Crítica | #MinhaFuga / #MyEscape

estrelas 4

Se levarmos em consideração a quantidade de pessoas que entre 2010 e o ano em que este documentário foi lançado, 2016, saíram de seus países para pedirem abrigo na Europa e nações de outros continentes, fugindo das novas ordens políticas e sociais nesses pontos de origem, estamos diante da maior diáspora da História da humanidade até este momento. O leque de amostragem é grande: número enorme de pessoas, grande número de países dos quais fugiram, grande número de mortos.

#MinhaFuga (2016) se utiliza de uma hashtag do Twitter e Facebook (#MyEscape) marcada pelos imigrantes que, com seus dispositivos móveis ou câmeras digitais, filmavam e postavam os vídeos nessas redes sociais ou no Youtube, utilizando a hashtag #MyEscape para mostrar momentos da viagem, perigos enfrentados,  ajuda e parceria com outros viajantes; contato com os traficantes, sequestros, ação da polícia costeira, chegada aos seus lugares de intenção e o primeiro contato com a população de sua ‘nova casa’.

Dirigido e escrito por Elke Sasse, o longa acompanha refugiados da Síria (fuga do Estado Islâmico), Afeganistão (fuga da retomada pontual do Talibã e do fundamentalismo que tomou conta do governo e das facções que controlam o país) e Eritreia (fuga da ditadura de Isaias Afwerki, no poder como presidente desde a independência da Eritreia em 1993, embora estivesse como interino desde 1991). Selecionando grupos ou pessoas específicas e seus vídeos registrando o translado pelo Oriente Médio ou Saara até o Mar Mediterrâneo, ilhas gregas ou costa sul da Espanha, Sasse torna a questão ainda mais pessoal e faz o espectador ver de perto o hercúleo esforço e condições que essas pessoas enfrentam para chegar a um lugar onde possam ser tratadas como humanos, esta, inclusive, sendo uma das observações dos entrevistados após sua chegada à Alemanha.

Mas apesar de tudo, o espectador lamenta que o filme tenha um tratamento ufano para com a presença desses milhões de imigrantes na Europa. O maior impasse registrado no longa está apenas quando vemos takes do fechamento das fronteiras da Hungria e da Croácia, mas não temos a necessária problematização que indique que a Alemanha, como é amplamente sabido, não é exatamente o paraíso na Terra no relacionamento com os que vem de fora. Além disso, faltou considerar o óbvio fato de que nem todos os imigrantes possuem o mesmo tratamento nos países onde chegam – vide, por exemplo, o caso do Brasil com os haitianos, para falar apenas de uma lufada imigratória recente.

Aliás, o erro de Elke Sasse, que também assina o roteiro, foi investir todas as fichas possíveis para completar os vídeos tomando depoimentos no formato de entrevistas – que são muito boas, realmente tocantes, mas sobrecarregam a fita, cansando o espectador após algum tempo – ao invés de completar a obra com mais contexto sociopolítico e atualidades. Levando em consideração o dinamismo utilizado para mostrar os refugiados, #MinhaFuga se beneficiaria muito mais com inserções críticas e contexto para os trajetos do que a continuação dos vídeos em entrevistas após a chegada dos imigrantes.

Em um mundo onde a questão da identidade é discutida em muitas esferas, da arte à vida real, e onde a globalização parece fechar ainda mais, ao invés de abrir, as fronteiras dos países para os cidadãos, um documentário como #MinhaFuga é importante para mostrar que há muito mais do que um “simples” pedido de abrigo por trás daquelas milhões de pessoas que arriscam a vida para conseguirem chegar a um lugar onde possam viver em paz. Médicos, jornalistas, comerciantes, estudantes, músicos, homens, mulheres, jovens, velhos, crianças. Todos em busca de um pouco de humanidade, de um lugar onde os impasses da fuga fiquem para trás e todo o esforço tenha valido a pena.

Como disse antes, falta ao documentário um maior espaço de crítica para com essa recepção aos que chegam, uma recepção que não é inteiramente calorosa e cheias de oportunidades como se mostra, em micro escala. Mas isso não inutiliza o ótimo trabalho de documentação e o motivo principal da película, que é mostrar o translado das pessoas de sua terra natal para a Europa. Isso é conseguido com sucesso, e utilizando de um processo de animação e organização de dados condizentes com os tempos onde hashtags chamam a atenção das pessoas para problemas mundiais e ajudam a tornar conhecido o sofrimento que, de outra forma, seria mais um, dentre tantos, como conhecemos aos montes no decorrer da História do mundo.

#MinhaFuga (#MyEscape) – Alemanha, 2016
Direção:
Elke Sasse
Roteiro: Elke Sasse
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.