Crítica | Melinda e Melinda

estrelas 3,5

A vida pode ser uma comédia ou uma tragédia. Depende da forma como a encaramos. Em Melinda e Melinda, produção que encabeça o ciclo de filmes leves e despretensiosos do cineasta, este questionamento surge diante de duas narrativas cuidadosamente emparelhadas, tendo como foco a personagem Melinda (Radha Mitchell, ótima) em situações dramáticas e cômicas.

Como bem apontou Aristóteles na Poética, a tragédia achava meios de produzir medo e piedade. O herói deste gênero sabia exatamente que o seu destino já estava traçado e cabia-lhe apenas aceitar e apiedar-se de si mesmo. Considerado por muitos autores clássicos como o gênero maior, a tragédia atravessou milênios e alcançou as narrativas oriundas do projeto de modernidade do século XX, ou seja, o cinema e a televisão.

No que diz respeito à comédia, o gênero sempre foi considerado menor, pois provocava o riso e trabalhava com elementos menos nobres para os apreciadores da cultura. Essa situação se inverteu ao longo do desenvolvimento das narrativas, mas a tragédia e o drama ainda são os enfoques no que tange aos aspectos nobres da representação no teatro, no cinema, na literatura e nas demais “plataformas” artísticas.

Ciente disso, haja vista o seu passeio múltiplo por estes espaços, Woody Allen trouxe o seguinte enredo para o roteiro do divertido Melinda e Melinda: durante um jantar entre nova-iorquinos, eles debatem sobre o fato de a natureza humana ser trágica ou cômica. O debate não é original, mas isso não demonstra importância, principalmente pelo fato de Allen sustentar bem os diálogos sobre o assunto, fugindo da banalidade.

Na conversa, há dois escritores que debatem sobre os elementos da tragédia e da comédia, utilizando-se de uma narrativa para desenvolver os seus conceitos: enquanto um deslancha uma trama extremamente dramática, o outro utiliza o mesmo mote para contar a sua versão cômica da mesma história. O fio que liga as histórias é a personagem central, Melinda, ora representada tragicamente, ora adornada pelas características da comédia.

A primeira história se inicia diante de um jantar promovido por Lee (Jonny Lee Miller), um ator em busca de um papel interessante para alavancar a sua carreira. O evento social realizado em seu apartamento tem como convidado central um respeitado diretor de teatro. As coisas perdem o rumo quando Melinda, amiga desde a adolescência da sua esposa Laurel (Chloe Sevigny) chega ofegante, descabelada, perdida e carregada de problemas. Sem filhos, separada e amarga, a personagem desestrutura a vida de todos ao redor.

No segundo lance, Melinda, interpretada pela mesma atriz, em dois ótimos desempenhos, surge atrapalhada, mas encantadora. Ela bate à porta de Hobie (Will Ferrell) no momento em que a sua esposa, a cineasta Susan (Amanda Peet) oferece um jantar a um possível investidor do seu futuro filme. Melinda se muda para o andar de baixo, não chega a ser invasiva como a sua versão dramática, mas começa a mudar gradativamente a vida das pessoas ao seu redor.

No desenvolvimento de personagens, o roteiro consegue ser melhor que os últimos trabalhos do cineasta-roteirista. A Melinda trágica é tão neurótica e pessimista que nos faz expelir toda a carga de piedade presente em nosso organismo. A Melinda cômica leva as suas situações na base do deboche. Ao passo que a narrativa avança, ambos os gêneros vão se afunilando, deixando o espectador diante de um fio bem tênue, mas que depois se revela pendendo mais para o trágico, deixando a comédia suavemente em segundo plano. Chega um momento que as coisas se estreitam tanto que não sabemos se rimos da tragédia de uns ou choramos pela comicidade dos outros.

Além da direção sempre cuidadosa de Woody Allen, o design de produção investiu em cores e numa fotografia bem viva na parte cômica, enquanto no lado cômico há o uso constante de closes e outros enquadramentos mais fechados, fotografia opaca e cores que refletem o sentimento “inanimado” dos ânimos dos personagens. A música possui função catalisadora dos elementos cômicos, diferente da parte dramática, quase sem acompanhamento musical. Bem emparelhadas, as narrativas oriundas de um roteiro escrito em 30 dias apresentam temas comuns do mundo do cineasta, tais como as desilusões amorosas, o adultério e uma leve pitada de acaso.

Ao longo dos seus 100 minutos, Melinda e Melinda se mostra um filme divertido, inteligente e leve. Essas condições não fazem do filme uma miséria cinematográfica, ao contrário, reforça a ideia de que há possibilidade de ser “sublime dentro do banal”. Mais adiante Woody Allen iniciaria o seu projeto de deslocamento geográfico para a Europa, tendo filmes como Match Point – Ponto Final e O Sonho de Cassandra como obras-primas trágicas que foram relativos sucessos de público e estrondos no que tange à crítica de cinema.

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda) – EUA, 2004
Direção:  Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Radha Mitchell, Michael J. Farina, Jonny Lee Miller, Will Ferrell, Zak Orth, Larry Pine, Wallace Shawn, Amanda Peet
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.