Crítica | Minority Report: A Nova Lei

estrelas 4,5

Minority Report é um dos filmes mais estilosos de Steven Spielberg. O diretor, com uma das carreiras mais sólidas de Hollywood e responsável por diversos clássicos da Sétima Arte como Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Os Caçadores da Arca Perdida, E.T. – O Extraterrestre e A Lista de Schindler, entregou um filme que não só nos apresenta a uma preocupante versão do futuro – e que, em muitos aspectos, já estamos vivendo -, como o fez com uma mescla rara entre ação e contemplação, pancadaria e exposição, tudo isso envolto em um visual embasbacante e engajante.

Vamos, então, começar justamente por esses contrastes. Um dos primeiros aspectos visuais evidenciados pela fotografia astuta de Janusz Kaminski (que trabalha com Spielberg desde A Lista de Schindler, tendo sido responsável pela bela plasticidade azulada de A.I. – Inteligência Artificial, no ano anterior) é exatamente a oposição entre luz e sombra. Há uma atmosfera neo-noir que estilisticamente torna o futuro de Minority Report algo dúbio, incerto, uma utopia envolta em sombras. E, definitivamente, esse é o cenário criado pelo roteiro de Scott Frank e Jon Cohen com base em conto de Philip K. Dick: um futuro em que Washington D.C., a capital americana, vê-se livre de assassinatos com a implantação de um programa que permite a prisão dos criminosos antes que eles cometam os crimes, programa este que está em vias de expansão para todo os EUA, caso o Congresso permita. Ao passo em que D.C. é vista como uma cidade limpa, com um design de produção que se esmera em contrastar o branco com o preto, sendo o branco destinado ao lado utópico da narrativa e o preto ao lado distópico, lado este para onde toda a sujeira foi “varrida”, com uma sociedade vivendo à margem da “limpeza”, com tráfico de drogas correndo solto, prostíbulos e outros estabelecimentos relegados a uma região específica da cidade.

A esperteza de Kaminski, porém, foi exagerar na utopia usando iluminação propositalmente exagerada em suas tomadas, dessaturando as cores e estourando o branco com uma técnica que alvejou o negativo em pós-produção. Assim, esse mundo utópico de Philip K. Dick, sob as lentes de Spielbeg e Kaminski é um mundo evidentemente de sonho, quase que como os personagens vivessem em constante delírio, em constante estado de êxtase. Todo esse cuidado combina perfeitamente com um tema que permeia toda a fita, que é a “percepção visual”. A visão é direta e indiretamente um aspecto essencial para a narrativa, funcionando desde forma prática, com o olho como instrumento de biometria para se abrir portas, até de forma filosófica, como a visão de futuro dos três pré-cogs que, vivendo isoladamente do mundo, preveem os futuros assassinatos a tempo da interferência policial comandada pelo Chefe John Anderton, vivido por Tom Cruise. E a visão turva funciona também para nos dar um pouco de profundidade nos sentimentos desse personagem, perturbado pela morte de seu filho seis anos antes, o que o tornou um caloroso defensor dessa polêmica forma de se reduzir assassinatos.

Para tornar compreensível essa realidade, o roteiro recorre ao uso de uma espécie de prelúdio que, no lugar de usar narração em off, artifício que pode muito facilmente ser mal empregado, trabalha uma ação policial liderada por Anderton. O espectador acompanha o processo completo, desde a visão dos pré-cogs até a prisão do futuro assassino, já deixando sobejamente claro aquilo que, naquele momento, precisamos saber para ser possível prosseguir confortavelmente. Spielberg, habilmente, sabe mesclar essa ação inicial com o efetivo começo da trama da produção, logo emendando com a vida pessoal de Anderton – a perda do filho, a separação da esposa, o uso de drogas – e a investigação do Departamento de Justiça, encarnado fisicamente por Danny Witwer (Colin Farrell) que tem a função de estudar todo o processo de premonição e de culpabilidade penal futura para passar seu parecer sobre a possibilidade de se expandir a técnica para além da capital americana. Sua visão pragmática se choca com os interesses apaixonados de Anderton e com os interesses políticos de Lamar Burgess, diretor da polícia vivido por Max von Sydow e pai da unidade de Pré-Crime, além de mentor de Anderton.

