Crítica | Memórias Póstumas de Brás Cubas em Quadrinhos

estrelas 4

Fui um mau aluno, confesso. Não li Memórias Póstumas de Brás Cubas na minha época vestibulanda, mas também devo dizer que considero tal ausência mais um bom do que um mau exemplo. Não peguei trauma do autor e pude apreciá-lo com a devida calma graças à preguiça. E haja genialidade neste autor específico: Machado de Assis, na presente obra, vai do humor mais ácido e cômico às alfinetadas mais mórbidas e pessimistas, como um dançarino em total controle de seus movimentos. Muito já foi dito sobre o tamanho de Machado para a literatura brasileira, mas o que quero frisar é que qualquer adaptação da obra original – muito mais agradável de ser apreciada do que um Eça de Queiroz, caso haja a comparação com “livros de prova” – pecará em perder as nuances do estilo do escritor.

Posto que entre qualquer adaptação e o livro é recomendável ir ao segundo, felizmente, é preciso dizer, a adaptação em quadrinhos de Brás, com roteiro de Luiz Antonio Aguiar e Cesar Lobo – também responsável pela detalhada e belíssima arte – é um tremendo trabalho no que se propõe a fazer. Os autores, de longa carreira nacional e internacional nesta área, dão ao público um presente refinado. Aos fãs e conhecedores do livro de Machado, mais uma peça válida para a coleção e um deleite a ser apreciado em cada página. Aos desavisados, não só uma ótima introdução à sagacidade machadiana como também uma HQ divertida, sólida e criativa em seus aspectos técnicos.

Em primeiro lugar, Memórias Póstumas de Brás Cubas está longe de ser uma obra fácil de ser adaptada. Enquanto sua narrativa original pouco preza pela linearidade, seu “defunto autor”, ainda por cima, ri da cara do leitor a cada cinco páginas, permeadas de ironias e sutilezas. Rupturas – que seriam abruptas, não fosse a condução quase sensual de Machado – na linha temporal não param de ocorrer e as lembranças, sempre contadas sobre um determinado ponto de vista, dão ao romance uma cara ensaística e moralista que ditam o tom, ora de ceticismo velado, ora de pontual e contida zombaria, desta obra que é um marco no realismo brasileiro.

Automaticamente, ao se colocar a linguagem do século XIX em balões, ou traçar personagens da burguesia carioca da época em linhas mais caricaturais, obtém-se um efeito de leveza que acaba por tornar a obra mais acessível em um primeiro momento. Equilibrando tal risco com o conteúdo pessimista das fictícias memórias, os autores criam soluções visuais das mais imaginativas para traduzir, em menos de cem páginas, todo o estilo e toda a história do finado Brás Cubas, sem desrespeitar, em geral, a ordem de eventos e a escrita de Machado. A dificuldade, em comparação página por página com o livro em si, beira o inacreditável, ainda mais tendo em vista que a HQ flui tão bem quanto a obra em que se baseia. Muitos pontos, nesse sentido, mereceriam destaques, mas vejamos alguns deles.

Nem Machado nem Portinari, mas de qualidade

Nem Machado nem Portinari, mas de qualidade

A criação da imagem do demônio que conta moedas, símbolo dos instantes desperdiçados na vida do protagonista, agrega aqui o tom geral da HQ,: Não é terror, não é comédia, é o casamento da galhofa com a melancolia vertido em HQ, dizem os autores nos extras da edição. É digno de nota a utilização de certas páginas escuras em que o Brás defunto conta diretamente ao leitor suas impressões. Aliás, cada fala do defunto aparece em um balão negro enquanto sua figura, geralmente com uma postura eloquente, discursiva, aparece cercada de caveiras. O andamento das memórias, com tais intercalações, ganha um ar mais sombrio e provocativo, retirando a sutileza das linhas do livro ao mesmo tempo em que gera um ar mais denso – o que destaco como algo que pode ser positivo ou negativo.

Focando, sobretudo, nas expressões das personagens, posto que a estória em si é banal, os autores conseguem uma suavidade no desenrolar de cada acontecimento que chega a ser admirável. Cada momento da vida de Brás é bem delimitado pelas vestes e pelos brilhantes quadros que não passam de quatro por página, quando não criam painéis fantásticos como a história do mundo aflorando das pernas abertas de Pandora. Do cuidado histórico em relação aos trejeitos imperiais da época às diferentes emoções que Brás Cubas expõe durante sua vida inteira – pontuados pelas pontadas irônicas do próprio Brás defunto – há aqui diversos momentos inesquecíveis, mesmo para quem já tenha lido o livro. Tem-se Eugênia coxa, Quincas Borba e seu humanitismo desvairado, Vírgilia e sua beleza incomparável…o risco de se criar algo exagerado, copiado ou aquém das descrições de Machado se esvai logo nas quinze primeiras páginas, representantes da loucura do texto em si e da convicção com que a HQ foi realizada. O leitor pode ficar despreocupado e apenas apreciar

Machado de Assis é inesgotável. Se em contos como Teoria do Medalhão e Último Capítulo ainda é possível descobrir e redescobrir distintas intenções disfarçadas nas ironias do autor, que dizer de um romance inteiro? Para além da obra original – e a visão filosófica do autor sobre a vida social e a morte, que por si só dariam teses e mais teses – a adaptação aqui visitada pode ser lida em uma sentada, mas as soluções criativas devem ser saboreadas tal como o texto de 1881. Da nova ordem de algumas citações ao próprio transporte das divagações machadianas para a ilustração, o que é feito aqui é um exemplo bem realizado do jogo literatura/quadrinho. Se o texto complica por sua forma, ajuda, certamente, na qualidade geral das divagações que retira do fundo do coração do leitor, e um quadrinho que ousa tocar na genialidade de Machado – acertando na maioria de suas escolhas – merece, no mínimo, algumas revisitações.

Memórias Póstumas de Brás Cubas – 2014
Roteiro: César Lobo e Luiz Antonio Aguiar
Arte: César Lobo
96 páginas

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.