Crítica | Meu Amigo, o Dragão (1977)

estrelas 2,5

Meu Amigo, o Dragão já foi um dos meus filmes preferidos quando criança, ao ponto que eu o assistia repetidas vezes no mesmo dia, da mesma maneira que fizera com Jurassic Park (O Parque dos Dinossauros, como era conhecido na época), Em Busca do Vale Encantado e Predador (logo se vê que eu não era uma criança normal). Meu gosto pela obra que mistura live-action com animação durou até um fatídico evento que me traumatizara e me afastaria do longa-metragem até, literalmente, hoje, quando o reassisti a fim de escrever esta crítica. Ao mesmo tempo que minha paixão pela obra quando um mero infante é fácil de se entender, não consigo resgatar o gosto pelo filme nos dias atuais.

E não, meu trauma pessoal não influenciou  na visão que tenho sobre o longa hoje, visto que o seu grande problema é, possivelmente, justamente o que me atraíra para ele há tantos anos: sua exagerada quantidade de canções. Sempre fui apreciador de musicais, mas Meu Amigo, o Dragão simplesmente alcança um nível desconfortável, ao ponto que rezamos para que um número musical não interrompa a narrativa repentinamente. Chega ao ponto que praticamente todos os personagens da obra cantam, ao menos, uma música e o pior: muitas delas não alavancam a história para a frente, simplesmente constatam o que já estava constatado, soando como mera repetição narrativa, prolongando a duração do filme para duas horas e oito minutos, algo nada normal para uma obra cujo público alvo são crianças.

Esse gigantesco deslize do longa chega a ser bastante triste, já que sua premissa é muito interessante, lidando com os mecanismos da mente de uma criança profundamente abalada pela sua criação e ausência de alguém para se aproximar. Eliott, evidentemente, funciona como o amigo imaginário de Pete (Sean Marshall), que ainda é jovem para entender porque não tem pais ou amigos e deve lidar com os constantes maus tratos dos Gogan, que o compraram há alguns anos e o utilizam como um escravo em sua fazenda. O dragão é o desejo de ser amado do garoto e uma manifestação de sua individualidade, que luta para ser livre.

O longa nos mostra isso com ainda mais evidência quando o protagonista chega no farol e é acolhido por Nora (Helen Reddy) e seu pai. Percebam como a presença de Eliott diminui consideravelmente aqui. Ele é deixado na caverna e somente reaparece quando os dois estão na cidade, local onde a fragilidade de Pete ainda é abundante. A criatura, então, se manifesta quando o menino sofre com algo que ele não totalmente compreende, como é o caso na escola ou quando é atormentado por estranhos curiosos em relação ao dragão. Evidente que, para fins dramáticos, a criatura realmente existe dentro do filme, mas estamos falando de uma linguagem metafórica, a ser entendida principalmente pelo público adulto, visto que as crianças estarão ocupadas com as músicas do filme.

A escolha em trazer o dragão em forma de animação é acertada, quando visto por esse ponto de vista. Claro que a passagem dos anos não fez nada bem ao filme e enxergamos uma óbvia e inevitável distinção entre o live-action e o animado, o que chega a um nível até risível quando adultos passam a ter medo da criatura. Mas é preciso uma suspensão de descrença aqui; devemos enxergar tudo como uma fábula e não com um olhar que busca o realismo acima de tudo. Meu Amigo, o Dragão, portanto, funciona como um livro de história infantil, com uma nítida profundidade percebida por quem sabe olhar.

Felizmente, contornando essa mistura heterogênea formada pelo dragão, o cenário e os outros personagens, temos o enorme carisma de Eliott, que é certamente uma criatura profundamente expressiva, sendo verdadeiramente impossível não gostarmos do personagem. Condizente com a intenção da narrativa, sua personalidade é a de uma criança, encaixando-se perfeitamente com o fato de Pete ter criado o ser em sua mente. Suas cores vivas e suas proporções também refletem isso, visto que não buscam um realismo que poderíamos esperar de uma obra mais adulta.

No fim, Meu Amigo, o Dragão, é um longa-metragem que, de forma bastante tocante, traz uma metáfora sobre a mente de uma criança cuja vida foi envolta em sofrimento, mas cuja narrativa acaba sendo prejudicada consideravelmente pelo excesso de canções. Sentimos como se a Disney estivesse mirando no Oscar de Melhor Canção Original, e de fato conseguiu uma nomeação, para Candle on the Water, embora não tenha recebido o prêmio. Com mais de duas horas de duração, a obra permanece como um filme para crianças, visto que a experiência, mesmo quando interpretada com um viés psicológico, é sofrível para adultos.

Meu Amigo, o Dragão (Pete’s Dragon) – EUA, 1977
Direção:
 Don Chaffey
Roteiro: Malcolm Marmorstein
Elenco: Helen Reddy, Jim Dale, Mickey Rooney, Red Buttons, Shelley Winters, Sean Marshall, Jane Kean
Duração: 128 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.