Crítica | Megamente

estrelas 3

Megamente (2010), da Dreamworks, é uma animação com leve sabor vintage de heroísmo x anti-heroísmo, cujos ingredientes principais vão de alusões a um clássico da série Superman – cujo papel de Marlon Brando é satirizado – até a mais recente explosão de heróis atrapalhados, como em Os Incríveis; ou dos anti-heróis que resolveram sair da marginalidade e povoar o cinema de animação dos últimos anos.

Metro Man e Mega Mente são inimigos desde a infância e ambos vieram parar na Terra ainda bebês, fugindo de problemas em seus planetas. Metro Man, por uma série de fatores aleatórios, conseguiu estacionar sua nave em uma casa luxuosa, crescer em um lar próspero, ter uma boa educação e ser admirado por todos pelos seus superpoderes. Mega Mente (pelos mesmos fatores aleatórios mas que sempre pendem para o azar em relação a ele) estacionou no pátio de um presídio e foi “educado” pelos detentos. O reencontro dos dois extraterrestres, anos depois, na escola, marcaria o início oficial da rivalidade. Mega Mente, após diversas tentativas infrutíferas de ganhar a atenção da turma (que era totalmente voltada para Metro Man, o “Senhor Certinho”), resolve que ser mau é a sua verdadeira especialidade e a partir de então torna-se um grande malfeitor a quem Metro Man precisa deter, principalmente do sonho de dominar Metro City.

Para todos os efeitos, Megamente é uma ótima comédia de animação. O roteiro garante momentos de fino humor e besteirol, uma mistura aparentemente impossível, mas que deu muito certo nas piadas e situações-limite. Porém, a história não é de admirável originalidade (até porque é uma homenagem ao Superman e outros tantos heróis e por isso mesmo faz um amálgama de temas e histórias das mais diversas fontes).

Por dentro da Mente

Sêneca disse que “a maldade bebe a maior parte do veneno que produz”, e é justamente ante essa máxima que em Megamente vemos acontecer as derrotas e quase-vitórias do vilão da grande cabeça azul. O bem parece triunfar perpetuamente sobre as tentativas fracassadas da “suprema vilania”, contudo, eis aí o gancho para o futuro desenvolvimento do roteiro, que desemboca em algumas questões: o Mega Mente era, de fato, mau? Sua educação no presídio influenciou sua opção pela maldade? O ambiente externo interferiu nas suas atitudes e escolhas para ser um vilão?

Do processo educacional de Rousseau à existência sartreana, podemos pensar em alguns motivos para o comportamento crescentemente ambíguo do vilão, que hora apresenta planos malignos para a morte do seu arqui-inimigo e domínio pleno de Metro City, hora demonstra apaixonar-se, sentir medo e um vazio existencial quase depressivo, quando do desaparecimento de Metro Man, o verdadeiro significado de sua existência má.

A ausência do bem esvazia o mal e o paradoxo que se segue é uma situação que já foi e é exaustivamente discutida: Mega Mente, o entediado representante da maldade, começa a trabalhar em um projeto para criar o bem, alguém para se opor aos seus planos, para caçá-lo, para disputar Metro City com ele. Então aparece Titan, o herói construído que pouco depois de seu “treinamento extraterrestre”, passa agir de forma completamente diversa da qual programado para agir. Se a discussão sobre a construção do mal esteve evidente na primeira parte do filme, agora é sobre a construção do bem e remissão do mal que o enredo passa a discorrer.

Em meio à comédia, algumas discussões morais e éticas (baseadas e desvios e remissão de condutas) dão um ar mais sério e menos pueril ao filme. Essa seriedade, por sua vez, é acompanhada por uma trilha sonora que definitivamente espantou e encantou os espectadores adeptos de obras clássicas como Crazy Train (Ozzy Osbourne), Highway to Hell e Back in Black (AC/DC), Welcome to the Jungle (Guns N’Roses), Bad (Michael Jackson), A Little Less Conversation (Elvis Presley, numa versão remix muito boa) além de momentos de pura comicidade cênico-musical, como a acidental reprodução de Lovin’ You (Minnie Riperton), na frente de toda Metro City, no momento em que Mega Mente assume o pleno comando da cidade. O que não temos em apuro estético na construção da imagem do filme (apesar do ótimo gráfico), temos em compensação através do campo sonoro, seja na edição de som, seja na música (original ou não).

O incômodo aparece quando percebemos as lombadas e barrigas do campo técnico e, a pior delas, é a montagem. Uma das sequências que mais me incomodaram foi a passagem do tempo e de espaços através do relógio transformador de Mega Mente. A repetição da transição com aquele relógio em chicote pela tela, além de ser muito feio, lembra transições de desenhos animados, como Bob Esponja, por exemplo. Ao fim da película, apenas Bad, em louca coreografia segura a mensagem do filme e dá uma certa simpatia ao epílogo. Sim, falta uma boa finalização para a história, falta o elemento desencadeador da paixão do espectador pelas personagens e por sua trajetória durante a fita. Falta algo. E o filme termina com esse vácuo.

Há poucas décadas, as animações populares deixaram de ser feitas unicamente para crianças. A geração pós- Monstros S.A. é a geração das “animações adultas”, cheias de motivos que apenas um público acima da adolescência vai entender completamente, como por exemplo, as inúmeras alusões sexuais em A Era do Gelo 3. Uma obra como Megamente chega aos cinemas e traça uma linha divisória entre esses dois públicos: parte do filme só entende os adultos (como a piada com o “pai espacial” do “herói bom” Titan: que criança saberia dizer que se tratava de uma imitação de Marlon Brando?), e por conter uma narrativa extremamente dinâmica e menos infantilizada (inclusive na mensagem que passa), também recebe o efusivo aplauso do público infantil. Além disso, sequências que tocam a sensibilidade de todos os espectadores tornam algumas cenas absolutamente inesquecíveis: quem não se encantou com o “olhar carente” do Servo, ou quem não riu com os erros de linguagem do Mega Mente?

Embora falte uma boa finalização para a trama e mesmo o seu desenvolvimento seja manco, o filme está acima de muitas produções recentes e merece destaque.

A amizade, o amor, o bem e o mal são as colunas que sustentam Megamente e a figura do anti-herói ganhou aqui um trabalho digno de nota. Em um mundo nada comum, situações bizarras e planos mirabolantes ganham a graça do absurdo. Megamente é uma quase-vitória da mega mente de Tom McGrath, que depois de co-dirigir os dois volumes de Madagascar, assume sozinho a mega direção de um mega vilão. Não resta dúvida: Megamente não é um mega filme, mas engana e encanta mega bem.

Megamente (Megamind, EUA, 2010)
Direção: Tom McGrath
Roteiro: Alan J. Schoolcraft, Brent Simons
Elenco (vozes): Brad Pitt, Jonah Hill, Tina Fey, Will Ferrell
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.