Crítica | Medo em Cherry Falls

estrelas 3

Após a Segunda Era de Ouro do Terror, fecunda no final da década de 1970 e reinante nos anos 1980, os filmes desse gênero passaram por um apagamento. Parcas produções aqui e ali, mas sem nenhum movimento organizado ou produção de grande destaque. Foi com Pânico, em 1996, que os filmes de terror ganharam novo rumo, o “terror teen”, vanguarda que abriu destaque para produções como Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana, Prova Final, Comportamento Suspeito e Medo em Cherry Falls, considerado como um dos últimos suspiros dessa “nova” fase.

A produção buscou brincar com as regras do filme de Wes Craven. Dessa vez, as virgens é que podem morrer. Na cidade de Cherry Falls, na Virginia (nome mais oportuno, não?), um psicopata começa a atacar as jovens virgens da escola secundária. O xerife Brent Marken (Michael Biehn), arquétipo do policial desajustado e incompetente, é pai de Jody (Brittany Murphy), mocinha virgem que decide mergulhar com mais afinco na investigação, haja vista que as suas colegas estão morrendo brutalmente e ela é uma das possíveis vítimas a torna-se estatística.

Enquanto a situação não se resolve, os jovens da cidade decidem criar um evento chamado Holocausto do Hímen. Tal ação não faz parte de um grupo de garotas interessadas em “serem tocadas pela primeira vez”, mas uma oportunidade para sair da mira do psicopata. É uma das sacadas mais humoradas do filme, pois mesmo que a produção tenha as suas diversas falhas, não há como esconder a criatividade do argumento, bem como deflagrar a tentativa (frustrada, mas ao menos tentou se diferenciar) de reverter às regras do gênero. Um detalhe: o assassino marca as suas vítimas na coxa com a palavra “virgin”.

O problema não chega a ser técnico. A montagem de Anthony B. Richmond é eficiente ao apresentar os flashbacks, o som segue a “Escola de Hitchcock” no uso do som das facadas ao invés de explicitar com sangue e tripas e os motivos do assassino são bem mais plausíveis que quase todos os filmes dessa geração, entretanto, é no final que os absurdos surgem e a situação narrativa se complica. Estamos diante do clichê das explicações excessivas.

Os crimes são motivados por uma vingança. Há alguns anos, a jovem Loralee Sherman foi estuprada por um grupo de jovens quando voltava para casa. O abuso deu origem a uma criança rejeitada que no futuro, decide investir num audacioso projeto de vingança. Não satisfeitos em apenas sugerir algumas coisas, o roteiro decide selecionar bastante tempo na explicação dos motivos, como se tivesse numa aula de Metodologia da Pesquisa: frustrante e cansativo.

O título do filme é uma expressão em língua inglesa que nos remete à perda da virgindade. Seja numa seita que precisa do sangue de uma virgem ou no toque de uma menina “pura” para a quebra de uma maldição, a virgindade faz parte de um esquema religioso ancestral pregado por manuais religiosos como a Bíblia Sagrada. No livro dos Coríntios, por exemplo, prega-se que o sexo deve ser uma prática realizada através do casamento e a fornicação fora dessa condição soa como “pecado mortal”.

Tema que ronda algumas narrativas de terror desde os anos 1980, ainda é uma abordagem polêmica que provavelmente vai permanecer durante muito tempo nas telas do cinema, nas obras literárias e nas diversas manifestações onde o lugar comum entra em contato com a arte. Medo em Cherry Falls tenta estabelecer um debate com este tabu, mas não consegue um roteiro que sustente o argumento até interessante.

Proibido para menores de 18 anos, o filme não estreou nos Estados Unidos em salas de cinema, sendo lançado diretamente em DVD. Aqui no Brasil, estreou em 2001, com censura, o que ajudou no fracasso de bilheteria. O filme não tem sequer 10% da violência dos seus antecessores citados no segundo parágrafo desta análise. Depois desta produção, poucos filmes de terror no estilo assassino mascarado ou com indumentária específica estrearam no cinema. Essa “nova” era tornou-se obsoleta e os filmes de terror ganharam outro rumo alguns anos depois, com as refilmagens de produções orientais e as narrativas de tortura.

Medo em Cherry Falls (Cherry Falls, Estados Unidos – 2001).
Direção: Geofrey Wright
Roteiro: Ken Selden.
Elenco: Britanny Murphy, Kristen Miller, Michael Biehn, Gabriel Mann, Jesse Bradford, Douglas Spain, Jay Mohr, Candy Clark.
Duração: 91 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.