Crítica | Memórias Póstumas

estrelas 3

Adaptar Machado de Assis para a linguagem cinematográfica não é uma tarefa fácil, principalmente se tratando de Memórias Póstumas, um romance denso, produzido por um autor preocupado em inserir uma linha de problematizações em nossa literatura, tendo a visão crítica e reflexiva como carro-chefe das produções.

Foi com coragem e determinação que José Roberto Torero e André Klotzel juntaram as suas mentes criativas para desenvolver um roteiro interessante para o ponto de partida cheio de desafios. Além do tom cáustico, o livro intercala muitos gêneros: carta, epístola, novelas, tipos embutidos que tornam a escrita do roteiro algo bastante desafiador.

No filme, após a sua morte em 1869, Brás Cubas (Reginaldo Faria, ótimo) decide narrar as suas aventuras através de um divertido e audacioso mergulho memorialístico. Revisita os principais fatos que ajudaram a compor a sua vida, entre eles, a sua relação com Quincas Borba (Marcos Caruso), a sua formação acadêmica irregular (na juventude, sendo interpretado pelo competente Petrônio Gontijo), além do privilégio de nunca ter precisado trabalhar em toda a sua vida.

Os amores não ficam de fora da história. Há um espaço generoso para as mulheres da sua vida: a cortesã Marcela (Sonia Braga) e Virgília (Viétia Rocha). A interpretação de Sônia Braga não é das melhores, tamanha a caricatura em torno do personagem, assim como o desempenho de Viétia Rocha: apesar de entregar uma interpretação certinha para o seu personagem, falta um tempero a mais. Assim, a presença feminina no filme é eclipsada pelos ótimos trabalhos de Reginaldo Faria e Petrônio Gontijo, ambos brilhantes nas performances do mesmo personagem: o astuto Brás Cubas.

Um destaque metalinguístico importante para o roteiro está na relação com o seu pai se estabelece numa aproximação com os aspectos críticos do conto Teoria do Medalhão, publicado por Machado de Assis em 1881. No texto, o autor utiliza-se da sua figura de linguagem predileta, a ironia, para nos apresentar uma história onde o “parecer” importa mais que o “ser”, criticando as aparências de uma sociedade hipócrita e inescrupulosa quando o foco é a ascensão social. Há, portanto, um deslocamento importante: no conto, o filho quer seguir os passos do pai, pois a sua postura passiva permite que o mesmo siga os caminhos socialmente construídos pelo patriarca da família.

Brás Cubas, entretanto, é mais desafiador. Segue os seus instintos e consegue dar outro rumo para a sua vida. Durante a navegação neste mar de intertextualidades, é possível relacionar o conteúdo de Memórias Póstumas com os contos O Espelho e O Segredo do Bonzo, também de Machado de Assis, ambos sobre a aniquilação do individuo em prol do status social.

O resultado, entretanto, foi primoroso. Memórias Póstumas consegue captar o audacioso jogo metalinguístico de Machado de Assis, bem como as suas ironias, graças ao roteiro, aliado à direção segura e a montagem eficiente.  Na seara estrutural não há como negar o excelente trabalho de fotografia de Pedro Farkas, a direção de arte de Adrian Cooper e a trilha sonora “funcional” de Mário Manga.

Com 101 minutos de duração, Memórias Póstumas cumpre o seu papel como boa adaptação. É um filme que consegue radiografar de forma divertida a sociedade brasileira urbana nos idos do final do século XIX. Com um enredo envolvente e personagens carismáticos, a produção deve ser consumida além das leituras para vestibular ou substituição da obra literária para trabalhos escolares: repleto de questões filosóficas importantes, o filme deve ser visto por todos que amam diálogos afiados e sequências adornadas por ironia, figura de linguagem em decadência no discurso cultural contemporâneo.

Memórias Póstumas – Brasil, 2001.
Direção: André Klotzel.
Roteiro: José Roberto Torero e André Klotzel.
Elenco: Reginaldo Faria, Petrônio Gontijo,  Viétia Rocha, Sônia Braga, Sterpan Necerssian,  Nilda Spencer, Milena Toscano, Débora Duboc.
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.