Crítica | Megatubarão

Vivemos uma nova era para os filmes de terror e aventura envolvendo os tubarões como feras assassinas? Tudo indica que sim. Quase cinquenta anos depois do bem sucedido filme de Spielberg, o tema ainda está presente na indústria do entretenimento. Águas Rasas e Medo Profundo comprovaram que ainda é possível ter os tubarões como elementos antagonistas numa narrativa. Para a receita dar certo, basta o filme ter os diálogos certos, as necessidades dramáticas bem delineadas e personagens desenvolvidos num tecido narrativo bem urdido.

Com Megatubarão o esquema foi diferente. Produção com orçamento pomposo, desde a divulgação das primeiras imagens foi possível perceber que não estávamos diante de um filme para ser levado para o lado reflexivo. O tamanho absurdo da criatura, as frases de efeito e o manancial de cenas exageradas, bem como um cartaz que prometia a junção de Tubarão com Jurassic Park já havia nos avisado sobre tudo que estava por vir. Então, é sem maiores surpresas que informo: Megatubarão é mesmo uma burlesca versão de Tubarão com esteroides, tal como afirmou Rainn Wilson. A direção de Joel Turteltaub baseia-se no roteiro escrito pelo trio formado por Jon Hoeber, Dean Georgaris e Eric Hoeber, que por sua vez, inspiraram-se no primeiro romance da série de livros MEG, de Steven Alten.

A base narrativa é o encontro dos humanos contemporâneos com o maior tubarão de todos os tempos. A suposta existência da espécie ainda nos dias de hoje, em águas bastante profundas e inalcançadas pelo homem, surgiram depois que a Discovery Channel lançou um de seus documentários sensacionalistas que dizia ainda ser possível a existência de tal criatura em algum lugar do globo terrestre. Há alguns anos, um estudo da Universidade de Zurique usou uma técnica para analisar 42 fósseis e concluiu que os tubarões desta espécie foram extintos há cerca de 2,6 milhões de anos, quando os oceanos passaram por um brusco resfriamento. Presente no imaginário cultural há eras, o pesquisador James Madison descobriu que o “monstro” deixou a sua marca na cultura maia, povo que utiliza os dentes destes tubarões em seus templos e tinham como um dos itens da sua mitologia, uma criatura chamada Sipak, ser com cauda bifurcada, mandíbulas serrilhadas e um dente único na frente.

As teorias e estudos sobre a espécie são numerosos e não param por aí. Nicolau Steno, naturalista dinamarquês, em 1667, constatou através de análises apuradas que a arcada dos tubarões desta espécie era formada por dentes com enorme potência que podiam medir até 17 centímetros. A tradução literal do seu nome, “dentes gigantes”, não deixa dúvida do seu porte e estrutura. Na época que desenvolveu a análise, o mundo ainda tinha muitos resquícios do imaginário das grandes navegações, momento histórico marcado por dentes gigantes fossilizados atribuídos a dragões e enormes serpentes marinhas assassinas. Na contemporaneidade este imaginário ainda se encontra presente, mas não como histórias de um mundo que ainda não compreende os mecanismos que o engendram, mas de uma indústria que entende o potencial deste tipo de narrativa para atrair bastante gente para as salas de cinema. Megatubarão é um exemplo bem pontual.

O ponto de partida para a jornada é um submarino que se encontra preso diante de uma região oceânica bastante profunda, tudo por conta de um maquiavélico bilionário (Rainn Wilson) que decide investir numa expedição submarina, tendo em vista encontrar o novo ponto mais profundo do planeta. O equipamento é parte integrante de um programa internacional de observação e pesquisa subaquática e inesperadamente é atacado por uma criatura que todos acreditavam não existir mais, isto é, o gigantesco e “jurássico” megalodon. Diante da situação exposta, Jonas Taylor (Jason Statham), mergulhador especializado em águas profundas é recrutado para tentar conter os problemas que surgirão, tendo em vista salvar a tripulação, o oceano e as atividades capitalistas desenvolvidas pelos humanos no plano aquático da economia do planeta.

