Crítica | Meninas Malvadas

Meninas Malvadas

estrelas 4,5

Não é mais um besteirol americano. Ou o correto agora é “não é mais um besteirol estadunidense”? Independente da classificação, uma coisa é certa: em Meninas Malvadas, não estamos diante de mais uma comédia boba sobre paixonites agudas e crises adolescentes fúteis oriundas de pessoas alienadas. Não é que a fase das paixões e intrigas escolares seja dispensável, mas já temos narrativas demais sobre o assunto, concorda?

Baseado nesta premissa, afirmo com toda veemência. Meninas Malvadas vai muito além da capa do seu DVD, colorida e exageradamente pop. Com muita ironia e bom humor, o filme flerta com questões polêmicas da fase estudantil sem o peso de tramas como a recente série 13 Reasons Why, polêmica e divisora de águas no que tange aos aspectos da abordagem do espaço escolar e as problematizações dos encontros de personalidades juvenis tão díspares e conflitantes.

Mark Waters na direção. Tina Fey no roteiro, tendo como base o livro Queen Bees and Wannabes, de Rosalind Wiseman. No figurino, Mary Jane Fort. Na edição, Wendy Greene Briamont. Pronto: com esta lista temos os elementos básicos que engendram a narrativa. Uma direção eficiente, um roteiro de diálogos e situações afiadas, um figurino bem desenhado e uma edição consciente da necessidade de ritmo.

Uma sucessão de fatores bem conduzidos leva o espectador ao universo escolar em que Cady Heron (Lindsay Lohan) é inserida. Por ter passado muito tempo vivendo com os pais zoólogos na África, sem conviver com o formato padrão estadunidense de ensino, a moça precisa se adequar ao ambiente que em seu ponto de vista, lembra muito uma selva, haja a vista o comportamento de determinados estudantes.

Inicialmente ela se torna amiga de Janis (Lizzy Caplan) e Damian (Daniel Franzese), jovens que não fazem parte do padrão de magreza e dinheiro comum aos populares da escola. Por ter um estilo despojado pouco comum, Cady atrai à atenção das poderosas, grupo que inclui Regina George (Rachel McAdams), Gretchen (Lacey Chabertt) e Karen (Amanda Seyfried). Daí, Janis traça um plano de vingança: fazer Cady se unir ao grupo, tendo em mira recolher o máximo das fraquezas das poderosas, coloca-las umas contra as outras e estabelecer o caos. O problema é que com o envolvimento cada vez mais próximo, será que Cady não vai se tornar mais uma das “poderosas”. Por poderosas, leia-se: magras, endinheiradas, bem vestidas e cotadas em cada canto da escola, inclusive com fila de admiradores. Entre elas há uma série de regras, tais como não sair com o ex-namorado da amiga, fazer elogios para todos no intuito de parecer simpática e caso tenha uma legião de seguidores, criar regras para que todos as acompanhem.

Carregado de influências anteriores e influenciador de gerações posteriores, com o seu jeito adolescente, a trama conquista o espectador ao tratar de temas tão delicados com bastante ironia, figura de linguagem que parece esquecida na contemporaneidade. E é preciso lembrar: não é um porque um filme é adolescente que a trama tenha que necessariamente ser é ruim ou rasa como um pires. Ao longo dos seus noventa e sete minutos, Meninas Malvadas prova exatamente o contrário do que imaginamos ao nos debruçarmos no sofá/cama/poltrona/carteira para assisti-lo: cheio de gags visuais e críticas ao comportamento alienado de uma juventude consumista e sem o devido direcionamento, a comédia ainda flerta com os estereótipos deste universo, desmontando-os com brilhantismo.

Uma série de confusões se estabelece até a descoberta de um caderno com comentários ácidos e críticos comprometedores que vai colocar a escola de cabeça para baixo. Quem será o responsável pelas informações estampadas neste amontoado de intrigas? A partir daí, a narrativa ganha outro rumo, ajustando os seus personagens e adequando-os para as suas devidas evoluções dramatúrgicas.

A clássica divisão está presente: os nerds, os esportistas, as patricinhas, no entanto, como já apontado, a ideia não é acumular estereótipos, ao contrário, o roteiro pretende desmontá-los através de camadas de ironia. A direção de arte de Brandt Gordon e o design de produção de Cary White dão o tom adolescente ideal para estabelecer a conexão: muitas cores, objetos de estilos artísticos diferentes, ambientes inspirados no que tange à decoração de interiores e cuidado milimétrico com a representação do espaço escolar.

Como dito por um crítico na época do lançamento, a trama não tenta dar lição de moral para os jovens, afinal, os adolescentes a detestam. Mas, não significa que no meio de todo humor, haja a reflexão. Cabe ao espectador observa-las, mesmo que números musicais empolgantes como Jingle Bell Rock, um clássico de natal que toma os Estados Unidos em dezembro assim como se convencionou fazer como CD de Simone na mesma época aqui no Brasil, nos desconcentre peremptoriamente.

Meninas Malvadas (Mean Girls) – Estados Unidos/2004
Direção: Mark Waters
Roteiro: Tina Fey
Elenco: Amanda Seyfried, Lacey Chabert, Lindsay Lohan, Lizzy Caplan, Rachel McAdams, Tina Fey, Daniel Franzese, Ana Gasteyer.
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.