Crítica | Memórias de Salinger

estrelas 2

Ao assistir pela primeira vez o trailer de Memórias de Salinger já ficou claro o sensacionalismo que poderia estar presente na obra. Comentários fortes, acompanhados de uma música dramática e uma montagem de filme de suspense fizeram o filme parecer como a revelação do século. Quando, enfim, assisti o documentário logo percebi que o tom estabelecido no trailer se manteve, algo como uma propaganda subversiva.

O longa nos conta, através de relatos de conhecidos, jornalistas, fãs e biógrafos, a história de Jerome David Salinger, mais conhecido pelo seu best-seller O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye). Desde o início da projeção fica claro o mistério da vida do recluso autor, mistério o qual o filme procura, sem êxito, resolver. Acompanhamos Salinger, por imagens de arquivo, desde seus primeiros escritos, antes de serem publicados, até os últimos relatos de sua vida. Nesse sentido o filme funciona como uma biografia e, com o passar dos anos do autor, menos informações nos são disponíveis.

Se o filme tem um defeito é a visão unilateral do autor, que é visto como uma espécie de herói, mesmo quando, em seus trinta anos, sai com garotas de catorze. Em nenhum ponto vemos relatos verdadeiramente negativos de Salinger e, mesmo quando o são, estão disfarçados por um discurso de admiração. No fim, esses testemunhos acabam sendo, muitas vezes, desnecessários, tornando a fita muito longa. Os fatos mais notáveis da vida de J.D. ocorrem, em geral, na primeira metade da projeção.

O clímax ocorre quando chegamos ao assassinato de John Lennon, cujo assassino utiliza O Apanhador no Campo de Centeio como desculpa para sua ação. A sensação que fica, contudo, é que esse fato foi mal utilizado e só ganha foco em poucos minutos do filme, estando perdido em meio a relatos de namoradas do autor. Há um claro mal aproveitamento da vida de Salinger que acaba tirando a relevância da obra.

Memórias de Salinger é, do início ao fim, um filme sensacionalista feito para fãs devotos do autor. Ele exibe uma parcela da vida do escritor, sem trazer grandes revelações e acaba dando poucos motivos para se continuar assistindo, mesmo tendo lido O Apanhador no Campo de Centeio. Embora tenha o tom de uma biografia não consegue se estabelecer como uma, soando como uma grande propaganda desnecessária de um autor já renomado que não precisa e nunca quis mais atenção .

Memórias de Salinger (Salinger, EUA – 2013)
Direção: Shane Salerno
Roteiro: Shane Salerno
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Edward Norton, Martin Sheen, Tom Wolfe, Gore Vidal, Stephen Adly Guirgis, Joyce Maynard, Elizabeth Frank.
Duração: 123 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.