Crítica | Metanoia – Mães de Joelhos, Filhos de Pé

estrelas 4

Uma porta com grades normalmente serve para manter o perigo do lado de fora da casa, mas em Metanoia as grades ficam na parte de dentro. É que o risco aqui habita o corpo do personagem central: o vício se apoderou dele. Eduardo, interpretado por Caique Oliveira, mora no Jardim Ângela, na periferia de São Paulo, junto com a mãe. Mas embora seja bem mais fácil imaginar que, por ser mais humilde, a droga cortou caminho é  uma amizade com um rapaz de classe média alta que apresenta a ele o inferno na terra, edificado na forma da Cracolândia. Os prédios abandonados são cheios de pessoas esvaziadas, com a visão embaçada pelo crack.

“A pedra me chama pelo nome”. Esse trecho do diálogo de Metanoia pode muito bem exemplificar o consumo da vida de quem foi tomado pelo crack e só respira para puxar mais fumaça para dentro, prender e soltar de novo, mais uma lombra, mais uma nóia. O filme feito pela companhia gospel de teatro Nissi abre com a imagem sonora de um noticiário no rádio, para contextualizar o espectador e, logo depois, apresenta o significado do nome da fita: Metanoia – mudança de mentalidade. O significado religioso não é replicado a todo tempo. A questão do que a mãe sente ao ver o filho sofrer nessa situação, trancafiado pelas grades que a droga impõe nele, é que marca a história.

Em depoimento, Caio Blat comenta que teve interesse em participar desta produção por se tratar de uma temática tão importante, que precisa ser disseminada e quanto mais informações houver sobre isso e mais diálogos se abrirem, mais futuro essas pessoas terão. Porque o problema é que só o agora importa para o dependente. A humanidade se esvai dele, o odor, a fome, a sujeira, tudo isso passa a não importar porque a pessoa deixa de existir, ela se considera morta. Esse retrato é um dos mais dolorosos do filme e é muito bem interpretado pela atriz Solange Couto e Silvio Guindane em uma história paralela narrada por Eduardo.

Enxergar sem distorções o percurso sombrio no qual a dependência atira o ser humano é impactante. E o roteiro escrito a duas mãos pelo diretor junto com o protagonista entrega diálogos falados carregados de potência. A voz do narrador em primeira pessoa descreve com detalhes muito convincentes o que pulsa dentro da mente do Eduardo e a edição e montagem foram feitas de um jeito a injetar agilidade e certa dose de caos à memória dele. É uma narrativa feroz, intrínseca, seca, texturizada, fétida, gélida, cheia de verdade e solidão e muito amor materno.

As mães de Metanoia representam as preces de muitas outras que pedem e clamam para que a vida volte a correr pelo sangue dos filhos, perdidos para o crack. A hashtag anunciada no final convida o espectador a participar de uma corrente de solidariedade, que propague essa conversa iniciada ali na tela do cinema. Este filme propõe ações.

Metanoia – Mães de Joelhos, Filhos de Pé (Brasil, 2015)
Diretor: Miguel Nagle
Roteiro: Miguel Nagle, Caique Oliveira
Elenco: Caique Oliveira, Caio Blat, Einat Falbel, Lucas Hornos, Thogun Teixeira, Solange Couto e Silvio Guindane
Duração: 113 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.