Crítica | Memórias Secretas (2015)

estrelas 4

Leves Spoilers!

Existe um pequeno problema de lógica histórica na premissa de Memórias Secretas (2015) que o leitor precisa aceitar como parte do drama para que o desenvolvimento da película alcance o seu objetivo.

Sabe-se que ao terminar a Segunda Guerra Mundial, muitos nazistas fugiram da Alemanha em direção à América do Sul, onde se esconderam sob novas identidades (assista a O Médico Alemão, 2013) e acabaram caçados por organizações judaicas que ainda hoje seguem buscando envolvidos no conflito, embora o tempo tenha tornado isso cada vez mais difícil.

O que o filme de Atom Egoyan nos coloca em Memórias Secretas é uma situação bem diferente da que encontramos na História. Não há precedente conhecido de nazistas que tentaram se esconder nos Estados Unidos sob identidade de sobreviventes do holocausto, visto que as duas escolhas não seriam nada inteligentes. Os EUA receberam uma grande quantidade de imigrantes e refugiados judeus desde o início do século XX, o que faz esta comunidade ser bastante extensa no país. Na década de 1950, com a Mossad trabalhando com inúmeros contatos na América e centros dedicados à causa judaica aparecendo aos montes ao longo dos anos, seria praticamente impossível um sobrevivente não ser abordado pela causa, entrar em contato com outros sobreviventes ou com a própria comunidade judaica, o que faria com que o indivíduo em questão, se não fosse verdadeiramente judeu, acabasse reconhecido e preso.

Mas se deixarmos de lado este problema inicial — que é perfeitamente compreensível dentro da ficção — fica fácil apreciar a proposta do diretor na construção de uma história de vingança mesclada com memória histórica e memória pessoal, um drama muito bem amarrado pelo roteiro de Benjamin August (em seu primeiro trabalho como escritor) e muitíssimo bem protagonizado por dois octogenários, Martin Landau (88 anos) e Christopher Plummer (87 anos).

Partindo do tormento de Zev Guttman (Plummer), que tem demência e recentemente perdeu a esposa, vemos o mistério de uma fuga arquitetada por Max Rosenbaum (Landau) ganhar corpo em forma de road movie. Zev precisa fazer uma viagem para encontrar alguém que o espectador não sabe quem, mas aos poucos o caráter da missão se revela, assim como o conteúdo da carta que o personagem carrega consigo para se lembrar do que deve fazer. A viagem ganha tons de revelação a cada parada, e Egoyan não dá tanta atenção à estrada ou ao aprendizado no trajeto percorrido. Há apenas uma parada, onde Zev encontra um alemão condenado ao campo de concentração por ser homossexual, que vemos uma ponta de novidade emotiva para o personagem, não necessariamente um aprendizado, mas uma tomada de consciência, um momento de contrição que não volta a acontecer em todo o restante do filme.

Enquanto a viagem transcorre e a missão ganha corpo e periculosidade, temos a família de Zev tentando encontrá-lo, formando um dos pontos levemente falhos do roteiro, assim como as ligações telefônicas entre Zev e Max, que depois das primeiras vezes se torna cansativa, não por conta dos atores, mas pela dinâmica batida. Mesmo assim o espectador se atém ao contato porque se engaja na busca de Zev e espera para ver como o caso deve terminar, se com um encontro moral, com algo relacionado ao arrependimento ou com a execução de um velho (ex?) nazista.

A cada espaço visitado temos diferentes tratamentos de ritmo através da montagem e leves mudanças na fotografia de Paul Sarossy, mesmo que esta seja predominantemente suave, talvez para não carregar a percepção do espectador através da imagem, que transmite uma falsa ideia de conforto (destaque máximo para a sequência final, na casa do “verdadeiro Rudy Kurlander”) apesar do tema bastante sombrio do enredo. Em adição, cumprindo um papel quase exclusivamente de memória, a trilha sonora aparece conciliadora, uma ponte entre pessoas e situações do presente e do passado. É importante lembrar que todas as cenas de Christopher Plummer ao piano de fato é ele tocando e que todo o trabalho e edição de som foi realizado in loco, o que torna a parte técnica do filme ainda mais atraente, exigente e bela.

Plummer merece destaque pela marcante interpretação de uma jornada em busca da própria memória. O ator encara situações bastante intensas — ele se recusou a utilizar dublê — e seu personagem tem um encontro consigo mesmo que é chocante tanto para o espectador quanto para ele próprio. É uma pena que a partir da revelação e tragédia final o filme perca um pouco de sua força e cambaleie em seu desfecho, mas mesmo assim, termina firmando uma excelente reflexão sobre a punição por atos do passado e sobre o fato de contar mentiras repetidas para si mesmo, vestir uma personalidade que não lhe pertence e tornar-se uma outra pessoa. O que faz de um homem alguém bom ou mau? Mesmo com a facilidade de contextualização deste problema a partir do filme, a resposta segue muito difícil de ser dada, afinal, o crime em questão ultrapassa os limites banais da maldade cotidiana. Eles fazem parte de uma semente de ideologia e morte plantada na História e que não dá perspectiva alguma de que um dia irá morrer.

Memórias Secretas (Remember) — Canadá, Alemanha, 2015
Direção: Atom Egoyan
Roteiro: Benjamin August
Elenco: Christopher Plummer, Dean Norris, Martin Landau, Jürgen Prochnow, Bruno Ganz, Henry Czerny, Natalie Krill, T.J. McGibbon, James Cade, Peter DaCunha
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.