Crítica | Meu Ódio Será Sua Herança

Wild Bunch

estrelas 5,0

Em 1969, o western estava em progressivo declínio. As obras desse gênero lançadas à época continham tramas que envolviam um código de honra e conduta não mais condizentes com o mundo fora das telas, o que as fazia parecer algo cristalizado em “outro tempo histórico”.

Por mais que películas como Era Uma Vez no Oeste (1968), Bravura Indômita (1969) ou O Pequeno Grande Homem e Quando é Preciso Ser Homem, ambas de 1970, fossem realistas, cruas, com conflitos de má consciência e finais sem glória, estava claro que o homem a cavalo percorrendo regiões ermas dos Estados Unidos e vivendo ou morrendo sob um código pessoal ou de grupo já não era assunto para as plateias em tempos de nulidade de honra.

Meu Ódio Será Sua Herança, grandioso filme de Sam Peckinpah, foi uma espécie de inovador hino ao crepúsculo do gênero, que ainda conheceria uma década — anos 70 — de espasmos esporádicos com a marca da decadência do cowboy clássico (Mais Forte que a Vingança; Pat Garrett & Billy the KidO Último Pistoleiro são exemplos disso) e uma década de 1980 onde teríamos os finais inglórios do declínio dando lugar à letargia histórica de um gênero que não se deixava morrer e procurava se reinventar.

Parte dos ingredientes simbólicos dessa passagem entre a ruína e a reinvenção do western (iniciada, na verdade, por volta de 1960) estavam em Meu Ódio Será Sua Herança, um Zapata western que nos apresenta irretocável composição técnica e uma ousadia narrativa que, só por ter aparecido em uma obra de 1969 e com a intensidade que apareceu, deveria ser reverenciada.

Desde o início do longa temos pistas do fatídico destino dos protagonistas (os escorpiões devorados por formigas, uma metáfora da batalha final contra o General Mapache e seus homens), que principiam numa cavalgada pacífica, vestidos de policiais (embora não o fossem), adentrando a uma vila. O ano corrente é 1913 e a Revolução Mexicana há pouco havia começado. O bando de Pike (William Holden) briga contra valores de um novo tempo e contra o peso da idade — a possibilidade da aposentadoria e o espanto ou culpa em relação a certas atitudes passadas e presentes são fortes aspectos de suas personalidades –. Eles estão prestes a encenar uma das cenas de violência gráfica mais bem filmadas e finalizadas que um filme de faroeste já conheceu.

Mas este momento não é um ponto isolado no filme. Peckinpah aposta em uma “concepção de barbárie” para enriquecer visual e textualmente seus personagens, jogando-nos também o contraste entre essas figuras e as de uma população passiva, de forte religiosidade e simpática a regras de comportamento que fazem mais mal do que bem a ela.

Essa dualidade ganha ainda um toque social “revolucionário” no roteiro (trata-se de um Zapata western, como já foi dito, mas é também um western revisionista), com os diálogos referentes à Revolução Mexicana, à ação do povo que pretende se armar para lutar contra um número cada vez maior de opressores e à exposição das condições simples de vida dos aldeões. Ao mesclar mundos erguidos sobre bases diferentes, Peckinpah ganha o bônus da diferença ideológico-social para si, estabelecendo com bastante competência o conflito físico e carniceiro entre as partes, alternado cenas de tiroteio, roubos e gozo de prazeres pessoais, uma ironia dolorosa e quase cínica no todo fílmico.

A marcante trilha sonora de Jerry Fielding marca o passo do bando e reafirma impressões dramáticas que a câmera de Peckinpah cria com uma grande diversidade de planos, ângulos e estilos de filmagem, sobressaindo-se aí o constante uso do zoom, a câmera lenta e a câmera subjetiva que, embora usada em menor grau, impressiona e até choca o espectador que entende não ser esta uma prática corrente do cinema em fins dos anos 1960.

Fielding compôs vários temas fortes com peso nos metais graves (trombones, tubas) e explosão nos agudos e harmônicos (trompetes, flautas, clarinetes), o que dá às peças um forte tom épico e ameaçador. Junto a esse uso dos sopros temos uma grandiosa exploração da percussão simples, uma caixa e um triângulo marcando o tempo, a marcha ou a suspensão de alguma ação do bando, algo que vez ou outra nos traz uma esperta incursão do barulho de uma pulsação cardíaca, sugestão tão forte e tão bem aliada à imagem que também faz o nosso coração disparar.

Quanto mais degradante e perigosa de torna a situação para o bando de Pike, mais forte é o laço que os une. A volta do grupo para a vila de Mapache a fim de resgatar Angel é um exemplo desse laço que se firma. Daí poderíamos citar a diminuição dos conflitos entre os quinteto e o modo como a montagem de Lou Lombardo (A Morte Não Manda Recado, Onde os Homens São Homens) trabalhou as lembranças de Pike e Deke Thornton, os dois ex-amigos separados pelo tempo e por uma ação do passado.

De alguma forma, esse teor sentimental aproxima os violentos homens do público, talvez da forma menos provável que se possa imaginar. Tanto é verdade que após a carnificina do embate final, estamos tão desolados pelo acontecido quanto Deke Thornton, sentado em desconsolo na entrada da vila de Mapache. E, ironicamente, é um laço e um voto de amizade e confiança que o faz seguir caminho rumo a uma solidão que se ocupa de si mesma, a velha maldição do cowboy clássico aqui refigurada na representação de um mundo lúgubre, sem fé e sem lei, onde ele é obrigado (sim, esta é a palavra) a permanecer vivo até que a morte o leve.

Com uma direção inteligente — muitas vezes baseada em tomadas vindas de 4 pontos do cenário, intercaladas em planos diferentes e com distintos movimentos internos e externos, dando-nos a impressão de ter um olhar pleno, dinâmico e ao mesmo tempo rápido e detalhado de todo o entorno, conjunção imagética rara em um western, mesmo em se tratando de um filme de Sam Peckinpah –, Meu Ódio Será Sua Herança é um filme cuja temática densa e a realização impecável irão deixar o espectador em uma espécie de alumbramento após o final da sessão, um sentimento acompanhado pela certeza de que o nosso vocabulário cinematográfico acabara de ganhar mais algumas dezenas de inesquecíveis verbetes.

Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch) – EUA, 1969
Direção: Sam Peckinpah
Roteiro: Walon Green, Sam Peckinpah, Roy N. Sickner
Elenco: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien, Warren Oates, Jaime Sánchez, Ben Johnson, Emilio Fernández, Strother Martin
Duração: 145 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.