Crítica | Mil Vezes Boa Noite

estrelas 2,5

Você largaria seu emprego, por mais importante que fosse, não só para você, como para o mundo como um todo, para não perder sua família? Em Mil Vezes Boa Noite, o diretor Erik Poppe levanta essa pergunta, focando no drama de uma família e, mais especificamente, nas dúvidas de uma mulher que precisa realizar tal decisão.

Juliette Binoche é Rebecca, uma das melhores fotógrafas de guerra no mundo. A primeira vez que a vemos ela está diante de um estranho ritual no Oriente Médio. Um pequeno grupo realiza orações ao redor de uma cova, onde o corpo de uma mulher jaz deitada. Logo, porém, descobrimos que ela não está morta e é dada uma escada para sair do buraco. Na cena seguinte acompanhamos o grupo fixando no corpo da mulher inúmeros explosivos. É uma mulher-bomba e Rebecca se vê no dever ainda maior de segui-la até seu destino. Dito isso, a fotógrafa entra no mesmo carro que a jovem fundamentalista e segue até o fim da jornada. Movida pela sua paixão e ânsia pela adrenalina, ela se recusa a se afastar do carro e quando o faz já é tarde. Ela sobrevive, por pouco.

Entramos, portanto, na real problemática do filme após essa impactante sequência inicial. O marido de Rebecca, Marcus (Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game of Thrones), demonstra seu descontentamento ao esperar, à cada viagem, que sua esposa acabe morrendo, deixando não só ele para trás, como suas duas filhas. A mulher simpatiza com as dores do esposo e decide se aposentar das zonas de guerra. O que acompanhamos a seguir são as crescentes dúvidas de Rebecca, tão bem representadas por Binoche, que garante a profundidade do personagem. É claro, mesmo na ausência de palavras, o quanto aquela vida monótona a afeta, nos fazendo lembrar rapidamente de Guerra ao Terror, onde o protagonista também não consegue deixar o conflito para trás. Mas estaria a fotógrafa em um dilema devido à sua paixão pela adrenalina ou seu senso de dever? A questão paira acima da narrativa e cabe a nós responde-la, ao passo que nos são dados indícios para ambos.

Mil Vezes Boa Noite, contudo, comete uma grande falha quando se trata dos coadjuvantes. Todos os personagens, à exceção de Rebecca, são mal trabalhados e soam completamente rasos. Eles estão ali somente para criarem a dúvida na mãe e não porque, de fato, ali pertencem. Existem momentos nos quais a relação entre eles é bem abordada, conseguindo atingir um bom grau de maturidade quando se trata da relação marido-esposa. Infelizmente tratam-se de apenas instantes, cercados pela repetição do mesmo, que acaba prejudicando consideravelmente a fluidez da obra, que acaba soando longa demais.

Outro aspecto que incomoda é a falta de ousadia na fotografia, que opta por enquadramentos e montagens convencionais. Chega a ser irônico como o filme sobre uma excelente fotógrafa acaba contando com imagens que, nem um pouco, chamam nossa atenção. Tal fator afeta diretamente o que foi dito no parágrafo anterior, a fluidez, o ritmo do longa-metragem. Com isso, mesmo diante de chocantes imagens, não conseguimos nos identificar com a narrativa e qualquer um de seus personagens e nem mesmo Juliette Binoche consegue nos manter atentos por tanto tempo.

Mil Vezes Boa Noite é mais um clássico exemplo de um filme que começa maravilhosamente bem, mas consegue perder a atenção do espectador com o passar dos minutos. É uma obra com potencial, mas que acaba não utilizando nem metade dele, tornando-se inteiramente dispensável mesmo para os mais interessados na temática.

Mil Vezes Boa Noite (Tusen ganger god natt – Noruega/ Irlanda/ Suécia, 2013)
Direção:
Erik Poppe
Roteiro: Erik Poppe, Harald Rosenløw-Eeg
Elenco:  Nikolaj Coster-Waldau, Juliette Binoche, Maria Doyle Kennedy, Larry Mullen Jr., Chloë Annett, Lauryn Canny, Eve Macklin, Mads Ousdal
Duração: 117 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.