Crítica | Melhor É Impossível

estrelas 4

“Eu estou me afogando aqui e você está descrevendo a água!”

Melvin Udall (Jack Nicholson), protagonista de Melhor É Impossível, possui transtorno obsessivo compulsivo, um distúrbio que leva-o a repetir determinados comportamentos de modo compulsório, sendo afligido por um excesso de pensamentos e medos irracionais. Afastado dos vizinhos, o personagem de Nicholson, escritor de sucesso vivendo em parcial reclusão dentro de seu apartamento, segue um mesmo padrão todos os dias, indo sempre ao mesmo restaurante, sendo atendido pela mesma garçonete, comendo a mesma refeição. Deixando de fora caracterizações simplistas, pode-se dizer que Melvin tem uma tendência a antipatizar com pessoas, ainda mais com grupos específicos formados por elas. Melvin é complicado e, se nem mesmo ele se entende, é difícil que aqueles a sua volta o entendam, compreendendo verdadeiramente de uma maneira fácil os percalços de seu dia a dia. Assim sendo, somos apresentados à Carol Connely (Helen Hunt) e Simon Bishop (Greg Kinnear), duas pessoas que mantêm em comum esta antipatia por Melvin, uma invariável do mundo perante quem ele é. Por um lado, Carol é uma mãe apreensiva, que, devido a doença respiratória de seu filho, tornou-se uma pessoa insegura, com um grande senso de paranoia permeando-a mentalmente. Por outro, a bondade existente nela a faz ser a única garçonete capaz de tolerar a obsessão, às vezes agressiva, de Melvin. Já Simon é um artista plástico que, após alguns eventos no filme, decide por deixar, temporariamente, seu cachorro aos cuidados do pouco amável personagem de Nicholson.

Enquanto os eventos decorrentes das interações entre Melvin e o cachorro movimentam o começo da trama, a relação entre Carol e o senhor proporciona o desenvolvimento em definitivo do protagonista da obra. Em um primeiro plano, os próprios primeiros dez minutos de Melhor É Impossível possuem uma dinamicidade especial, mostrando logo de cara todas as características da personalidade de Melvin, o que futuramente contrasta com a  sua personalidade renovada. No entanto, o mais interessante do roteiro é a desconstrução, ao longo dos 139 minutos de longa, do lado mais frio e grosseiro do personagem para o seu lado mais generoso e caridoso. A transformação ocorre, de certa forma, acompanhada da progressão de como as pessoas ao seu redor o veem, fazendo-se um paralelo desta com a maneira na qual o espectador o enxerga – tudo isso utilizando um dos cachorros mais fofos da história do cinema como catapulta para a metamorfose. A alcançar isso, o roteiro é focado na construção e consequente desconstrução de seus personagens por meio das interações humanas, o real foco da obra. No âmbito narrativo, o enredo nos leva a lugares bastante previsíveis. A direção, indo por outra via, é muito mais eficiente, com o diretor preferindo pelo uso de plano americanos e zooms em cenas mais delicadas, distanciando e aproximando o espectador do cerne. Além disso, a trilha sonora de Hans Zimmer, uma de suas mais sensíveis, é bastante bonita, mesmo que quando exposta em momentos mais inoportunos, possa ser interpretada como uma busca incessante pelo melodrama.

Felizmente, o elenco inspirado não deixa que o filme fique preso a uma espécie, com suas ressalvas, de sentimentalismo barato – longe disso. A mãe de Carol Connely, interpretada por Shirley Knight, está excelente e sua relação com a filha convence muito, gerando alguns dos melhores diálogos da obra. Não se deve esquecer da pequena participação de Cuba Gooding Jr, muito divertido nesse que é um dos papéis mais leves de sua filmografia. Notavelmente, o filme acaba por não aproveitar o máximo do intérprete em cena, servindo mais como um alívio cômico do que qualquer outra coisa. O destaque, todavia, encontra-se no trio principal do longa metragem. Simon, o artista interpretado por Greg Kinnear, passa pelos maiores momentos de conflito da trama, e o ator transporta isso ao público muito bem, transmitindo pelo olhar os distúrbios emocionais que o seu personagem está sofrendo. Helen Hunt, premiada com o Oscar de Melhor Atriz por esse trabalho, comporta em sua atuação todas as inseguranças pedidas pela sua personagem, também caracterizada como uma mulher sexualmente frustrada. Enquanto trabalha o relacionamento com seu filho e sua mãe, Helen tem um desempenho honesto e singelo. Já com Melvin, temos uma relação desconfortável, mas que é precisa em transmitir a complexidade de uma interação tão a beira da toxicidade quanto da paixão. Aos poucos, somos levados a acreditar nos dois; ponto positivo para a condução da direção. Dessa maneira, o filme se sucede em uma de suas propostas mais básicas: uma história de amor improvável, mas não impossível.

Por último, eis que há de se analisar a figura de Jack Nicholson, cuja atuação passa uma ambiguidade perfeita, mostrando dois lados de uma personalidade perturbada pelo transtorno obsessivo compulsivo. Embora tenha feito papéis poderosos, como o de Um Estranho no Ninho, Nicholson arranca uma merecida indicação ao Oscar, além de uma consequente vitória. Na primeira cena da obra, Melvin Udall joga um cachorro pela lixeira. Há algo mais cruel que isso? Contudo, mesmo assim, Nicholson faz o público se importar pelo seu personagem, auxiliado tanto por um roteiro certeiro quanto por um diretor competente, interessados em mostrar ambos os extremos, e não focar em apenas um deles, criando, dessa forma, um contraste moldador de uma personalidade aparente no meio de qualquer polarização, muito mais humana. Todos os maneirismos e confrontos internos são demonstrados por um ator que encarna um sujeito com TOC, e não um ator que assim o interpreta. De qualquer forma, Melhor É Impossível não é perfeito, porém trata-se de uma belíssima construção sobre arquétipos da vida. O velho rabugento, a mãe solteira e o artista homossexual. Todas as criações se tornam retratos mais humanos graças a ótima condução do diretor James L. Brooks, e especialmente, da performance de seus atores. É um filme bonito, com um tom bem dosado, que torna um roteiro “formulaico” em uma deliciosa e realista composição sobre pessoas transtornadas, seja por problemas financeiros, quanto por problemas amorosos ou por problemas familiares – ou então, como se iniciou o texto, por problemas resultantes de suas condições médicas, talvez incuráveis, mas incapazes de impedir a evolução de uma vida medíocre para uma vida feliz.

Melhor É Impossível (As Good as It Gets) — EUA, 1997
Direção:
 James L. Brooks
Roteiro: Mark Andrus, James L. Brooks
Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet Ulrich, Shirley Knight
Duração: 139 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.