Crítica | Mindhunter – 1ª Temporada

Se existe um tipo de filmes e séries de suspense que já foi explorado de infinitas formas, para o mal ou para o bem, é o que tem serial killers como seu objeto de estudo. Desde que o curta português Os Crimes de Diogo Alves tecnicamente inaugurou o subgênero várias décadas antes da própria expressão existir, com o fantástico M, O Vampiro de Dusseldorf provando que o material pode produzir obras-primas, passando por sua popularização a partir do genial Psicose que quase que literalmente pariu slashers dos mais variados e um sem número de complexos estudos de personagens representados por obras tão díspares quanto Terra de Ninguém, O Silêncio dos Inocentes, Assassinos por Natureza e Psicopata Americano, o cinema e a televisão são inundados de sociopatas assassinos de todos os tipos cometendo todas as perversidades que a mente humana pode imaginar.

David Fincher, em sua relativamente curta carreira diretorial (são apenas 10 longas), abordou o tema nada menos do que quatro vezes, cada uma delas de um jeito particular. Em Seven: Os Sete Pecados Capitais, ele mergulhou na psiquê de um jovem policial tendo que lidar com um assassino frio e extremamente calculista. Com Zodíaco, seu foco foi no frustrante processo investigativo de crimes reais. Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres é um thriller de ação com contornos políticos e repleto de críticas sociais. Finalmente, Garota Exemplar é, certamente, o menos típico de seus filmes no subgênero e provavelmente sua inclusão aqui nesta lista fará alguns torcerem o nariz em dúvida, mas a sociopatia assassina é evidente em cada quadro da obra, com severas críticas ao jornalismo que culpa antes e apura depois e, claro, ao casamento em si.

Portanto, o nome de Fincher (juntamente com o de Charlize Theron, que viveu a serial killer Aileen Wuornos no traumatizante Monster: Desejo Assassino) como produtor executivo de Mindhunter, série do Netflix que adapta a obra homônima e baseada em experiências reais que o ex-agente do FBI John E. Douglas escreveu com Mark Olshaker, não é uma surpresa. Ao contrário, é algo mais do que bem-vindo e esperado não só por sua intimidade cinematográfica com o assunto, como também por seu trabalho com o canal de streaming que gerou a aclamada versão americana de House of Cards.

Sob certos aspectos, a série, desenvolvida por Joe Penhall, é uma inteligente mescla dos citados filmes de Fincher com um toque documental que empresta veracidade e legitimidade ao que vemos ser desenvolvido na telinha, além da identidade visual do produtor, que senta também na cadeira de diretor em quatro episódios de um total de 10. Mindhunter funciona como um prelúdio ao que hoje entendemos cinematograficamente sobre serial killers, por assim dizer, eficientemente narrando a origem da ciência que os estuda profundamente.

Na história, passada na segunda metade da década de 70, acompanhamos o jovem agente especial do FBI Holden Ford (Jonathan Groff), alter-ego de John E. Douglas, que, depois de uma negociação em um sequestro que acaba com o suicídio do sequestrador, passa a empiricamente tentar entender o que se passa na cabeça de sociopatas. Sua intuição, também catalisada pelo recente relacionamento amoroso com Debbie Mitford (Hannah Gross), uma inteligente estudante de sociologia, o leva de volta à faculdade sob protestos de seu chefe, que desdenha de sua tentativa de tentar entender a mente criminosa. No entanto, sua teimosia e insistência têm resultados e ele acaba se juntando ao veterano agente Bill Tench (Holt McCallany), da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, personagem baseado no ex-agente Robert Ressler que, assim como Douglas, foi um dos primeiros profilers psicológicos da agência, para se dedicar ao estudo de assassinos sequenciais encarcerados por todo os EUA.

Trata-se de uma rica fotografia do exato momento na história policialesca em que a compreensão da mente do sociopata passou a ser elemento de fundamental importância para o processo investigativo. Holden e Bill, de forma pioneira e inédita, mostram o valor da criação de perfis para cada tipo de criminoso, simultaneamente colocando em prática o conhecimento adquirido por intermédio de entrevistas que começam com o assustador, mas altamente inteligente Edmund Kemper (Cameron Britton), responsável pelo sequestro e assassinato, na vida real, de diversas mulheres no começo da década de 70, além do assassinato de seus avós aos 15 anos e de sua própria mãe mais tarde, e isso sem contar com atos de necrofilia e canibalismo.

Apenas o aspecto histórico, por si só, já tornaria Mindhunter fascinante o suficiente para valer o mergulho completo na série. Mas há muito mais para ser apreciado do que apenas a narrativa de superfície, a começar pelo elenco principal, aqui formado por Groff e McCallany.

Holden Ford, claro, é o foco da narrativa e o que vemos é um metódico agente que não desiste fácil de nada que decide ser o certo a fazer. Groff compõe seu personagem de maneira que percebemos que ele não é uma pessoa exatamente normal, com seu trabalho cada vez mais afetando sua vida privada sem que ele perceba. Na verdade, as mudanças no personagem são sutis, delicadas mesmo e nem mesmo o espectador perceberá completamente o quanto sua teimosia o leva para próximo do abismo. Holden é, em partes iguais, um nerd, um portador de T.O.C. e um homem embebido em hubris, com seu descomedimento e vitórias em campo compondo um perigoso quadro de um homem orgulhoso que jamais está errado.

