Crítica | Metroid

Recentemente estava jogando, com alguns amigos e o irmão mais novo de um deles Super Smash Bros do Wii U quando, de repente, todos fomos pegos de surpresa por uma pergunta do infante: “quem é Samus?”. Depois de sairmos do estado de choque e, por dias, ficar lamentando o rumo que nosso mundo está levando, não pude deixar de enxergar o quanto a franquia foi deixada de lado pela Nintendo nos últimos anos, fator que explica (mas não justifica) o desconhecimento do ser sobre a icônica personagem. Desde 2010 a série exclusiva da companhia de videogames ficou parada – sim, estou desconsiderando Federation Force. Podemos, contudo, ir além disso:  não temos um verdadeiro Metroid desde Zero Mission, lá em 2004 – digo isso porque, por mais que Metroid Prime seja excelente (os três), ele distancia-se bastante da jogabilidade clássica da franquia.

Ora, mas o que tem de mais em Samus Aran não ser mais tão conhecida? O intuito dessa crítica é justamente explicitar o porquê desse exclusivo da Nintendo ser um dos games mais importantes de todos os tempos – não somente para a própria companhia, como para toda a indústria de videogames.

Lançado em agosto de 1986, para o Famicon Disk System e, um ano depois, para o Nintendo Entertainment System (vulgo “Nintendinho”), Metroid foi concebido como um jogo de ação, criando mais um dos pilares que sustentaria a desenvolvedora de jogos – sendo os outros dois Mario, é claro, e The Legend of Zelda. Dito isso, a companhia, que antes tinha como principais títulos um game de plataforma e outro de aventura, ganha uma ação de ficção científica, cujo design foi fortemente inspirado em Alien – O Oitavo Passageiro e as ilustrações de H.R. Giger, questão que se estende para a emblemática trilha sonora, capaz de criar momentos verdadeiramente tensos e imersivos ao longo do jogo.

Formulado ao redor da ideia de exploração, que oferece maior liberdade ao jogador, permitindo e exigindo que ele revisite áreas previamente exploradas, a obra criou uma fórmula que se mantém viva até hoje, comumente chamada de “Metroid-like”, sendo, inclusive, uma das principais tags da Steam, visto que inúmeros games indie buscam recapturar a essência desse clássico dos anos 1980, como Hollow Knight. Aliás, é preciso ressaltar como Metroid profundamente influenciou a icônica franquia Castlevania, que assumiu o formato “metroidvania” a partir de Symphony of the Night.

O que chamamos de “metroid-like”, porém, não se resume à exploração de um extenso mapa em 2D, já que outros games adotaram esse formato antes da obra em questão. O que realmente diferencia a saga de Samus é a combinação de três elementos específicos: a já dita exploração, maior liberdade do jogador e obtenção aprimoramentos permanentes obtidos ao longo do jogo, esses, os quais, possibilitam a liberação de novas áreas. Vale lembrar que, esse terceiro ponto foi popularizado na indústria justamente em razão desse jogo e de The Legend of Zelda. 

Tais características são as que diferenciam essa obra de praticamente qualquer outra do NES, tornando possível que aproveitemos essa experiência mesmo nos dias atuais. Evidente que alguns aspectos do jogo soam datados, como a restrição nas direções que Samus pode atirar, ou o súbito aumento de dificuldade em determinado ponto, que passa a exigir muito mais do jogador do que a boa e velha paciência para explorar cada sala. Outra característica que pode afastar os iniciantes é a ausência de um mapa (questão inevitável considerando o console em questão), forçando-nos a memorizar as salas pelas quais já passamos, na necessidade de refazer nossos passos.

Mas esses aspectos, felizmente, são contrabalanceados por outros fatores, como a mecânica dos pulos no game e os sprites bem detalhados (destaque vai para a criatura do título, que chega a ser impressionante, quando consideramos a época de lançamento). Além disso, é importante levar em conta que esse foi um dos primeiros jogos a contar com uma protagonista mulher, ponto que aparece quase como um plot-twist no final do game, visto que somente descobrimos isso se finalizarmos o jogo em menos de cinco horas. Dito isso, Metroid, também, é um dos primeiros jogos a trazer diversos finais possíveis, aspecto que, inclusive, tornou essa uma obra popular para o speedrun.

Desconhecer Samus, portanto, é atestar a própria ignorância sobre grande parte da história dos videogames. Metroid é, sem dúvidas, um dos principais pilares de sustentação da Nintendo, não pelas vendas em si, mas pelo que a franquia representa, tendo influenciado centenas de outros games desde sua estreia no Famicon Disk System/ Nintendinho. Certamente não é um game perfeito quando jogado nos dias atuais, mas não há dúvidas de que é um dos mais importantes já produzidos.

Metroid
Desenvolvedora:
Nintendo
Lançamento: 6 de agosto de 1986
Gênero: Ação, aventura, plataforma
Disponível para: Famicon Disk System, NES, Gameboy Advance, Gamecube, Virtual Console

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.