Crítica | Meu Malvado Favorito

estrelas 3

Filmes com uma tendência ao “cute drama” enganam muita gente e acabam sendo mais valorizados do que mereciam, porque tocam num ponto emotivo de quem assiste e geralmente os cega para o que realmente está sendo projetado (vez ou outra, todos nós caímos nessa armadilha, só que alguns caem mais vezes). Embora eu saiba que muita gente não vá concordar comigo, esse é justamente o caso de Meu Malvado Favorito, filme que levou centenas de adultos e crianças para os cinemas em 2010.

A história tem como protagonista o vilão Gru, que já nos primeiros minutos de filme nos dá mostras de sua ruindade para com crianças em situações nada legais – desenvolverei melhor isso adiante. Mesmo que ache o personagem um pouco irritante, devo admitir que o roteiro consegue estreitar uma relação imediata entre o público e o grandão de nariz de bruxa, simplesmente por que percebemos que sua maldade não é daquelas que compõem personagens como o vilão de Megamente (2010), que foi criado por bandidos e encontrou o caminho para a maldade. Gru, por outro lado, teve um lar, mas foi criado sem nenhum carinho materno, o que fez de sua vilania um evidente clamor por atenção (até o roubo da Lua tem a ver com isso, relembre o contexto).

E aproveitando-se desse gancho, destacarei aqui o primeiro problema que encontramos no filme: a construção indecisa das personagens adultas. Não se trata de um recurso onde o roteiro vai desenvolvendo cada personagem e vemos sua mudança de caráter ao longo da fita. O caso de Meu Malvado Favorito é que temos a falsa impressão de que todos os adultos são pessoas más, mas no final das contas, tornam-se pessoas boas ou são boicotadas pela própria estupidez, como no caso de Vetor e seu pai.

Então pensamos: se a maioria das personagens aparentam ser vilãs mas na verdade não se enquadram nessa categoria, por que diabos o filme foi construído como sendo de um mundo de monstros para as crianças – no melhor estilo de Desventuras em Série verão animação? Se ao menos isso fosse realmente trabalhado talvez teríamos outra impressão, mas desde os primeiros minutos de Gru na tela, nos damos conta de que a premissa sobre ele é totalmente falsa! O grandalhão de voz esquisita deixa de ser vilão antes mesmo da chegada das meninas, que supostamente deveriam mostrar-lhe outro caminho. Eis o meu incômodo: não gosto de ver personagens vendidas com uma premissa “X” apenas para fazer valer a história. Se há mudanças, elas precisam ser motivadas e não pré-concebidas e escondidas até um ponto conveniente do filme. E ainda há gente que diz que “é porque se trata de uma animação”… Pobrezinhas. Nunca assistiram a O Rei Leão.

Daí passamos para o caráter da história. Não posso negar que a aventura é bastante divertida e tem um interessante apelo familiar, mas para uma animação com essa proposta um pouco mais madura, o caráter cartunesco e a relação do tipo “Coiote e Papaleguas” entre Gru e Vetor vai em caminho completamente oposto ao que deveria. Não bastasse a desonestidade de concepção das personagens adultas, há uma forte incongruência entre o ponto maduro, emotivo e familiar da história e a bobagem que marca as desventuras dos “vilões”. Isso simplesmente não combina com o tom do filme. E se a ideia era adicionar um conflito cômico à obra, que isso fosse feito com a melhor coisa que existe em Meu Malvado Favorito (junto da fofura de Agnes): os Minions.

Além de absolutamente hilários, simpáticos e viciantes, os Minions trazem um caráter cômico que se alia bem ao que é contado na história, podendo estar relacionados tanto a Gru como vilão ou bebezão ou às suas filhas adotivas. Não há contradição, não há forçada de barra, eles aparecem nos momentos certos e na dose certa, sempre com algo a acrescentar à história.

Meu Malvado Favorito é uma animação divertida porque tem a presença dos pequenos amarelinhos e de uma criança adorável, Agnes; mas peca naquilo que deveria ser a sua verdadeira identidade. O filme é indeciso entre o bobão, a ternura e comicidade, uma corda bamba que é deixada de lado por espectadores mais suscetíveis a cenas classificadas como “oooooown!“. Não é um filme ruim. É uma obra bem divertida e com momentos realmente engraçados, mas que acaba sendo subtraída pelas pisadas na bola do roteiro. Ainda bem que a trilha sonora e a animação bem realizada (os ambientes da casa ou “escritório” de Gru são os melhores do filme em termos de cenário) fazem valer a sessão. Inicialmente eu tinha dado meia estrela a mais, só que escrevendo, percebi que meu incômodo com a realização da obra era bem maior do que eu imaginava à primeira vista. Uma pena.

Publicado originalmente em 22/06/2015.

Meu Malvado Favorito (Despicable Me) — EUA, 2010
Direção: Pierre Coffin, Chris Renaud
Roteiro: Cinco Paul, Ken Daurio, Sergio Pablos
Elenco (vozes originais): Steve Carell, Jason Segel, Russell Brand, Julie Andrews, Will Arnett, Kristen Wiig, Miranda Cosgrove, Dana Gaier, Elsie Fisher, Pierre Coffin, Chris Renaud, Jemaine Clement.
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.