.

Martin e Mariana conversam frente a frente, sem saberem um a identidade do outro, em uma noite em que ambos saem para comprar velas devido a um blackout. Quando voltam para casa, Taretto mostra os dois subindo as escadas, ele com a luz de uma lanterna e ela iluminando os degraus à luz de velas. Eles se encontram mais uma vez quando falham todas as tecnologias, em plena escuridão, que só é quebrada pela tênue luz de uma vela e de uma lanterna. O amor romântico ainda surge como uma alternativa feliz na era do amor virtual e Martin e Mariana só o encontram, ainda que anonimamente, fora de seus cubículos e quando caem todas as luzes de um mundo mantido por quilômetros de cabos. Com muita delicadeza e inventividade, o filme reserva um final feliz, com todo o direito à fantasia e usando mais uma vez um de seus melhores recursos – a animação.

Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual é um filme para o nosso tempo e sobre questões que precisam urgentemente ser pensadas. Com um roteiro ágil e esperto e uma direção com ótimos recursos estilísticos, Gustavo Taretto trata muito bem de uma geração com amigos demais nas redes sociais, mas com cada vez menos no mundo off-line. Uma geração que tolera bem pouco a frustração da vida e que se isola progressivamente dentro suas cascas de noz. Mas o filme é bastante positivo quando oferece, nesse conto de fadas urbano, a possibilidade do amor com todo o colorido e a fantasia da juventude. Fica a esperança contida nos versos de Ain’t no Mountain High Enough, que Martin e Mariana cantam com o coração pulsante de dois jovens apaixonados.

Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Medianeras) – Argentina, 2011.
Direção: Gustavo Taretto
Roteiro: Gustavo Taretto
Elenco: Adrián Navarro, Carla Peterson, Inés Efron, Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Rafael Ferro, Romina Paula
Duração: 95 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.