Crítica | Menashe

O Cinema, dentre seus inúmeros usos, pode servir como portal para que vislumbremos culturas totalmente diferentes da nossa, possibilitando um olhar, ainda que pontual, sobre diversos povos de costumes diferenciados. Ainda que costumemos ver esse tipo de abordagem em documentários, a ficção também é capaz de nos levar em tais jornadas. O diretor Joshua Z Weinstein, em seu primeiro longa-metragem de ficção, mistura essas duas linguagens, nos trazendo um recorte da vida de um judeu ortodoxo, que vive em comunidade judaica no Brooklyn.

Talvez o aspecto mais surpreendente da obra é o quão distante é essa realidade mostrada da nossa, aspecto apenas amplificado pela noção de que o filme se passa em um bairro dos Estados Unidos. Com elenco formado por não-atores locais, a obra nos traz a história de Menashe (Menashe Lustig), cuja esposa faleceu há mais ou menos um ano. A tradição local impede que ele viva com seu filho, por não ser mais casado, e o menino tem de viver com os tios, até que seu pai encontre uma esposa. O protagonista, porém, não se sente preparado para entrar em outro casamento, enquanto que, acima de tudo, deseja ter seu filho por perto novamente.

Em essência, Menashe é um longa-metragem sobre o luto e a paternidade. Embora o personagem central tenha casado por pressão dos pais é bastante claro o impacto da morte da esposa em sua vida – pode ser que ele não a amasse, mas certamente sua partida deixou um buraco, que, até então, não foi preenchido. Isso pode ser enxergado pela própria maneira como o protagonista se veste ou age. Enquanto todos os outros homens usam chapéus e os típicos casacos pretos, ele dispensa esses dois elementos, constantemente sendo enxergado como desleixado, aspecto que ganha mais força em razão de seus constantes atrasos no trabalho e rituais de sua religião.

Tudo isso é mostrado da forma mais realista possível por Joshua Z Weinstein, que traz um ar documental para sua obra, fruto, sem dúvidas, de sua filmografia até esse ponto. Sua decupagem nos coloca como o espectador externo por excelência, , ao passo que testemunhamos esses dias da vida do personagem e sentimos plenamente como se, de fato, ele existisse antes e depois dessa história que nos é contada. Yoni Brook e o próprio Weinstein, na fotografia, priorizam luzes mais naturais, sempre almejando não quebrar o naturalismo da imagem – em razão disso, não demora muito para que entendamos e mergulhemos nessa cultura tão diferente da nossa, ainda que a interferência dos líderes religiosos na vida pessoal e profissional dos personagens nos incomode constantemente.

Por outro lado, justamente esse apreço pelo real provoca uma nítida lentidão no ritmo da narrativa, fazendo o filme soar muito mais longo do que ele efetivamente é. E aqui testemunhamos um fenômeno bastante raro: essa dilatação, sim, nos cansa, mas não a ponto de nos deixar menos fascinados por essa história, fruto, é claro, da força dessa narrativa, que nos envolve a tal ponto que torcemos, a cada segundo, pelo protagonista, ficando cada vez mais angustiados a cada dia que ele passa longe de seu filho. É importante, também, ressaltar como a relação entre os dois soa tão verídica que jamais conseguimos distanciar os atores dos personagens, nos identificando com seus problemas, enquanto a química entre os dois aparece com todas as forças.

Dessa forma, mesmo com seu ritmo um tanto arrastado, Menashe consegue nos envolver plenamente, nos mergulhando nessa cultura tão distante da nossa em um retrato extremamente real. Misturando as linguagens de ficção e o documentário, Joshua Z Weinstein acerta em cheio nesse seu primeiro longa-metragem de ficção, que traz um recorte imersivo na vida de um judeu ortodoxo, que deve lidar com o luto e a paternidade.

Menashe — EUA, 2017
Direção:
 Joshua Z Weinstein
Roteiro: Alex Lipschultz, Musa Syeed, Joshua Z Weinstein
Elenco: Menashe Lustig, Yoel Falkowitz, Ruben Niborski, Meyer Schwartz, Yoel Weisshaus
Duração: 82 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.