Crítica: Melancolia
Quando, ao final da sessão, você perceber que está prendendo a respiração e com todos os músculos do seu corpo tensionados, não se transtorne. Assim que os créditos sepulcrais do filme surgirem, as impressões que foram talhadas ao longo da projeção na sua mente virão à tona e só então você poderá retornar ao seu mundo. Essas são algumas das sensações que um filme impactante como Melancolia causa ao espectador, comprovando toda a singularidade de um diretor como Lars Von Trier que, mais uma vez, transcende o lugar-comum da sétima arte.
Nele, seguimos Justine (Kirsten Dunst) que, acompanhada de Michael (Alexander Skarsgard) seu marido, vai à recepção do seu casamento na mansão do rico cunhado, John (Kiefer Sutherland). No transcorrer da festa organizada por sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), as relações entre os presentes vão se acentuando, à medida que Melancolia, um desconhecido e misterioso planeta, se aproxima da Terra.
A beleza do filme já suga o espectador para seu universo nos segundos iniciais quando, através de imagens quase estáticas e movimentos singelos, Trier nos entrega uma triste e deleitosa pintura do desenrolar de sua criação. A cada surgimento de uma nova imagem a visão singular do cineasta se desenha para o espectador e é impossível não ser tomado por uma inquietante sensação de profunda melancolia – como o próprio nome sugere – num início tão arrebatador e eficaz tal qual o da produção As Horas. E num plano aberto que captura um relógio solar nos jardins da mansão, somos capazes de notar toda a natureza cósmica que o filme abrangerá. Então surge o planeta, azul e tão nebuloso quanto os nossos sentidos nos permitem destrinchar algo que não compreendemos. Daí, já é possível perceber claramente que Melancolia será carregado de metáforas e subjetividade, e mesmo aqueles instantes onde um diálogo podia esclarecer as coisas serão evitados, pois para Lars Von Trier a elevação da percepção do espectador é o que interessa, e não obviedades.
Após a passagem do preâmbulo, claramente marcado por cores fortes e veladas numa representação onírica, passamos a seguir a história de Justine após seu casamento. Através de enquadramentos geniais o diretor nos entrega pistas sem jamais revelar o todo. A limusine na qual estão Justine e Michael tenta, sem sucesso, avançar por uma estradinha de terra, mas é muito grande para tanto, indicando tão somente a incapacidade de sua protagonista de se iniciar naquele lugar – aquela não é uma ocasião ansiada por Justine. Isso fica ainda mais evidente quando, apesar de parecerem um casal perfeito, Kirsten Dunst nos entrega pequenas e quase imperceptíveis expressões de confusão e falta de alegria de sua personagem em meio a uma cena que só deveria lhe inspirar felicidade. Os atributos da atriz se repetem em vários outros momentos e vão construindo o perfil intricado de Justine, como o desconhecimento da mesma em relação aos costumes à mesa ou quando, numa banheira, a atriz assume uma respiração dificultosa, exprimindo a agonia de sua personagem. E percebam a capacidade de Trier em investir ainda mais nela ao capturá-la deixando a mansão – as cores, risos e luzes – e avançando num campo de golfe penumbroso, entregando a percepção de mundo da personagem quando esta se encontra só.
A elaboração visual impecável da fita acontece graças à fotografia de Manuel Alberto Claro, que emprega também um jogo de luz e sombras constantes, mostrando a dualidade existente na Terra e em seus habitantes. Observem como nos corredores da mansão de John a entrada de todos os aposentos é iluminada por um lampião artificial, mas toda vez que uma porta é aberta, a primeira visão que obtemos dos quartos é a da escuridão, como se houvesse um mar inexplorável que todo personagem deve cruzar ao desejar pisar nas terras alienígenas do outro, evocando as singularidades de cada mente. E quando a protagonista já se encontra inserida naquele todo, pode-se perceber que Alberto Claro faz questão de capturar Justine na sombra do cavalo Abraham toda vez que esta decide lhe colocar uma sela para cavalgar, nos revelando que os campos e a mansão agora são seu mundo e deixá-lo não é mais uma idéia tão iluminada. Por sinal, a indicação de Trier de que o universo de Justine se fechou é abordada de forma inteligente quando ela nunca consegue ultrapassar a ponte que se localiza nos arredores da residência de John, e mesmo que pudesse, tal ato não a conduziria a canto algum, já que a estrada de terra não segue além dela.
