Crítica | Midnight Oil: The Great Circle 2017 World Tour – Rio de Janeiro

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(foto: Ritter Fan)

estrelas 5,0

Começarei os presentes comentários com uma nota pessoal e com um claro aviso aos meus leitores.

A nota pessoal é que acompanhei a carreira musical do grupo australiano de rock Midnight Oil, que surgiu com esse nome em 1976, desde o começo dos anos 80 com os álbuns 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 e Red Sails in the Sunset, passando pelos absolutos sucessos Diesel and Dust e Blue Sky Mining. Lá pela altura do lançamento de Earth and Sun and Moon, em 1993, meu interesse pelo  grupo já começava a diminuir – não coincidentemente foi a época em que ingressei em minha carreira profissional -, mas eles, nesse mesmo ano, em março, vieram ao Brasil, mais especificamente para o Rio de Janeiro, em um fatídico show no Maracanãzinho em que dois jovens morreram, um eletrocutado, o outro afogado. Só soube do acidente depois e o show em questão foi um dos grandes marcos de minha “vida musical”, com uma apresentação formidável de Peter Garrett e sua banda que até hoje lembro vividamente.

E o aviso é muito simples: não sou crítico musical. Simplesmente não tenho o talento necessário que meus colegas Luiz Santiago, vulgo “Corneteiro”, e Handerson Ornelas, vulgo “Rei do Pagode”, demonstram e faço o máximo para me esquivar de análises de fundo nessa área. Portanto, a análise, aqui, é do show como show, algo que, para mim, desde que debutei em shows de rock no Rock in Rio original, de 1985, é uma experiência sensorial e social, não um lugar onde eu vou para analisar aspectos técnicos (que não sejam óbvios como “não dá para ouvir a voz do vocalista…”), até por não conhecê-los o suficiente. Portanto, ajustem suas expectativas.

Certo? Então vamos lá.

Longe do Brasil há 20 anos, com a última apresentação em 14 de maio de 1997 no Olympia, em São Paulo, o Midnight Oil debandou em 2002, com Garrett focando em sua carreira política na Austrália, o que lhe valeu dois ministérios – o primeiro do Meio Ambiente, Herança Cultural e Artes e, o segundo, da Educação Escolar – por indicação de dois sucessivos primeiros-ministros de seu país. Somente em 2009 o grupo incompleto reuniu-se para um show beneficente e, em 2016, eles finalmente anunciaram a volta, na formação original, iniciando, em 25 de março de 2017 o The Great Circle 2017 World Tour, que começou no Brasil, em Porto Alegre, passando por quatro outras cidades do país. Depois vêm os EUA, Canadá, nove países europeus, África do Sul e Nova Zelândia, com encerramento, lógico, com 21 apresentações na Austrália, a última no dia 17 de novembro de 2017.

E o que achei do show no Rio de Janeiro pode ser resumido em uma frase simples: foi tão bom, mas tão bom que não vi o tempo passar e, quando me toquei, ele já tinha acabado. Ou seja, não foi uma daqueles shows que você olha o relógio para ver quanto tempo já passou ou algo assim. O setlist foi no ponto, unindo todos os clássicos imbatíveis e esperados com canções menos conhecidas de álbuns famosos e outras mais recentes, em um mix irretocável e que abrangeu toda a carreira do grupo, com exceção de seus primórdios na década de 70, o que é bastante razoável.

Mais do que isso, o show não dependeu hora nenhuma de firulas e pirotecnia. O palco era cru, básico, quase que como em um pocket show improvisado. Só os instrumentos e iluminação simples com uma única diferença: um tonel ou tubo industrial de alumínio ao lado da bateria usado também na percussão. Nem mesmo um pano de fundo com o nome do grupo ou algo assim havia por lá. Tudo dependeu do magnetismo da banda e isso os componentes do grupo esbanjaram por todo o tempo. Na verdade, seria mentiroso dizer que o centro das atenções foi igualmente de todos, pois não foi. Peter Garrett sempre foi e continua sendo o ponto focal não só por seu porte físico esguio de jogador de basquete (ele tem 1,93m de altura), como também por sua careca marcante (nunca consegui dissociá-lo de Michael Berryman, o canibal Pluto de Quadrilha de Sádicos…) e, principalmente, por sua mais do que peculiar forma de se sacudir em palco (pois não dá para classificar aquilo como dança). E, claro, mesmo mais de 15 anos depois da última turnê e com 64 anos de idade, Garrett é um poço de energia, com sua voz grave tomando de assalto o ambiente, além de demonstrar uma enorme simpatia e um grande esforço para falar português além do “obrigado” (inclusive lendo brevíssimos textos pré-escritos em português pela produção).

