Crítica | Minha Mãe é Uma Sereia

estrelas 4,5

Um verdadeiro clássico moderno, Minha Mãe é Uma Sereia acompanhou uma geração que passava as tardes ligadas aos filmes exibidos na televisão aberta nos anos 1990. Era uma época de novidades, pois os videocassetes estavam se tornando mais populares, assim como as videolocadoras, estabelecimentos que cresciam vertiginosamente em cada esquina. Mesmo com as possibilidades de alugar filmes, muita gente ainda dependia ou aliava os filmes em VHS aos sucessos exibidos nas sessões vespertinas. Minha Mãe é uma Sereia é um destes clássicos.

Situado em East Port nos anos 1960, a narrativa nos apresenta ao trio Rachel Flex (Cher), Kate (Christina Ricci) e Charlotte (Winona Ryder), a primeira como a mãe viajante e as duas como as filhas acompanhantes. Mesmo diferente dos padrões, a Sra. Flex é zelosa com as filhas, o que não impede, por sua vez, o surgimento de conflitos. O alvo dos problemas está na relação com Charlotte, a mais velha, garota que sonha em se tornar uma freira, mas precisa lidar com o jeito despojado e desprendido da mãe, uma mulher cheia de ironias. Já Kate, a caçula, é uma criança e ainda não possui tantas opiniões formadas sobre as coisas. Apaixonada por natação, a garota é destaque em competições locais que vão ganhar algumas cenas do filme e ainda ser alvo de um evento trágico próximo ao fim, o que trará ensinamento para todos.

Metáfora para o crescimento, o filme foca boa parte nos duelos entre Rachel e a filha mais velha, pois por mais que a mãe lhe apresente algum desconforto, os seus perfis demonstram proximidade em algumas atitudes. A mãe conhece o bem humorado Lou (Bob Hoskins), no entanto, com medo de compromisso, torna-se complicada no relacionamento. Uma das suas características é fugir de uma localidade quando surge um problema no qual não saiba lidar. Já Charlotte, mesmo interessada em ser freira, descobre o “amor” com o bonitão Joe Porreti (Michael Schoeffling), o que coloca em xeque o seu futuro religioso.

As três personagens centrais dão um show de conexão e interpretam bem a evolução de seus papeis ao passo que a narrativa avança. Cher está maravilhosa como Rachel Flex, a mãe que não segue as “cláusulas da maternidade” estipuladas pela sociedade patriarcal. Ela não se encaixa dentro dos padrões mais fáceis, as suas filhas se alimentam por conta própria em alguns momentos. Ademais, a matriarca se permite conhecer vários homens, inclusive alguns casados, o que a isenta de participar do lugar comum dos clichês típicos da mãe padrão que segue à risca as regras para se mostrar protetora e adequada.

É isso que torna a personagem “cheia de vida”. Ela é imperfeita: egoísta, não pensa no desejo e nas vontades das filhas; dominadora, quer sempre ter a opinião final sobre algo. Em suma, uma mulher com vários defeitos, mas também cheia de qualidades. Sob a direção de Richard Benjamin, com base no roteiro de June Roberts para o livro homônimo de Patty Dann, Cher mais uma vez ganha a oportunidade de brilhar, sendo uma das poucas cantoras que conseguiram sucesso crítico na seara cinematográfica.

No que diz respeito ao visual, a produção também consegue demonstrar eficiência. Os elementos da linguagem cinematográfica estão muito bem cuidados. A direção de arte de Steve Saklad e Evelyn Sakash é formidável, pois radiografa bem o contexto histórico do filme, tendo o setor de figurinos de Marit Allen como um forte aliado.  Cher não perdeu tempo e encaixou algumas canções na trilha sonora, outro ponto forte da narrativa, espaço de eficiência junto ao produtor musical Jack Nietzsche.

Lançado na entrada da década de 1990, Minha Mãe é Uma Sereia oferta ao espectador 110 minutos de personagens conectados, mensagens edificantes e estratégias narrativas bem adequadas ao seu contexto histórico, uma época em que as mulheres pouco ousavam e geralmente eram obedientes ao patriarcado. Ao se mostrar como uma mulher à frente do seu tempo, Rachel Flex adentra a galeria de mulheres fortes do cinema, num filme aparentemente comum, mas carregado de suas complexidades. Depende muito da capacidade do espetador de fazer as devidas relações, pois geralmente, o cinema hollywoodiano é conhecido por entregar as interpretações na bandeja, bem como vedar qualquer reflexão que adentre o tecido narrativo, não é mesmo?

Minha Mãe é Uma Sereia (Mermaids) — Estados Unidos, 1990
Direção: Richard Benjamin
Roteiro: June Roberts
Elenco: Cher, Winona Ryder, Christina Ricci, Bob Hoskins, Caroline McWilliams, Baxter Harris, Arnie Cox, Bob Rogerson, Grace Costa.
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.