Crítica | Meu Pé Esquerdo

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estrelas 4,5

Christy Brown nasceu em Dublin, Irlanda, em 1932. Diagnosticado com paralisia cerebral, vivendo em uma época onde o tratamento e os processos fisioterápicos eram bastante caros e haviam ainda algumas limitações no processo, pouca esperança restava para o garoto desenvolver qualquer tipo de grande habilidade. Ao menos era o que se pensava. Contra todas as apostas, Christy Brown demonstrou, ainda criança, uma enorme força de vontade e acabou recebendo um bom tratamento médico especializado no início de sua vida adulta, o que permitiu a ele melhorar a fala e escrever (digitando em máquina com o seu pé esquerdo) e pintar. Em 1954, ele lançou a autobiografia My Left Foot, que chamou a atenção do público e o tornou famoso. Em 1989, oito anos após a morte do autor, Jim Sheridan adaptou o livro para o cinema, em sua estreia atrás das câmeras.

É impossível falar de Meu Pé Esquerdo sem destacar a impressionante e grandiosa interpretação de Daniel Day-Lewis como Christy Brown. Como é bastante conhecido, o ator tem  um método de entrega plena aos papéis que interpreta, algo que foi ampliando ao longo dos anos, tornando seus projetos cinematográficos cada vez mais aguardados pelo público e pela crítica. Neste filme, o ator chegou a quebrar duas costelas devido a postura e posições que se forçava a fazer para representar Christy pintando ou em algum acesso de raiva, e se recusou a sair do personagem enquanto estava no set, isso em qualquer momento das gravações. Nem mesmo o seu agente, que foi ao local conversar com ele, conseguiu fazê-lo sair do personagem e acabou desistindo.

Essa entrega, porém, é a alma do filme e ela vai muito além da primeira indicação e vitória de Day-Lewis ao Oscar. Trata-se de uma representação humana e apaixonada de alguém incapacitado que rompeu algumas barreiras e conseguiu chegar a um patamar onde sua expressão interna, através da arte, e externa, através da fala, puderam ser vistas e ouvidas mundo a fora. Durante todo o processo vemos que o ator mantém o corpo em posições firmes, utilizando dessas características físicas para mostrar como é possível conseguir determinados movimentos básicos com o tratamento certo, tendo a paralisia cerebral como impedimento. Outro ponto de grande destaque é a fala, que o ator domina com perfeição, entregando uma melhor articulação das palavras na parte final da obra, mas com a tonalidade, ritmo e dificuldade típicas de alguém com aquela enfermidade.

Jim Sheridan faz um trabalho tão bom na direção (também indicada ao Oscar) que nem parece obra de marinheiro de primeira viagem, perdendo um pouco a mão apenas na passagem um tanto incômoda entre as cenas do presente do personagem e o flashback, vindo a leitura do livro pela personagem de Ruth McCabe. Tendo também co-escrito o roteiro, ao lado de Shane Connaughton, o diretor mostrou enorme competência na representação da vida de Christy , que morou em uma casa pequena com os pais e um grande número de irmãos. Por essa característica o filme tem uma maior quantidade de planos médios e primeiros planos, fazendo o espectador parte de todo o processo, desde a infância do personagem até a sua sequência final, em um evento beneficente onde flerta com uma enfermeira, sua futura esposa, em uma das mais ternas e interessantes cenas da obra.

Também se destaca aqui a atuação de Brenda Fricker (vencedora do Oscar) e de Ray McAnally; a primeira, o tempo inteiro carinhosa e cuidadosa com o filho. O segundo, boa parte do tempo com o pé atrás, denotando um preconceito, remorso ou algum tipo de sentimento que o afastava do garoto, até que Christy escreveu sua primeira palavra, MOTHER, e o pai passou a vê-lo com olhos completamente diferentes. Há outros momentos de representação de preconceitos que o filme trata de maneira rápida e honesta, sempre contrastando com algo que é muito interessante de se ver, a interação dos irmãos com Christy, incluindo-o nas brincadeiras de rua e fazendo com que ele estivesse presente nas coisas que adolescentes fazem, não deixando-o em casa, isolado.

Este laço familiar, também destacado pelo espaço cênico da obra e pela direção de fotografia, dá um toque especial à narrativa de certo modo trágica, mas que reverte essa impressão mostrando que o amor e a inclusão são essenciais e importam para todo mundo, principalmente para as pessoas que física, pessoal, mental e socialmente mais precisam disso.

Meu Pé Esquerdo (My Left Foot: The Story Of Christy Brown) – Irlanda; Reino Unido, 1989
Roteiro: Shane Connaughton, Jim Sheridan (adaptação); Christy Brown (biografia)
Direção: Jim Sheridan
Elenco: Daniel Day-Lewis, Brenda Fricker, Ray McAnally, Alison Whelan, Kirsten Sheridan, Ruth McCabe, Fiona Shaw, Cyril Cusack
Duração: 103 minutos.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.