Junte a tudo isso um tubarão a ser capturado, o encontro da imensa espécie com o litoral e imagens que demostram o interesse dos realizadores na metalinguagem, cientes da inferioridade artística da produção em relação ao filme ponto de partida para o subgênero. Cabe ressaltar, entretanto, que pelo desenvolvimento narrativo, a produção não tenha realmente o interesse de superar o filme de Spielberg. O interesse maior é entreter com conduzir os personagens pelos meandros do tom paródico adotado pelo roteiro. Repleto de cenas dinâmicas e muitos absurdos, Megatubarão teve Grant Major como designer de produção, gerenciador dos cenários eficientes de Amber Richards, erguidos com maestria diante do orçamento dedicado ao filme. A condução sonora de Harry Gregson-Williams é burocracia pura, mas segura bem o ritmo do estilo de produção e a direção de fotografia de Tom Stern é muito bem trabalhada, com ótimas cenas subaquáticas e ajuste dos enquadramentos e movimentos de câmera para a devida inserção e manipulação dos efeitos especiais que são o grande destaque técnico da produção megalomaníaca.

As comparações com o clássico de Spielberg são inevitáveis, afinal, os produtores investiram bastante em peças publicitárias que emulavam o imaginário de Tubarão, principalmente no que diz respeito ao trabalho de Roger Kastel como desenhista da arte de capa que foi vinculada ao filme. Enquanto o herói do filme de referência tinha que lidar com os seus medos e com a corrupção política, o personagem de Jason Statham enfrenta um trauma em seu passado, decorrente de uma missão sem sucesso ao tentar salvar algumas vidas. De acordo com os manuais de roteiro, essa serie a necessidade dramática do personagem, um ser humano motivado pelo interesse em “conseguir cumprir a sua missão diante desta nova oportunidade”.

O roteiro é esquemático, com seus tipos fixos. Há o herói, o bonzinho, o alívio cômico, a enigmática especialista, uma criança em apuros, dentre outros perfis rasos que dão certo na receita dos filmes ligeiros contemporâneos. Os diálogos não são muito inadequados ao tipo de filme, mas talvez pudessem carregar um pouco mais no humor, tendo em vista o grau de distanciamento dos espectadores da noção de bom senso ao tentar engolir um argumento guiado por situações hiperbólicas. As cenas de ação divertem e o filme ao menos cumpre o seu papel enquanto entretenimento massivo, feito para sacudir as plateias frenéticas ensandecidas por alguns momentos de escapismo.

Filme B com orçamento grandioso, Megatubarão é mais um episódio na trajetória que tenho intitulado de A Persistência da Memória: Tubarões no Cinema, um subgênero que provavelmente ainda não encontrou esgotamento, animais que já foram parte de um teste para mal de Alzheimer (Do Fundo do Mar), atraídos por um tsunami (Isca), motivo para a personagem de Halle Barrey lidar com suas perdas (Maré Negra), espécie utilizada como exterminador de jovens incautos (Terror na Água 3D), reforço para o imaginário de monstros e feras assassinas em animações ditas direcionadas ao público infantil (O Mar Não Está Pra Peixe, Espanta Tubarões, Procurando Nemo), inspiração para a pornochanchada (Bacalhau), para diversas imitações, isto é, os filmes do jawsplotation (Barracuda, Tentáculos, Orca – A Baleia Assassina, etc.). Os tubarões talvez sejam os animais mais bem sucedidos no que concerne a representação na indústria do entretenimento. E diante dessa memória que persiste em continuar a ser acionada que surge uma questão: alguém duvida que haja uma continuação para Megatubarão?

Megatubarão — (The Meg) Estados Unidos, 2018.
Direção: Jon Turteltaub
Roteiro: Dean Georgaris, Erich Hoeber, Jon Hoeber, Steve Alten
Elenco: Jason Statham, Andrew Grainger, Bingbing Li, Cliff Curtis, Glen Levy, James Gaylyn, Jeremy Tan, Jessica McNamee, Leand Macadaan, Mark Trotter, Masi Oka, Ólafur Darri Ólafsson, Page Kennedy, Rainn Wilson, Rob Kipa-Williams, Robert Taylor, Ruby Rose, Shuya Sophia Cai, Steven A. Davis, Tawanda Manyimo, Tim Wong, Winston Chao, Yoson An
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.