Crítica | Meu verão na Provença

estrelas 3,5

Roselyne Bosch, ou simplesmente Rose Bosch, para quem não sabe, é uma diretora de renome na Europa. Roteirizou o grandioso 1492 – A Conquista do Paraíso (1992), sob a batuta de Ridley Scott – ainda que o filme tenha ganho mais apelo popular do que da crítica especializada -, dirigiu o premiado thriller futurista Animal (2005), e o polêmico Amor e Ódio, de 2010. Em Meu Verão na Provença, porém, Bosch talvez apresente o seu trabalho mais medíocre até então, ainda que o tema pudesse render um grande filme.

O longa conta a história de três irmãos que vão passar as férias do referido verão na propriedade do avô (Jean Reno) por parte de mãe, o qual não conheciam até então. O problema é que, pouco antes da viagem, o pai dos garotos abandona a família, drama que vem se chocar com o conflito familiar e de valores de gerações entre o avô e os netos.

As críticas e comparações entre valores passados e contemporâneos aparecem, em sua maioria, com leveza, pendendo para a comédia, mas ainda assim pertinentes e provocativas, como quando um dos netos questiona o avô sobre este passar muito tempo lidando na propriedade e pouco tempo com a esposa, no que o outro replica que o jovem devia ficar menos tempo em frente ao computador. Esse conflito é constante e latente na primeira parte do filme, desenvolvido com dinamismo e diálogos inteligentes. As limitações da primeira impressão também vêm à tona: no começo, exceto pela bondade da avó, o avô parece apenas um velho rabugento e os garotos meramente mimados e desprovidos de personalidade relevante, mas conforme as situações se desenrolam começamos a descobrir as peculiaridades, um pouco da história e dos sentimentos de cada figura, ainda que umas sejam mais interessantes do que outras.

É na cadência narrativa, contudo, que se dá o maior tropeço da produção. Já nos primeiros minutos de fita, assistimos a uma discussão familiar acalorada entre pessoas que nem se conhecem, para pouco depois estarem rindo juntas. De duas, uma: ou a produção poderia optar por construir o clima de tensão aos poucos, até culminar numa inevitável explosão, ou sustentar a sua aparente intenção de representar o peso do conflito já em seu princípio, mas sem encerrar o efeito de cada embate com tanta facilidade para, algum tempo depois, retornar à tensão, à leveza e novamente à tensão de modo tão paralelo e, consequentemente, pouco verossímil.

O foco do filme também se perde em alguns momentos, o que reduz sua força, de modo que por vezes nos vemos acompanhando o progresso do drama familiar de modo bastante genérico. Não que o caso amoroso de um dos garotos, por exemplo, não dialogue com o tema em questão, mas o faz com a abordagem errada, concentrando mais a narrativa na construção dessa relação do que a mediando com o ponto de vista dos avós, restringindo-se aos estereótipos da avó compreensiva e do avô severo, dando lugar à imagem do pai ausente.

Jean Reno, ainda assim, que volta a trabalhar com Bosch depois de Amor e Ódio, é quem mais se destaca, conferindo grande vivacidade e humanismo ao seu personagem. A trilha  sonora trabalha especialmente com músicas ambiente, dialogando como esperado ora com o ambiente campestre, ora com o saudosismo evocado,  incluindo rodas de viola ao estilo clássico da geração libertária do avô, talvez os momentos mais marcantes do longa.

Apesar de contemplativa e bastante sagaz, a produção qualificada como comédia dramática começa inteligente e sutil e termina desleixada, quase pondo tudo a perder, reduzindo-se a personagens restritos à resolução de seus dramas particulares por um roteiro que só parece preocupado em sinalizar o último ponto final de qualquer jeito. De fato, começa drama e termina draminha.

Meu verão na provença (Avis de mistral), França – 2014
Direção: Rose Bosch
Roteiro: Rose Bosch
Elenco: Jean Reno, Anna Galiena, Chloé Jouannet, Hugo Dessioux, Aure Atika, Lukas Pelissier, Tom Leeb, Jean-Michel Noirey, Hugues Aufray, Charlotte de Turckheim
Duração: 105 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.