Crítica | Minha Vida de Abobrinha

estrelas 4

“Abobrinha… Sua mãe te chamava assim? Hm. Meu nome é Raymond. 

Sua mãe te chamava assim?”

O filme em questão obriga-me a começar esta resenha crítica, excepcionalmente, com uma tentativa frustrada em ser cronista, lampejos de uma outra vida que não a atual. Pois bem, onde estou – ou onde estava? Rio de Janeiro. Capital. Em apenas duas ou três salas de cinema, Minha Vida de Abobrinha, uma produção franco-suíça, concorrente ao prêmio de Melhor Animação no Oscar 2017, estava sendo acomodada nas telonas, uma pontuação curiosa para um longa-metragem, teoricamente, com maior visibilidade. Encaminhei-me, como o bom profissional que sou, a uma dessas duas ou três salas de cinema para poder entender – ou discordar – da nomeação dessa animação. O cenário, porém, era de reclamação. Peguei-me reclamando por apenas tão poucos cinemas estarem disponíveis para tal produção. Reclamei e reclamei. Bati perna. Mas, depois de um tempo de indagação e indignação, voltando para casa, compreendi as causas e analisei todo o espectro. Se os holofotes da indicação ao Oscar deram à animação a oportunidade de, pelo menos, ser vista no circuito comercial brasileiro, eu devia agradecer. Minha Vida de Abobrinha surgiu do nada e, colocada ao lado de Zootopia e Moana, uma daquelas duas ou três salas pode me mostrar, além das outras sete pessoas na sessão, tudo que a produção tinha a oferecer – e não era pouco. Eu reclamava, por fim, da minha própria reclamação.

A animação não quer saber de jogo mole. Somos abruptamente, logo de cara, expostos à tragédia imensurável que desdobra-se na trama da fita. A sequência inicial apresentada é sóbria, sem ornamentos desnecessários, retratando, de maneira completamente áspera, a perda representada. Como uma criança lida com isso? Mas esse não é um filme infantil, para crianças, apesar de se relacionar sentimentalmente com a infância. O ambiente trata de trabalhar essa desconstrução da infância, justamente com a reconstrução da infância, aparentemente perdida em meio a pesares maiores. O enredo se encaminha para um orfanato, onde o protagonista Icare, carinhosamente chamado de Abobrinha (Gaspard Schlatter), tem que aprender a lidar com a ausência, o desafeto, a perda, e, finalmente, seguir em frente. Como uma criança segue em frente?

O roteiro, escrito por Céline Sciamma, baseado nos textos de Gilles Paris, consegue ser eficiente em transitar entre as crianças e os pesos que elas carregam, transmutando-se de ambiente – seus diferentes pesos – de forma bastante natural. As personagens do orfanato possuem seus próprios dramas pessoais; seus próprios pesadelos que, infelizmente, haviam se tornado realidade. Simon (Paulin Jaccoud), de antemão, é quem abre as portas de Abobrinha e do público para a compreensão dos fatos que acercam a mentalidade dos outros órfãos – e dele mesmo. O garoto surge como um antagonista sumário em seus primeiros momentos, mas o retrato do garoto é desconstruído rapidamente, para dar margem a uma bonita conexão entre ele e Icare, além de uma proximidade comparativa entre a situação de ambos, unidos no pior que a vida ofereceu a eles, ainda tão jovens.

A excelente escolha do roteiro em levar o espectador a presenciar alguns momentos triviais do cotidiano dessas crianças serve para construir a inocência dos pequenos, em contraste. Nunca sentimos estar diante de crianças lidando com problemas sérios como adultos lidariam. O filme não quer amadurecer esses personagens, desvencilhá-los da infância de forma adiantada. A representação honesta da infância, ainda como infância, sumiria. Contudo, com exceção de Béatrice (Lou Wick), abrangendo alguns episódios desconfortáveis e pungentemente sensíveis – aliás, a personagem tem uma conclusão maravilhosa -, as outras crianças não são tão bem exploradas pelo roteiro, sem irem além de protótipos de personalidades interessantes. Mesmo assim, a química entre os órfãos permanece gigantesca, fazendo-nos importar individualmente por acreditarmos no coletivo.