A trama detetivesca é complexa, cheia de camadas e não dá margem para o espectador respirar ou mesmo piscar, mesmo considerando a duração da obra. A partir do momento em que a ação entra em “turbo” com os pré-cogs prevendo que Anderton cometerá, em 36 horas, o assassinato de Leo Crow, que ele nunca ouviu falar, o roteiro passa a recorrer, talvez um tanto exageradamente, a textos expositivos para permitir que os acontecimentos sejam acompanhados a contento. O didatismo incomoda em determinados momentos como quando Anderton confronta a Dra. Iris Hineman (Lois Smith), a criadora da tecnologia que permite a previsão do futuro em sua estufa cheia de plantas geneticamente alteradas e que nos apresenta ao conceito de “relatório dissonante” ou o minority report do título; ou quando Witwer explica o que já ficou óbvio ao espectador para Burgess. Mas fica evidente que Spielberg sabe do problema e faz muito esforço para equilibrar esses momentos com ação de tirar o fôlego, mas que nunca confunde o espectador, nem chama atenção demais para si mesma. Por exemplo, no lugar de se alongar com a fuga de Anderton em seu carro auto-dirigível em estradas que vão na horizontal e na vertical, o diretor é econômico e usa o visual gerado por computação gráfica para efeito máximo, deslumbrando e surpreendendo em medidas iguais. O mesmo vale para as tomadas intrusivas que Spielberg usa com ajuda do CGI, com câmeras dentro de paredes, em recortes de um prédio e por debaixo da porta na sequência das “aranhas cibernéticas” ou para a luta inicial de Anderton contra seus pares com muito uso de eficientes efeitos práticos.

Mas, talvez mais fascinante do que todo o resto é mesmo a discussão moral que Minority Report propõe: o livre arbítrio versus a segurança. Seria concebível tolher a vontade das pessoas – seja da natureza que for – em prol de um mundo sem mortes violentas? Será que o mero conceito de punição por um crime que a pessoa nem sequer cometeu ainda não moldaria o comportamento, reduzindo a liberdade de escolha no processo? No final das contas, será que os fins justificam os meios? É absolutamente fascinante parar para pensar sobre isso e Spielberg, usando de toda a dramaticidade que lhe é característica, coloca o espectador no meio dessa discussão, queira ele ou não, ao nos fazer simpatizar com Anderton e seu passado sombrio com a perda de seu filho. Ele nos faz perguntar a nós mesmos: será que, para evitar a morte de um ente querido, nós abriríamos mão de nossa liberdade? Reparem como este é um tema atual, presente em nosso dia-a-dia de uma forma ou de outra. Afinal, o roteiro também apresenta essa mesma ideia de outra maneira, criando um mundo futuro em que o governo pode tomar medidas preventivas para proteger a sociedade e em que a mídia tornou-se tão intrusiva que não é possível nem mesmo dar um passo sem ter sua retina escaneada e ter seu nome mencionado por uma “pessoa digital” em um outdoor na rua oferecendo-lhe alguma coisa. Olhem ao seu redor, nos banners da página que está navegando e veja se seu comportamento não é já conhecido e manobrado pela mídia. O trabalho de futurologia em Minority Report é assustador!

Apesar do uso de diálogos expositivos que até se justificam para permitir que o filme flua de forma coerente, Spielberg cai em duas outras armadilhas, porém. A primeira delas é a introdução de Lara (Kathryn Morris) já no terço final da fita, dando-lhe papel relevante e essencial, quase que uma espécie de deus ex machina estendido. Ainda que sua existência e mesmo presença seja sentida e discutida antes, sua entrada na trama soa fácil demais, especialmente quando ela toma para si a ação, o que força a troca artificial de ponto-de-vista narrativo. A segunda armadilha é típica de Spielberg e, por isso, nem pode ser chamada de armadilha, estando mais para estilo mesmo. O diretor não resiste a um final positivo. Lembram-se dos últimos segundos de Guerra dos Mundos, também com Tom Cruise? Praticamente o mesmo acontece em Minority Report. E, aqui, como lá, o choque entre o caminho que a fita seguia e o que é visto nos poucos segundos antes dos créditos rolarem cria uma ruptura forte e desnecessária, que poderia ser evitada com uma visão de futuro mais incerta, menos redonda e confortável. Mas estamos falando de Spielberg, não é mesmo?

Apesar dos problemas, Minority Report é uma grande e cativante experiência cinematográfica, uma que, como as melhores obras do gênero, gera discussões acaloradas muito depois de seu fim. Trata-se de mais um acerto na carreira ímpar de Steven Spielberg.

*Crítica originalmente publicada em 10 de dezembro de 2015.

Minority Report: A Nova Lei (Minority Report, EUA – 2002)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Scott Frank, Jon Cohen (baseado em conto de Philip K. Dick)
Elenco: Tom Cruise, Max von Sydow, Colin Farrell, Samantha Morton, Steve Harris, Neal McDonough, Patrick Kilpatrick, Jessica Capshaw, Anna Maria Horsford, Daniel London, Lois Smith, Tim Blake Nelson, Ann Ryerson, Kathryn Morris, Mike Bender, Jessica Harper, Jason Antoon
Duração: 145 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.