Interessantemente, porém, se comparado com seu parceiro Bill, Holden tem um arco de desenvolvimento menos acentuado. Ele é, fundamentalmente, igual do começo ao fim, seja no trabalho, seja em casa. Não que isso seja um defeito, mas Bill, que começa como o arquétipo do parceiro mais experiente e durão, mostra-se extremamente sensível a tudo o que eles veem ao seu redor, percebendo que suas entrevistas com criminosos e viagens por todo o país tem afetado sua vida doméstica, com sua amada esposa sendo esquecida e com seu filho adotivo com problemas de empatia sendo relegado a segundo plano. Sem entrar em detalhes, basta notar, mais para o final da temporada, quando seu calado filho descobre uma foto tenebrosa do lado profissional de Bill, como ele reage, como ele percebe que ele precisa separar o FBI de sua vida particular, especialmente considerando o tipo de trabalho que ele faz.

Já Holden não tem nada nem parecido. Ao contrário até, o uso de sua namorada no roteiro é maniqueísta e simplista. Ela entra em sua vida logo no primeiro episódio e, nesse exato momento, percebemos exatamente o que acontecerá com ela, ou, mais precisamente, com o relacionamento dos dois. Debbie existe única e exclusivamente para permitir que textos expositivos sobre o trabalho de Holden sejam inseridos na narrativa de forma um pouco mais orgânica, mas a personagem em si sequer tem um arco, sequer tem outra função que não ser a recipiente de comentários de seu parceiro sobre sua  vida profissional, nunca sobre a dela. Mesmo que essa questão em si seja trabalhada nos roteiros, fica a impressão de uma personagem desperdiçada.

Mas há um terceiro vértice nessa história, que é a Dra. Wendy Carr (Anna Torv), personagem baseada na Dra. Ann Wolbert Burgess, uma psicóloga arregimentada pelos parceiros para tornar o trabalho deles mais organizado, mais cientificamente correto. Ainda que Carr apareça na série desde cedo, ela só entra de verdade um pouco mais para a frente, quando efetivamente passa a trabalhar de Washington D.C. quase que como uma chefe de Holden e Bill. Ainda que a presença física de Anna Torv seja impressionante, com a atriz facilmente tomando o comando das sequências em que aparece, ela de certa forma tem função parecida com a de Debbie, ainda que bem mais relevante na estrutura dos roteiros. Carr é, digamos assim, a bússola moral do trabalho de campo de Holden e Bill, com o primeiro cada vez mais confiante em sua técnica de interrogatório e, por isso mesmo, cada vez mais próximo de problemas.

A direção de arte da série é sutil e muito eficiente ao reconstruir o final da década de 70 em cidades grandes e pequenas americanas, cada uma com sua própria identidade. É um trabalho que não chama atenção para si mesmo, permanecendo em segundo plano, mas sempre compondo e ajudando nossa imersão. De certa forma, a fotografia tende a cambar para o tom sépia, mas sem a mesma intensidade de Seven, o que funciona para o tom documental que a história carrega.

Fincher, que dirigiu os dois primeiros episódios (e depois os dois últimos) estabelece seu estilo como o padrão para o movimento de câmera na série, imprimindo sua técnica que fazer a mímica dos movimentos do personagens, com travellings e tilts sutis que têm o objetivo de nos aproximar de cada integrante da série, notadamente, claro, a dupla principal. É como ver uma versão estendida de Zodíaco ou mesmo de Seven, o que aumenta o prazer do espectador.

A primeira temporada de Mindhunter é surpreendentemente auto-contida e poderia acabar nos momentos finais envolvendo Holden. No entanto, as curtas sequências envolvendo um funcionário da empresa de segurança ADT, que são salpicadas ao longo de quase todos os episódios, servem como a deixa para um novo caso a ser resolvido por Holden e Bill, caso esse também baseado em fatos reais. Foi uma forma sutil e inteligente de deixar em aberto a possibilidade de uma nova temporada que, aliás, já foi aprovada.

Mindhunter é um belíssimo exemplar de thriller que se aproxima do espectador, apesar de lidar com situações terríveis. Apesar de seus problemas aqui e ali, especialmente no que toca os arcos de seu elenco feminino, Holden e Bill ficarão na mente de que assistir essa série, assim como o enorme Edmund Kemper.

Mindhunter – 1ª Temporada (EUA, 13 de outubro de 2017)
Criador e showrunner: Joe Penhall (baseado em obra de John E. Douglas e Mark Olshaker)
Direção: David Fincher, Asif Kapadia, Tobias Lindholm, Andrew Douglas
Roteiro: Joe Penhall, Ruby Rae Spiegel, Dominic Orlando, Jennifer Haley, Tobias Lindholm
Elenco: Jonathan Groff, Holt McCallany, Hannah Gross, Anna Torv, Cotter Smith, Stacey Roca, Joe Tuttle, Alex Morf, Sonny Valicenti, Cameron Britton, Happy Anderson, Jack Erdie, Joseph Cross, Marc Kudisch, Michael Park, George R. Sheffey, Duke Lafoon, Peter Murnik
Duração: 496 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.