Crítica | Medo Ponto Com Br

Medo Ponto Com Br

estrelas 2

Possível herdeiro do ótimo O Chamado, este filme de terror com pinceladas de trama policialesca nos mergulha em um insano clima de horror, adornado por um extenso rastro de sangue e violência física, ao tratar de um site proibido que ao ser navegado, cobra a vida das pessoas como preço a ser pago, 48 horas depois do acesso. Lembrou-se da fita VHS e dos sete dias da ligação de Samara Morgan? Aqui temos algo parecido, mas bastante inferior.

Ambientada em Nova York, a trama retrata a investigação de um detetive, Mike (Stephen Dorff), homem que precisa se unir a Terry Huston (Natasha McElhone), pesquisadora do Departamento de Saúde, para juntos, solucionarem um misterioso caso que envolve a descoberta de quatro cadáveres numa zona industrial abandonada. Um dos primeiros passos é identificar as possíveis ligações entre os corpos, o que não demora a ser desvendado: todos os mortos possuem em comum, hemorragias no nariz e nos olhos, além de terem acessado o site “feardot.com”, um portal com visual que instiga a curiosidade, haja vista a voz feminina sedutora e o seu design bizarro.

A dupla recebe o apoio do policial Sykes (Jeffrey Combs), personagem que também entrará no esquema investigativo para solucionar o mistério, tendo a missão de percorrer o mesmo caminho dos anteriormente amaldiçoados. Assim, todos os envolvidos têm apenas dois dias para resolverem os enigmas e salvarem as suas respectivas vidas, tal como Rachel, mãe do pequeno Adam, em O Chamado, com a diferença razoável de dias, pois na trama da fita VHS ela tinha sete dias para tentar salvar a sua pele. Também, pudera, o mistério era bem mais complexo e a trama muito mais envolvente.

De cara, percebemos logo as intenções do roteiro. Traçar uma crítica aos perigos da internet, terra de ninguém que pode proporcionar maravilhas, concomitante ao trágico, a depender da forma como seja utilizada. O problema é que a história é mal contada. O roteiro, assinado pela dupla Josephine Coyle e Moshe Diamant, busca ganhar credibilidade ao tratar a mergulhar nos mistérios do ciberespaço, entretanto, não conseguem dar a densidade necessária, o que transforma a narrativa numa experiência frustrante.

O maior problema é tentar misturar muitos elementos de subgêneros diversos do terror e não conseguir dar conta de torna-los orgânicos na narrativa. Há um clima fantasmagórico e fantástico, com um espírito de uma criança a perambular pela narrativa, além da presença de um antigo serial killer conhecido como “o Doutor”, isto é, Alistair Pratt (Stephen Rea), um homem sádico que escapou da polícia há alguns anos e retorna através da internet para perpetuar o seu legado de sangue, com transmissão de cenas que nos remetem aos snuff movies, mas desta vez, através do ciberespaço. Estes produtos, ressalto, são financiados por assinantes interessados em assistir ao espetáculo sangrento oferecido pelo psicopata.

A direção frágil de William Malone também é outro componente a ser considerado, pois o cineasta conhecido apenas pelo gerenciamento de dois episódios da série televisiva Os Contos da Cripta e do fraco A Casa da Colina não faz muita coisa para salvar o seu filme. A equipe até consegue realizar um trabalho acima da média: os enquadramentos e a movimentação da câmera contemplam planos fechados, a direção de arte consegue dar conta do recado, a fotografia perde o foco em alguns momentos, associada aos acontecimentos cadenciados pelo roteiro, e, juntamente com a cenografia escura e cheia de sujeira, o filme deixa a entender que os objetos específicos deste projeto gravitam entre o estabelecimento do medo e da inquietação.

“Abandone toda a esperança, acesse todo o mal, este será o último site que você verá”. Macabro, não? Mais macabro ainda é a certeza dos realizadores no que diz respeito o possível impacto da trama, algo que, convenhamos, ficou apenas no terreno da tentativa. O filme é uma crítica à sociedade cada vez mais sedenta por frames repletos de sangue, sendo bastante atual na era do compartilhamento de curras, estupros, acidentes automobilísticos e outras cenas violentas da vida real, transmitidos através do whatsapp. A internet surge como espaço de propagação da violência, algo bastante atual.

Como discutido em determinado trecho do filme, “a internet oferece nascimentos, comércio, sexo, sedução e política, a morte é apenas um componente lógico”. O que a trama consegue fazer externamente, no campo do discurso e do debate é o que lhe dá alguma dignidade ou possibilidade de ser lembrada. Ademais, retiradas estas questões, fica apenas a sensação de uma experiência estética pouco memorável.

Medo Ponto Com Br (Feardotcom) — Estados Unidos, 2002
Direção: William Malone
Roteiro: Josephine Coyle, Moshe Diamant
Elenco: Amelia Shankley, Gesine Cukrowski, Jeffrey Combs, Natascha McElhone, Nigel Terry, Siobhan Flynn, Stephen Dorff, Stephen Rea, Udo Kier
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.