Crítica | Minha Mãe é Uma Peça

estrelas 3

Paulo Gustavo é um comediante talentoso. O seu magnetismo com este segmento artístico o tornou um dos atores de maior sucesso dos últimos anos. O seu humor debochado e as irônicas investidas fazem rir até mesmo aqueles que não admiram o seu trabalho tal como o grande público. Coloco-me, desde já, nesta poltrona: apesar de reconhecer o seu talento, o carisma diante do público que lota os seus espetáculos e a sua capacidade de criar algumas piadas divertidas, acredito que as suas apostas humorísticas têm alcançado esvaziamento.

O filme nos apresenta D. Hermínia (Paulo Gustavo), uma caricata mãe típica que reclama o tempo todo, pega no pé dos filhos, constrange com a língua afiada e desenfreada e protege a sua prole com requintes de histeria. Divorciada, a mulher de meia-idade vive com os seus filhos Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier). Certo dia, cansados dos exageros da mãe, os meninos cometem um ato falho que a faz sair de casa sem dar satisfações.

O seu retiro está na casa de uma tia (Suely Franco), espaço que será o ambiente para a história ser contada no ritmo de flashback. Para preencher o enredo temos Herson Capri interpretando o ex-marido, Ingrid Guimarães, atual esposa, óbvio desafeto da matriarca. Além destes personagens coadjuvantes que em muitos casos, pouco acrescentam ao enredo, temos histórias tentaculares que abusam do bom senso e ganham desfecho rápido no epílogo, o que demonstra falta de tato no que tange aos cuidados com o roteiro.

Adaptação do monólogo teatral que foi sucesso de público e crítica, Minha Mãe é Uma Peça vem na esteira do apelo comercial para as comédias no Brasil, tais como Se eu Fosse Você e De Pernas pro Ar. Com direção de André Pellenz, roteiro de Felipe Braz, em parceria com Paulo Gustavo, o filme segue o padrão global de estética audiovisual, o que nos remete em muitos momentos ao clima de novela das oito.

Paulo Gustavo, como dito anteriormente, é talentoso, talvez mais do que isso, é esperto, pois reconhece os seus dotes. Faz stand-up, controlou com segurança o programa de TV 220 volts, esparramou sucesso com Vai Que Cola, mas na versão cinematográfica de D. Hermínia, excedeu-se e caiu nas garras da caricatura. Problema? Só para os mais exigentes, haja vista o interesse do público por seus materiais, principalmente para o terrível, tenebroso e depreciativo Vai Que Cola – O Filme, uma das piores produções do cinema brasileiro contemporâneo.

O problema da comédia no Brasil (talvez no mundo todo) é gastar energia com momentos pouco inteligentes em prol do humor embasado em piadas preconceituosas e chulas. A filha de D. Hermínia, por exemplo, é alvo de piadas esdrúxulas por conta do seu peso e da sua ansiedade, o que lhe faz comer além do dito normal e, por isso, ser alvo constante, talvez uma muleta, para fazer rir quando D. Hermínia não consegue dar conta do momento.

Com parcos 84 minutos, Minha Mãe é Uma Peça peca em alguns aspectos, entretanto, consegue dar conta do recado, caso você não assista com muitas exigências. A inevitável sequência pretende explorar novos momentos desta família histriônica e caricata. Será que Paulo Gustavo e seus companheiros de cena conseguem se superar?

Minha Mãe é uma Peça Brasil, 2013 
Direção: André Pellenz
Roteiro: Felipe Braz, Paulo Gustavo
Elenco: Alexandra Richter, Herson Capri, Ingrid Guimarães, Mariana Xavier, Mônica Martelli, Paulo Gustavo, Rodrigo Pandolfo, Samantha Schmütz, Suely Franco
Duração: 84 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.