Crítica | Millennium: A Garota na Teia de Aranha

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Baseado no livro homônimo de David Lagercrantz, que dá continuação à obra de Stieg Larsson interrompida em A Rainha do Castelo de ArA Garota na Teia de Aranha conecta o público com o mundo de cyber ataques e alta tecnologia de Lisbeth Salander e seus pares, dentro ou fora da lei. Sob direção de Fede Alvarez (do ótimo O Homem nas Trevas e do vergonhoso A Morte do Demônio), o filme tem uma absurda diferença em relação ao livro, inclusive na essência da adaptação, o que torna a obra um pouco mais problemática do que deveria, como abordarei mais adiante.

Nessa versão cinematográfica temos muito mais uma criação de “Universo diferente” do que uma real continuação de Os Homens que não Amavam as Mulheres (a versão americana de 2011). Claro que essa percepção nos vem por uma questão simples de produção executiva e equipe técnica do filme, mas a afirmação vai além disso. Essa versão de Claire Foy para a anti-heroína altera, em conceito mesmo, uma série de coisas já pré-estabelecidas para a personagem, fator que se fortalece na forma como a atriz interpreta a hacker. A ação ligada a um feminismo radical ainda está presente aqui, a visão anti-sistema de Lisbeth, idem, sendo essa uma das caraterísticas principais da personagem na literatura. Ocorre que tanto na prosa de Larsson quanto na de Lagercrantz, essa garota que pune os homens que agridem as mulheres é muitíssimo sombria, isolada, afastada de manifestações maiores de moção, gratidão, atenção para laços. Não que isso não exista na literatura, mas é raro e rápido. Na construção da personagem por Noomi Rapace e Rooney Mara isso foi muito bem capturado. Já na de Claire Foy…

Nessa aventura, especificamente, temos Lisbeth contratada para recuperar um programa de computador chamado FireFall. Criado por um dos gênios da computação na suécia (isso é o que o filme diz, mas plot do livro vai por um caminho bem diferente) o FireFall dá a qualquer usuário que o acesse o controle sobre um imenso material bélico em todo o mundo. O professor Frans Balder (Stephen Merchant, em uma interpretação aceitável para o contorno raso de seu personagem no filme) cria essa “abominação tecnológica” para os Estados Unidos, mas logo se dá conta de que é um programa perigoso demais e deseja destruí-lo, então contrata Lisbeth para roubar o programa dos americanos. O suspense, a partir daí, é construído de maneira interessante ao longo de todo o filme, com ações inteligentes da hacker para conseguir se livrar de gângsters, de um agente americano e da polícia sueca. Cada ato possui uma camada de novidade, mas nem todas elas funcionam. 

Minha maior decepção aqui foi com o personagem de Christopher Convery, August, filho do gênio Frans Balder. Sim, a versão literária para o menino é complexa. Mas é excelente. Nessa adaptação, o garoto mantém um certo ar de genialidade com números e raciocínio que o torna a chave de todo o projeto, mas ainda assim, é uma posição que pouco acrescenta ao filme, em si. O verdadeiro peso dele está na reta final, com o melhor momento de toda a obra, na sequência ambientada na antiga casa dos Salander. Mesmo com Sylvia Hoeks interpretando uma Camilla demasiadamente afetada e com um senso melodramático que destoa de todo o resto da fita (notem aquele diálogo final… sério…) toda a jornada na casa realmente nos tira o fôlego, tendo aí um baita trabalho da montagem, um grande acerto da trilha sonora (duas áreas que também se destacaram na sequência do aeroporto, outro momento elogiável do filme) e uma assinatura muito inteligente de Alvarez na direção, criando diversos elementos de suspense com a adição de boas surpresas.

Infelizmente nós precisamos passar por momentos vergonhosos de verossimilhança no roteiro, como na cena pós-ataque à casa de Balder, com Lisbeth recobrando a consciência, mais um grande número de lombadas na relação entre a protagonista e a Millennium — pontos mais fracos do filme –, um reflexo infeliz dos cortes feitos pelo roteiro em relação à trama principal e essência do livro, o que certamente afeta o andamento dessa história. Millennium: A Garota na Teia de Aranha é, no todo, esquecível, mas o público pode contar com bons momentos de suspense e uma sequência final eletrizante, para compensar.              

Millennium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl in the Spider’s Web) — Reino Unido, Alemanha, Suécia, Canadá, EUA, 2018
Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez, Jay Basu, Steven Knight (baseado na obra de David Lagercrantz e nos personagens de Stieg Larsson).
Elenco: Claire Foy, Sylvia Hoeks, Lakeith Stanfield, Stephen Merchant, Cameron Britton, Vicky Krieps, Sverrir Gudnason, Volker Bruch, Mikael Persbrandt, Claes Bang, Andreja Pejic, Sonja Chan, Christopher Convery, Synnøve Macody Lund, Anja Karmanski
Duração: 117 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.