Mas vale nota também o baterista Rob Hirst que demonstrou enorme entusiasmo em seu instrumento de escolha, fazendo questão de vir para a frente do palco inúmeras vezes, usando até mesmo uma versão portátil de bateria e ainda cantando. Jim Moginie, o guitarrista principal (e por vezes tecladista), sempre à esquerda de que olha para o palco, tem uma presença marcante pelo chapéu que sempre usa, mas ele parecia estar no automático quase o tempo todo, especialmente se comparado com seu colega guitarrista Martin Rotsey, no lado oposto do palco. Bones Hillman, no baixo, normalmente ao lado de Rotsey, teve seus bons momentos puxando canções e conseguia destacar-se mais do que Moginie, ainda que este último não tenha de forma alguma desapontado na guitarra ou no teclado.

Já começando com King of the Montain, do álbum Blue Sky Minging, que estabelece o tom do show até sua metade, Garrett mostra a que veio, andando e “tremendo” de um lado a outro do palco, usando uma camisa de manga comprida e não uma, mas duas camisetas pretas embaixo (não estava quente no local, mas mesmo assim…). Com uma breve parada para agradecer em português, ele continua com a excelente Bullroarer, de Diesel and Dust, seguida de Drums of Heaven, de Earth and Sun and Moon. Com isso, a banda faz um apanhado de sua década de ouro, mas, para minha felicíssima surpresa, a música seguinte é River Runs Red, uma balada ecológica tão triste como poderosa, com vocais que demoram a começar, também retirada de Blue Sky Mining.

Sem perder muito tempo, Garrett engata em outras três canções, as duas primeiras que achei que não escutaria: Feeding Frenzy, de Earth and Sun and Moon, Gunbarrel Highway, de Diesel and Dust e Shakers and Movers, de Blue Sky Mining. Em outras palavas, o Midnight Oil faz o que todas as bandas há muito tempo fora de circulação deveriam fazer, cantar seus clássicos, algo que é atingido com a manutenção das setes canções iniciais em seus álbuns de mais destaque.

A canção seguinte é a razoavelmente desconhecida – do EP Species Diseases e que depois foi inserida na compilação 20,000 Watt R.S.L. e como parte do setlist  Scream in Blue, álbum ao vivo da banda – Hercules que, porém, mantém a energia de Shakers and Movers e funciona quase que como uma introdução ao hino My Country, de Earth and Sun and Moon, que Garrett canta com particular emoção. White Skin, Black Heart, de Redneck Wonderland, Ships of Freedom, do EP Outbreak of Love, composta e cantada por Rob Hirst e Kosciusko, de Red Sails in the Sunset, encerrando essa parte do meio do show um pouco mais lenta, mas jamais arrastada, com Now or Never Land, novamente de Earth and Sun and Moon.

Quando a banda começou os primeiros acordes de Arctic World, novamente não acreditei que estava ouvindo essa música, tirada de Diesel and Dust, mas uma das menos conhecidas do clássico álbum. Foi um prazer ouvir Garrett entoando essa balada que ele logo engatou com Warakurna e Dreamworld, também do mesmo álbum. Uma verdadeira viagem nostálgica à mais icônica obra do grupo e que, por incrível que pareça, serviu como introdução para a imbatível quadra de ases que se seguiria: Power and the Passion (a única de 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1), The Dead HeartBeds and Burning (ambas, claro, de Diesel and Dust) e Blue Sky Mine (de Blue Sky Mining). Garrett vai em um fôlego só e eletriza a plateia que enlouquece completamente.

O primeiro bis – sem qualquer suspense ou dúvida de que a banda voltaria – começa nem bem dois minutos depois, com Drop in the Ocean (Redneck Wonderland), Best of Both Worlds (Red Sails in the Sunset) e, para fechar com chave de ouro, Forgotten Years (Blue Sky Mining). E, como tudo que é bom, tem que acabar, depois de mais um ou dois minutinhos de intervalo, os Oils voltam para encerrar o fantástico show – com a mesma energia do começo – com Truganini, com direito a mais uma bela gaita por Garrett, tirado de Earth and Sun and Moon.

O importante, por todo o show, foi a manutenção da qualidade vocal e da energia de Garrett, que jamais deu sinais de cansaço ou de estar fazendo algo com horário marcado para acabar. Do jeito que começou, ele acabou. Alegre, com presença constante e uma voz grave sem dar trégua. Sim, houve instrumentos desregulados, com alguma microfonia e momentos em que sua voz era engolida pela bateria ou pelo trompete algumas vezes usado, mas não foi nada que tirasse a vivacidade do conjunto, basicamente como se o intervalo de 24 anos entre o show no Maracanãzino e este agora no Vivo Rio não tivesse afetado em nada o grupo australiano.

*Fiquem com a playlist que fizemos com as músicas deste show específico, na ordem tocada, com exceção de Ships of Freedom, que não consta do Spotify.

Data do show: 30 de abril de 2017
Local: Vivo Rio
Duração: 125 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.