Crítica | “Melodrama” – Lorde

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estrelas 4,5

A cantora neozelandesa Ella Marija Lani Yelich-O’Connor, que conhecemos pelo nome de Lorde, surgiu na cena musical de seu país aos 16 anos de idade, em março 2013, com o EP The Love Club. Seis meses depois, e ainda antes de completar 17 anos, ela lançou Pure Heroine, estreia na indústria fonográfica que foi bem recebida pelo público e pela crítica, entrando para muitas listas de melhores discos daquele ano. Desde então, as únicas coisas que tivemos de Lorde foram um anúncio, em 2014, de que seu próximo disco estava em “fase inicial de preparação” e que seria “completamente diferente de PH”; e a canção Yellow Flicker Beat, composta para o filme Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (2014).

Apenas em 2016, com o início das gravações de Melodrama (no mês de abril) que as informações sobre o retorno da cantora surgiram na imprensa, primeiro, com entrevistas falando da temática do álbum anterior — basicamente, as inquietações, dúvidas e percepções de vida de uma adolescente que parecia se preocupar com “a vida o Universo e tudo o mais” de maneira mais intensa do que a média das pessoas de sua idade — e a mudança de pensamento com a chegada à vida adulta. Depois, vieram informações mais precisas sobre o time de produção e, em março de 2017, o título do novo álbum, junto com o single Green Light, um electropop/dance-pop sobre o fim de um relacionamento e o que acontece na vida de uma pessoa logo após o coração ser partido. A faixa é poética e musicalmente construída para mostrar a evolução do eu-lírico, partindo de sussurros e quase confissões e chegando ao refrão com um tipo bem pensado de explosão, como se Lorde começasse a se reconstruir. A abertura do álbum não poderia ser melhor escolhida.

Melodrama contou com 10 produtores, dentre eles a própria Lorde, que assina todas as onze faixas (na produção e composição), ao lado de Jack Antonoff, que coescreveu e coproduziu dez das onze músicas. Nas letras, apenas dois convidados se misturam ao “Lordentonoff Universe”: Joel Little, em Green Light e Tove Lo, Jerlström e Söderberg em Homemade Dynamite, a primeira música do disco a ser apresentada pela cantora ao público, no Coachella 2017, uma faixa com as melhores características do produtor Kuk Harrell, com uma charmosa mistura de R&B e dance em uma poesia que traduz algo que a maioria das pessoas já vivenciaram: a energia e vontade de sair para dançar, beber, conhecer alguém legal e ter uma explosiva noite ( ͡° ͜ʖ ͡°). E o melhor de tudo é que a mesma expressão pode ser atribuída ao fazer artístico da cantora, o que torna esta uma das letras mais simples e inteligentes do disco.

Para os fãs da cantora, foi gratificante constatar que ela não perdeu o senso de urgência e a paixão com que expressa diversos níveis do sentimento chamado SOLIDÃO. E sim, este é o tema do álbum, não unicamente o término de um namoro, como muita gente anda erroneamente dizendo. Vejam belezas musicais como Sober e Sober II (Melodrama) para terem uma noção disso. Notem como a artista consegue mostrar variações de um mesmo tema em uma sequência acessível, pessoal e com um bem vindo-frescor de arranjos vocais e musicais. Ela se aproxima da cena pop mainstream contemporânea, abrindo espaço para os momentos “chiclete”, com refrões bombásticos e batidas feitas sob medida para dançar, só que ao mesmo tempo, tem a elegância de apresentar isso em letras de alto quilate poético, que vão além da demonstração estéril de momentos da vida ou de uma mímica à la Síndrome de Peter Pan sobre o mundo, as pessoas e as mudanças pelas quais todos passam.

Conforme o disco avança e a exposição dos novos amores versus o passado ganham peso, percebemos que o eu-lírico de Lorde esbanja oportunidades nesta nova fase, embora jamais se esqueça do último momento de tristeza. Aqui, essa persona utiliza da experiência conseguida para ser alguém diferente. E o melhor de tudo: suas letras não a colocam como alguém egoísta do tipo “totalmente melhor agora”; uma pose tão falsa quanto à do personagem sem-nome de Sem Ana, Blues. Ela provoca, alfineta, grita com o passado e assume para si mesma que não se esqueceu, mas que não deixou de viver por isso. O resultado dessa visão é a cobrança da memória em The Louvre, com sua linha de baixo muito similar a Still Sane, de PH, mas que liricamente lhe é oposta, pois aceita de bom grado o sacrifício e a obsessão de um relacionamento feliz, aqui comparado a uma obra de arte exposta no famoso museu francês.

Lançada como single, a balada ao piano de métrica que alterna versos mais rápidos (virtualmente longos) e um refrão quase próximo a uma canção de ninar, Liability é um momento diferente para a artista. Um desafio aceito e muito bem executado. No início, ela faz referência ao fato de estar em um Táxi e ouvir Higher, de Rihanna, e então começar a chorar, dando vazão a uma série de pensamentos sobre o período do Ensino Médio, sugerindo que a fama mundial aos 16 anos talvez tenha prejudicado suas relações pessoais nesse período, com reflexo em outras áreas de sua vida, imediata e posterior. Essa divisão entre as várias faces do indivíduo ao longo do tempo também é vista na faixa mais longa do disco, Hard Feelings/Loveless, que na verdade são duas em uma, tratando da semente do mal deixada pelo fim de um relacionamento. A primeira parte da faixa mantém o alto nível do disco, mas após os interlúdios no final do segundo e terceiro minutos, segue-se a estranha Loveless, que é possível ser compreendida dentro do contexto de “semente do mal”, mas não se encaixa exatamente na estrutura do álbum, sendo praticamente o único ponto fraco de Melodrama.

Em uma produção com faixas ligadas de maneira orgânica e com um óbvio passo à frente em relação ao seu trabalho anterior, que tinha sonoridade mais minimalista, baterias em loop, sintetizadores por todo lado e maior volatilidade, este trabalho apresenta Lorde com um som mais encorpado e igualmente marcada paixão diante da temática central, o que nos leva para a sua poderosa performance em Writer in the Dark, outra balada, só que de mensagem mais aberta, entre o sombrio abandono, alguns riscos tomados na vida e alguns estranhos encontros. Não apenas a forma como ela entrega a canção, mas o arranjo e as tonalidades entre o final dos versos e o proto-refrão são  primorosos.

Aí nos preparamos para o último contraste que a cantora traz no encerramento do disco, primeiro, com Supercut (faixa de ótima bateria e uso de sintetizadores), que fala sobre a parte idealizada e sempre positiva de um momento do relacionamento ou da vida; e, finalmente Perfect Places, o ideal finale de Melodrama, que acerta no crescendo instrumental e na força temática, com festas, drogas, música, sexo e a percepção de que a euforia de todos esses momentos são apenas uma parte da vida, e que mesmo estas, sendo as boas partes, terão as suas próprias imperfeições. No final, o que importa, é como ou com quem estará o eu-lírico. Sozinho, experiente e bem com sua solidão; acompanhado, fingindo e projetando uma fuga; ou angustiado por não ter um outro “perfeito lugar” para estar? O ciclo se fecha e novamente se abre com as facetas da solidão. Eis aí um melodrama digno de sua definição clássica.

Aumenta!: Green Light
Diminui!: Loveless
Minha canção favorita do álbum: Writer in the Dark

Melodrama
Artista: Lorde
País: Nova Zelândia
Lançamento: 16 de junho de 2017
Gravadora: Lava, Republic
Estilo: Pop

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.