A presença do policial Raymond (Michel Vuillermoz), em outra instância, um adulto no meio da puerilidade infantil, tem como papel trazer uma figura paterna e acolhedora a Abobrinha. O personagem-título acaba por ter, desde o início de sua dor, um alguém ao seu lado para encarar as situações nas quais é exposto. Este é um vínculo que se transforma em uma grande amizade em pouco tempo e, em consequência dessa impossibilidade da solidão, não permite que vejamos Abobrinha isolado e ressentido o suficiente para, em razão disso, nos atermos emocionalmente à assistência do homem. Raymond possui seu próprio background, mas todo o seu ótimo arco poderia ter sido alongado um pouco mais a ponto de nos fazer se importar, inteiramente, com a história de amor entre ele e o garoto – um pouco do sofrimento ajudaria para a felicidade mostrar-se por completo.

A introdução de Camille (Sixtine Murat), por outro lado, possibilita a história andar narrativamente e, ao mesmo tempo, também ganhar mais familiaridade. O mistério envolto do porquê a garota estar naquele orfanato surge para amadurecer a relação de Abobrinha e Simon, e, posteriormente, para criar uma afinidade entre ela e o protagonista da obra. Há uma viagem que o orfanato faz, no meio do longa, onde se estabelece o elo entre o garoto e a garota. Nessa viagem, Minha Vida de Abobrinha concede ao público um plano destruidor, onde, enquanto uma mãe cuida de seu filho machucado, o grupo de garotos olha para os dois, em um anseio interminável por cuidados maternos. O diretor Claude Barras alonga a cena alguns segundos a mais, permitindo que o público sinta. Sinta a dor. Sinta as circunstâncias ao redor deles. A direção preza pela sensibilidade.

Onde encontra-se a familiaridade, então? Pois, sucedendo essa criação de vínculos, revela-se, das sombras funestas da vida de Camille, a figura de sua tia (Brigitte Rosset), que, coberta de desejos intensamente egoístas, está no filme apenas para gerar um conflito e levar a narrativa de um determinado ponto para o próximo, ocasionando o esvaziamento de propósito e a dita previsibilidade. O conflito até gera um desenvolvimento de pensamento interessante sobre a garota e os personagens a sua volta. Entretanto, fora isso, a tia é uma criatura nefasta totalmente unidimensional. Ademais, embora a conclusão do atrito entre as duas – sobrinha e tia – não seja fraca, o final do filme, em si, é extremamente apressado, salvo pelos diálogos entre as crianças, que são, de todos, geniais. Minha Vida de Abobrinha não precisava ser tão curto.

O diretor Claude Barras, sob outra vertente, imprime ao filme uma estética surrealista e, apesar desta remeter-se ao famoso cineasta Tim Burton, não devemos tirar os méritos do diretor suíço. Não espere, todavia, a animação em stop motion no seu melhor dia, muito pelo contrário. Em decorrência do baixo orçamento, evita-se mostrar diferentes cenários e apostar em um detalhamento maior do horizonte. Mesmo assim, há alguns distúrbios animados claros, como, por exemplo, um esquilo tenebroso, que poderia ter sido facilmente retirado do filme e não mudaria em nada o resultado. O foco, de fato, está nos personagens. Os olhos dos bonecos, portanto, são excepcionalmente expressivos. Há um toque de sensibilidade no piscar e na posição das pálpebras que deixa todas as emoções serem transpostas com imensa veracidade.

A sensibilidade e a veracidade, no final, ganha. Embora conte com tropeços pontuais, Minha Vida de Abobrinha é uma belíssima contemplação da amizade e do amor, sentimentos dispostos no mais belo oceano da infância redescoberta. Possuindo um grupo de crianças extremamente carismático, problemas maiores no núcleo dos adultos não impedem o filme, no entanto, de trazer mensagens relevantes sobre perda, luto e orfandade, encaminhando o público à reflexão. Auxiliado pelo sempre gracioso trabalho de stop motion, Barras traz, em seu primeiro longa-metragem, um excelente trabalho, singelo e emocionante. Tudo isso pode ser visto nas telonas, contanto que você vá, como eu mesmo fui, para uma daquelas duas ou três salas. Um pouco mais de uma hora para um encantamento tocante, onde as pessoas aprendem, ainda sendo pessoas, também crianças, a se amar.

Minha Vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette) — Suíça/ França, 2016
Direção:
 Claude Barras
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud, Michel Vuillermoz, Raul Ribera, Estelle Hennard,  Elliot Sanchez
Duração: 66 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.