Em planos tão evocativos fica fácil compreender também a visão de Melancolia em relação aos terráqueos, que são tidos como formas de vida dispensáveis, meras formigas que podem ser esmagadas sem temor, algo demonstrado quando os convidados da festa deixam a residência e se encaminham para os jardins em fila, sendo enquadrados num plongé. Ou mesmo quando, através da internet, Claire visualiza a trajetória dos dois planetas e, enquanto Melancolia possui o traçado azul, a Terra é marcada pelo negro. Dessa maneira, Trier concede ao espectador sua noção do ser humano e de como ele é descartável, uma característica marcante na carreira do cineasta que pode ser resumida numa conversa entre Justine e sua irmã na qual a protagonista enfatiza: “A Terra é má. Ninguém irá se lembrar dela.”
Igualmente representativo é o sepultamento de um determinado personagem feito apenas com feno, indicando quão frágil é a proteção dada ao corpo perante o que está por vir, e que determinados rituais não tem mais serventia. Rituais esses que Claire, irmã de Justine, faz questão de manter, numa interpretação virtuosa de Gaisnbourg. Sempre maniqueísta, a moça não se rende nem mesmo na iminência dos acontecimentos ao sugerir que seu filho, Justine e ela apreciem um vinho enquanto contemplam o fim derradeiro. E notem como a maquiagem auxilia o desenvolvimento do papel já que, no começo, vemos uma Claire impecável, mas à medida que a projeção avança, seus cabelos vão ficando desgrenhados e suas rugas se acentuam.
Mas Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst não são as únicas a se entregar aos seus papéis. Mesmo com menos tempo em tela, outros conseguem somar ao filme brilhantismo considerável. John Hurt, como pai de Justine, encarna parte da loucura que aquela família carrega, mas mesmo diante da imensidão de seus problemas, não deixa de ser tocante o discurso que ele faz para sua filha, embargando a voz e criando pausas entre as palavras. O mesmo ocorre com outro experiente intérprete, Stellan Skarsgard, que, ao perceber que perdeu sua funcionária e seu investimento, reproduz falas trêmulas e roucas numa cena forte. Há também a amarga entrega de Charlotte Rampling para sua Gaby, mãe de Justine. Apesar de parecer desprezível, a personagem nada mais é que o pingo de sanidade que resta na família, a única que mantém uma visão cética dos acontecimentos. E mesmo Kiefer Sutherland surpreende ao fugir do estigma de Jack Bauer, também demonstrado em filmes que vão além do seriado. Aqui, o ator encarna um tipo forte, razoável e constantemente preocupado com os destinos da sua esposa e filho.
A trilha sonora poderosa é um dos principais fios condutores do filme. Toda vez que nossos ouvidos imergem naquele universo musical habilmente conduzido, somos levados a compartilhar dos mesmos temores e aflições que circundam o desenrolar da produção. Auxiliada pela câmera nervosa do diretor, sempre tremendo mesmo que mais sutilmente em alguns instantes, a sensação que Melancolia passa é de afloração dos sentimentos e das vicissitudes de cada ser somadas à aflição que o planeta Terra vive. E quando a surpreendente revelação da percepção de Justine vem à tona, indicando numa frase a solidão enfrentada pelo humano numa série de multiversos, é impossível não sentir um frio na espinha ao ter todas as nossas convicções jogadas por terra. São tantos os símbolos e meios usados por Trier para construir a tessitura de sua obra que fica impossível citar todos aqui.
Contando com uma das mais belas cenas do cinema nesse ano, e me arrisco a dizer até que dos últimos anos, aquela em que Dunst aparece na beira de um lago banhada pela luz azul do planeta, Melancolia alcança o posto de um dos melhores filmes dos últimos tempos sem sombra de dúvidas, uma obra ímpar do surpreendente Lars Von Trier.
Melancolia (Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011)
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgard e Stellan Skarsgard
Duração: 136 min
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puts finalmente alguem q pensa como eu, a maioria das pessoas que eu conheço que viram esse filme falaram tão mal dele…acabo pensando que as pessoas não assistem mais os filmes querendo ver algo a mais do que a superfície das imagens….eu adorei, achei bem melhor q o anti-cristo, a trilha sonora, a fotografia, o sentimento que vc fica ao terminar o filme ( eu, por exemplo, fiquei semanas refletindo sobre isso, confesso q até com um pouco de melancolia rsrsr) ótimo filme, diferente da maioria das pessoas eu não senti sono em nenhum momento e sim uma forte tristeza após o termino do mesmo…
Sim, um dos grandes filmes que já vi.
Obrigado pela visita, Pablo.