Crítica | “Miley Cyrus & Her Dead Petz” – Miley Cyrus

estrelas 1

Graças a todos os deuses de todos os panteões que ninguém teve que pagar por esta lobotomia sonora chamada Miley Cyrus & Her Dead Petz (2015), lançamento “surpresa” e gratuito de Miley Cyrus que veio imediatamente após o MTV Video Music Awards 2015, do qual a artista foi apresentadora. O disco teve um time de 9 produtores, dentre os quais a própria Miley Cyrus e uma surpresa que me deixou choramingando pelos cantos por horas (dado o péssimo resultado artístico do produto em que foi se envolver), The Flaming Lips, a mesma banda que nos presenteou com lindezas alucinantes e psicodélicas, dente outras coisas, como Transmissions from the Satellite Heart (1993), Clouds Taste Metallic (1995), The Soft Bulletin (1999), Yoshimi Battles the Pink Robots (2002) e The Terror (2013).

Todavia, essa parceria entre The Flaming Lips e Miley Cyrus não é algo de se espantar. Quem acompanha o cenário musical dos anos 2000 para cá, nos Estados Unidos e nos países centrais da União Europeia (embora eu veja muito desse comportamento aqui no Brasil, mesmo de forma não homogênea), sabe que eventualmente uma mistura bizarra de estilos, gêneros, produtores e tendências podem se juntar na produção de um disco pop. Se os anos 1980, preparou a indústria fonográfica para isso, foi apenas nos anos 2000 que efetivamente tivemos a aplicação massiva dessa prática no mercado. Evidente que não se trata de algo novo, mas isso se tornou quase a regra há pouco menos de duas décadas, um hábito que possui dois lados; um bom, que é a possibilidade de conhecer produtos musicais inovadores; e um ruim, que é a vinculação de um bom artista a um experimento capaz de transformar o cérebro de qualquer um em baba verde, como no presente caso.

The Flaming Lips e Miley Cyrus já haviam se encontrado em With a Little Help from My Fwends (2014), disco mediano da banda que fazia homenagem ao icônico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles. Em Miley Cyrus & Her Dead Petz, fica evidente a veia ousada e psicodélica típica do Lips, mas isso acaba se misturando a investidas de tsunamis de sintetizadores (os produtores Mike Will Made It e Resource pesaram a mão nesse ponto), mímicas temáticas e vocais de Lana Del Rey e Lady Gaga e entrega completa à vertente liberalíssima do estilo pessoal de Cyrus após ~2012 [que eu gosto muito, por sinal, e gostaria imensamente que sua música tivesse refletido toda essa loucura com qualidade], que já víramos em menor grau no disco Bangerz (2013), mas que aqui chega a um nível de chatice inominável. Canções como Bang Me Box e Slab of Butter (Scorpion) operam nesse território, com metáforas que não são de todo ruins e alguns momentos que chamam a atenção, mas…

Não há uma única faixa do disco — nem mesmo a instrumental e sonífera Miley Tibetan Bowlzzz ou as minúsculas transições Fuckin Fucked Up I’m So Drunk — que consiga ser boa do começo ao fim. Eu tentei até gostar de Karen Don’t Be Sad e Cyrus Skies, que funcionam até certo ponto, mas não deu. Muitas coisas me impediram, coisas essas que podem ser encontradas em 23 das 23 músicas de Dead Petz, dentre as quais destaco três, a primeira, a repetição do modelo cíclico de composição. Perceba que existe um padrão para as baladas, as dançantes, as psicodélicas e as “experimentais”, não havendo espaço para sair da caixa, e isso vai de Dooo It! até a insuportável Twinkle Song, passando por Space BootsMilky Milky Milk e Evil Is But a Shadow. E nesse ponto eu preciso dar o braço a torcer para o meu colega “ditador do pagode” Handerson Ornelas, com quem discuti bastante sobre o experimentalismo de St. Vincent no álbum de mesmo nome, lançado em 2014. Mesmo que eu não tenha gostado do disco, hoje devo admitir que havia ali coragem suficiente para gerar algo diferente, autoral. Miley Cyrus tenta com todas as forças fazer isso em seu Dead Petz. Mas o resultado é O HORROR, O HORROR!

A segunda coisa é a dupla “exagero & falta”, que vemos em faixas como Tiger Dreams e a única que eu senti algum prazer em ouvir, a despeito do tédio gerado pela repetitiva parte instrumental, Pablow the Blowfish. Este é o tipo de coisa que você desacredita quando vê um álbum produzido por tanta gente de diferentes ramos e tendências e com tamanha falta de imaginação para algumas canções e completo descontrole para outras. Vejam, por exemplo, a ANOMALIA MONSTRUOSA que é Tangerine, que traz Big Sean (rapper de carreira curta, mas com três álbuns bem legais, dentre os quais Dark Sky Paradise, que saiu no começo de 2015) em uma participação que isoladamente é boa mas que não faz sentido algum em qualquer aspecto musical, formal, estético, sonoro, artístico, conceitual que você imaginar para o mumble mumble de Miley Cyrus até ali.

A terceira e última coisa é uma espécie de corrente de produção que se mostra atrapalhada em termos de experimentação técnica e instrumental, como já aludimos, um problema seguido pela engenharia de som que coloca a voz de Cyrus quase como um backing vocal, tentando superar percussões descontroladas, sintetizadores em dinâmica incompreensível e instrumentos apenas parcialmente condizentes com o escopo musical que pretendiam entregar. Uma canção que deveria ser boa mas é estragada por este padrão é The Floyd Song (Sunrise) e também a faixa seguinte, Something About Space Dude, cada uma com uma proposta diferente que talvez pudessem ter um melhor fim se não fosse a ensandecida necessidade de enfiar ruídos, propagar ecos e não escolher a simplicidade quando ela deveria aparecer. Se mesclassem esse exagero com a falta de imaginação que estragou Pablow the Blowfish, talvez tivéssemos um resultado um pouquinho melhor para o disco.

Com produção falha, vocais arrastados, gritados e lamentosos (isso quando não escondidos), exagero e falta nos moldes mais extremos que se possa imaginar e algumas letras extremamente forçadas fazem de Miley Cyrus & Her Dead Petz um dos piores álbuns de 2015, que apesar de ter mínimos momentos de coisas interessantes não funciona bem no todo e faz coleção de faixas promissoras estragadas por um time descoordenado de produtores. Ela bem que tentou realizar algo diferente, e isso é notável, mas como dizia os nossos avós, tudo demais ou de menos é desmantelo. É por isso que eu preferia a mediocridade dos tempos de Hannah Montana.

Só que não.

Aumenta!: —
Diminui!: Subtraia o primeiro minuto de todas as canções (bem, das que tem mais de um minuto, claro) e pronto. Diminua todo o resto.
Minha canção favorita do álbum:

Miley Cyrus & Her Dead Petz
Artista: Miley Cyrus
País: Estados Unidos
Lançamento: 30 de agosto de 2015
Gravadora: Smiley Miley Inc.
Estilo: Pop, Pop Psicodélico, Pop Experimental

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.